Fogo Cruzado
capítulo 84
NO SEGUNDO DIA PERCORRENDO os abrigos de sem-teto eu fiz o que já deveria ter feito e acionei mais gente da minha equipe, inclusive Sampson. Até cobrei aquele favor de Max Siegel, para ver se ele poderia contribuir com qualquer pessoa.
Max me surpreendeu aparecendo com dois jovens assistentes ansiosos. Nós dividimos a lista e concordamos em nos encontrar no fim do dia para verificar a hora da distribuição de comida e a entrada noturna num dos abrigos maiores.
Às cinco da tarde estávamos todos no Lindholm Family Services quando eles abriram as portas para o jantar. O lugar servia mais de mil refeições por dia para uma clientela que era tudo o que você poderia esperar e mais alguma coisa.
Havia famílias com crianças e pessoas que falavam sozinhas, além de gente que parecia ter acabado de sair de algum escritório, todas comendo lado a lado em longas mesas do refeitório.
A primeira hora foi mais ou menos uma repetição frustrante do dia anterior. Ninguém que se dispusera a me dar atenção reconheceu a foto de Mitch ou a velha imagem de Steven Hennessey, vulgo Denny, que eu havia conseguido. E algumas pessoas simplesmente não falavam com a polícia.
Um cara, em particular, parecia viver num mundo próprio. Estava sentado na ponta de uma mesa, longe de todos, com a bandeja equilibrada no canto. Murmurava consigo mesmo quando me aproximei.
– Eu poderia falar com você um segundo? – perguntei.
Seus lábios pararam de se mexer, mas ele não levantou os olhos, por isso segurei a foto baixo, onde ele pudesse ver.
– Estamos tentando falar com esse cara, Mitch Talley. Morreu alguém da família dele e ele precisa ser avisado. Você o viu?
Esse é o tipo de meia-verdade com o qual a gente às vezes precisa se sentir confortável para conseguir agir. Hoje, também, estávamos todos usando roupas casuais. Paletós e gravatas podem ser contraproducentes num lugar assim.
O sujeito balançou a cabeça.
– Não – disse depressa demais. – Não. Desculpe. Não o vi. – Ele tinha um sotaque forte que parecia ser da Europa oriental.
– Dê mais uma olhada – pedi. – O nome dele é Mitch Talley. Costuma andar com um cara chamado Denny. Isso o faz lembrar alguma coisa? Sua ajuda seria muito bem-vinda.
Ele olhou por um pouco mais de tempo e passou a mão distraidamente pela barba grisalha, que da metade para baixo era toda embolada, formando dreadlocks.
– Não – repetiu ele, sem ao menos levantar a cabeça. – Desculpe. Não o conheço.
Não pressionei.
– Certo. Vou dar uma volta por aí, para o caso de você pensar em alguma coisa.
Assim que me afastei ele voltou a murmurar de imediato e, seguindo uma intuição, fiquei de olho no sujeito.
Como era de se esperar, eu mal havia começado a falar com outra pessoa quando o murmurador se levantou para ir embora. Quando olhei, sua bandeja continuava lá – junto com a maior parte da comida.
– Com licença, senhor? – chamei alto o bastante para que algumas pessoas em volta dele também virassem a cabeça.
Mas ele não atendeu. Simplesmente continuou andando.
– Senhor?
Agora eu estava em movimento e isso atraiu a atenção de Sampson. O cara dos murmúrios estava traçando uma reta em direção à saída. Quando enfim olhou para trás, ao perceber que o estávamos seguindo, começou a correr. Passou direto pela porta dupla e chegou à Rua 2 à nossa frente.