Fogo Cruzado
capítulo 98
EU ESTAVA TRABALHANDO no Edifício Daly quando chegou o primeiro informe terrível, e dessa vez eu estava no local do crime minutos depois dos tiros. Esforcei-me ao máximo para ignorar o caos na rua, tentei não pensar nas vítimas – por enquanto – e me concentrei na coisa que mais precisava saber.
De onde vieram os tiros? Será possível que desta vez eles tenham cometido um erro?
Um sargento da Polícia Metropolitana na calçada fez um relato inicial segundo o qual Cornelia Summers havia caído primeiro e que ela estava à esquerda de George Ponti enquanto eles se dirigiam ao Harman. Dois juízes da Suprema Corte – mesmo agora parecia inconcebível!
Olhei para a esquerda, ao longo da Rua F. O Edifício Jackson Graham era uma possibilidade, no entanto, se eu fosse o atirador, teria escolhido o National Building Museum. Ficava dois quarteirões à frente, bem longe do local, e tinha um teto plano com bastante cobertura.
– Reúna três policiais uniformizados – pedi ao sargento. – Agora mesmo. Vou àquele prédio: o National.
Em alguns minutos estávamos lá na frente, batendo na porta do museu. Um segurança muito alarmado veio correndo para nos deixar entrar. O Serviço de Proteção Federal tinha jurisdição ali, mas haviam me dito que demoraria cerca de meia hora até que eles colocassem uma equipe no local.
– Precisamos ir ao telhado – disse eu ao guarda. Em seu crachá estava escrito DAVID HALE. – Qual é o caminho mais rápido?
Um dos patrulheiros não nos acompanhou, ficando para trás a fim de pedir por rádio um isolamento completo do prédio, e eu e os dois outros policiais seguimos Hale pelo corredor central do museu. Era um enorme espaço aberto de vários andares de altura, com colunas coríntias que iam até o teto. Era para lá que precisávamos ir.
Hale nos levou a uma saída de emergência no canto mais distante.
– É só subir – informou ele.
Nós o deixamos ali e seguimos pela escada, mantendo uma boa distância entre um integrante do grupo e outro, avançando um lance de cada vez, com lanternas e armas nas mãos.
No topo, chegamos a uma porta corta-fogo.
Ela deveria ter um alarme, mas a armação de metal estava no chão e o mecanismo em si pendia preso por alguns fios.
Meu coração já martelava devido à corrida. Agora acelerou de novo. Tínhamos chegado ao lugar certo.
Quando abri a porta, o amplo terraço estava diante de mim, com a cobertura do Escritório de Contabilidade visível do outro lado da Rua G. A chuva caía forte, mas mesmo assim dava para ouvir as sirenes e os gritos vindos do Harman.
Fiz sinal para que um dos policiais seguisse pela direita e o outro me acompanhasse na direção do barulho da rua.
Quando demos a volta em direção ao canto sudeste, uma fileira de claraboias bloqueava nossa visão.
Vi a sombra de algo nos arredores da mais distante delas – uma mochila de equipamentos ou talvez só um saco de lixo – e indiquei-a para o policial ao meu lado. Eu não sabia nem o nome do cara.
Seguimos ao longo do telhado abaixados e com as lanternas apagadas, só por via das dúvidas.
Quando chegamos mais perto vi que ainda havia alguém ali. A pessoa estava de joelhos, virada para o Harman e imóvel.
Minha Glock estava erguida.
– Polícia! Parado! – Mirei baixo, na direção das pernas, mas não havia necessidade. Assim que o outro policial o iluminou com sua lanterna vimos claramente o buraco escuro na nuca, lavado pela chuva. Seu corpo havia se alojado no canto da mureta que rodeava o telhado e ele ficou suspenso desse modo.
Bastou olhar seu rosto para que eu reconhecesse Mitch Talley. Agora, de repente, minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Isso era assustador demais. Mitch Talley estava morto? Como?
– Meu Deus. – O patrulheiro que estava comigo se inclinou para ver melhor. – O que foi isso, uma nove milímetros?
– Emita um boletim de busca para Steven Hennessey, conhecido como Denny Humboldt. Ele não pode ter ido longe. Vou ligar para o Centro de Informações Criminais. Precisamos isolar este bairro imediatamente. Cada segundo faz diferença.
A não ser que meus instintos estivessem muito errados, Hennessey havia acabado de desfazer a equipe Patriota de atiradores de elite, qualquer que fosse seu motivo.
Se eu fosse ele, estaria correndo feito louco. Já estaria fora de Washington e nunca mais olharia para trás.
Mas eu não era Hennessey, certo?