Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 22 de 129

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Fogo Cruzado

capítulo 18

 

O TELEFONE DO HOTEL TOCOU quase à meia-noite. Mais tarde eu perceberia que não tinha sido coincidência. A meia-noite também é o começo de um novo dia e a pessoa que ligava estava querendo dizer isso, literalmente.

– Alex Cross – atendi.

– Tanta coisa acontecendo e você ainda tem tempo para romance? Diga, detetive Cross, como você consegue?

A voz de Kyle Craig saiu do fone como água gelada – e, tão rápido quanto isso, tudo mudou.

– Kyle – falei para Bree ouvir. – Há quanto tempo você está em Washington?

Ela já estava se sentando, mas assim que ouviu o nome pegou seu celular na mesinha de cabeceira e o levou para o banheiro.

– O que faz você pensar que estou em Washington? – questionou ele. – Você sabe que tenho olhos e ouvidos em toda parte. Não preciso estar aí para estar aí.

– É verdade – respondi, tentando manter a voz calma. – Mas eu sou um dos seus assuntos prediletos.

Ele deu um riso baixinho.

– Eu gostaria de dizer que você está sendo muito pretensioso, mas não posso. Então me fale de sua família. Como vai Nana Mama? E as crianças?

Não eram perguntas. Eram ameaças, e nós dois sabíamos. As famílias eram o barato de Kyle, talvez porque a dele havia sido tão problemática. Na verdade, ele havia matado os pais, em ocasiões diferentes. Eu precisava me esforçar para não engolir a isca, então contive a irritação.

– Kyle, por que está ligando? Você nunca faz nada sem um bom motivo.

– Não vi o Damon por aí – continuou ele. – Ainda deve estar na Cushing Academy, não é? Fica a oeste de Worcester, certo? Mas o Ali! O garoto não para de crescer!

Segurei as bordas do colchão com a mão livre. Ter meus filhos nos pensamentos de Kyle Craig era quase mais do que eu podia suportar.

Mas, se havia uma coisa que eu sabia, era que ameaças vãs e avisos só punham lenha na sua fogueira. Ele sempre fora de uma competitividade insana com relação a mim, e digo isso literalmente. Tinha sido quase impossível vencê-lo da primeira vez.

Como diabos eu faria isso de novo?

– Kyle – falei, com o máximo de calma que pude –, não vou continuar esta conversa se não souber aonde ela vai dar. Portanto, se tem alguma coisa a me dizer...

– Das cinzas às cinzas, do pó ao pó – interrompeu ele. – Não é nenhum segredo, Alex.

– O que você quer dizer com isso?

– Você perguntou aonde isso iria dar. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó: o mesmo lugar onde tudo vai parar. Claro, alguns de nós chegam mais rápido do que os outros, não é? Sua primeira mulher, por exemplo, mas não posso receber o crédito por isso.

E então ele conseguiu o que queria: estourei, perdi as estribeiras.

– Escute aqui, seu merda! Fique longe de nós. Juro por Deus, se você...

– Se eu o quê? – disparou ele de volta, com a mesma agressividade. – Machucar sua família ridícula? Levar sua noiva preciosa? – Seu tom havia mudado num instante para a fúria completa. – Como você ousa falar assim comigo? Quantas vidas você tirou, Alex? Quantas famílias você despedaçou com aquela sua nove milímetros? Você nem conhece o significado da palavra perda. Ainda, seu hipócrita de merda!

Eu nunca o ouvira falar assim. Na verdade, era raro Kyle xingar. Pelo menos o Kyle que eu tinha conhecido.

Será que estaria mudando? Ou isso seria apenas mais uma das suas performances cuidadosamente orquestradas?

– Quer saber qual é a verdadeira diferença entre nós, Alex?

– Já sei qual é – eu disse. – Eu ainda não sou maluco, você sim.

– A diferença é que eu estou vivo porque nenhum de vocês conseguiu me derrubar e você está vivo porque eu ainda não decidi matá-lo. Por favor, diga que esse fato óbvio não lhe passou despercebido.

– Não vou matar você, Kyle. – Agora as palavras estavam simplesmente jorrando de mim. – Vou garantir que você apodreça até a morte, bem devagar, de volta àquela cela do Colorado de onde você veio. Você vai voltar para lá.

– Ah, isso me lembra... – respondeu ele, e desligou de repente. Isso era puro Kyle, apenas mais um modo de dar a entender que o jogo tinha começado e que iria terminar do modo dele. Estar no controle era o ar que ele respirava.

Logo Bree estava ali, com os braços me envolvendo.

– Falei com Nana – disse ela. – Está tudo bem, mas avisei que estamos indo para casa. E mandei uma radiopatrulha para lá agora mesmo.

Levantei-me e comecei a me vestir o mais rápido que podia. Meu corpo estava tremendo de raiva, e não somente de Kyle.

– Fiz besteira, Bree. Uma besteira enorme. Não posso deixar que ele me abale deste jeito. Não posso! Isso só vai piorar as coisas.

Como se isso fosse possível.