Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 96 de 129

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Fogo Cruzado

capítulo 92

 

STANISLAW WAJDA PISCOU , acordando. Para ele era difícil enxergar, a princípio. Uma penumbra de formas vagas preenchia sua visão. Então, aos poucos, as coisas começaram a se distinguir. Uma parede. Blocos de concreto. Um velho aquecedor num piso de cimento rachado.

A última coisa da qual se lembrava era de ter estado no parque. Isso. Do rapaz. Teria sido ontem à noite?

– Olá – disse alguém, e Stanislaw deu um pulo. Seu coração disparou num galope enquanto ele de repente se dava conta do suficiente para ficar apavorado.

Havia um homem ali. Cabelo escuro. Vagamente familiar.

– Onde estou? – perguntou Stanislaw.

– Em Washington.

– Quero dizer...

– Entendi o que você quer dizer.

Ele percebeu que suas mãos estavam desamarradas. Os pés também. Sem correntes, sem algemas. Quase havia esperado o contrário. Olhou para baixo e viu que estava sentado, meio encurvado, numa cadeira velha.

– Não se levante – disse o homem. – Você ainda vai se sentir meio grogue.

Ele já vira aquele rosto. No abrigo. Isso. Com os dois detetives negros. Isso. Isso.

– Você é da polícia? – perguntou. – Estou preso?

O homem deu um riso baixinho, o que era muito esquisito.

– Não, professor. Posso chamá-lo de Stanislaw?

Mesmo agora que a situação começava a tomar corpo, nada daquilo fazia sentido para ele.

– Como você sabe o meu nome? – perguntou ele.

– Digamos que sou admirador de sua obra – respondeu o homem. – Vi o que você fez na Farragut Square ontem à noite e preciso dizer que foi empolgante. Definitivamente valeu o esforço de ir até lá.

O estômago de Wajda se revirou. Sentiu que poderia vomitar. Ou até desmaiar.

– Ah Jezu...

– Não se preocupe. Seu segredo está a salvo comigo. – O homem puxou outra cadeira e sentou-se de frente para ele. – Mas me diga uma coisa, Stanislaw. Qual é a dos números primos? Os relatórios da polícia dizem algo sobre a hipótese de Riemann. É isso mesmo?

Então ele sabia. Esse sujeito estranho sabia o que ele havia feito. Stanislaw podia sentir lágrimas esquentando os cantos de seus olhos.

– É – respondeu. – Riemann. Sim.

– Mas e daí? Isso quer dizer especificamente o quê? Explique-me, professor. Estou morrendo de curiosidade.

Fazia muito tempo que Stanislaw não via curiosidade nos olhos de uma pessoa jovem. Anos e anos. Uma vida atrás...

– A função zeta zero de Riemann, como você sabe, fica na linha crítica com a parte real entre zero e um, se a função zeta é igual a zero...

– Não – disse o homem. – Escute com atenção. Por que você mata por causa disso? O que significa para você?

– Tudo. Entender isso é captar o infinito, você não entende? Conceber uma estrutura vasta a ponto de transcender noções de tamanho ou mesmo de limitação...

O homem deu-lhe um tapa com força no rosto.

– Não quero uma porcaria de palestra, professor. Quero saber por que você mata aqueles rapazes daquele jeito. Você pode me responder isso ou não? Você é inteligente, isso deveria ser simples.

Ele podia, percebeu Stanislaw de repente. Isso. Isso. O resultado fora tirado de suas mãos. Não havia mais espaço para nada além da verdade.

– Aqueles rapazes estão melhores mortos – disse. – Para eles não existe nada aqui além de miséria e sofrimento. Você não entende? Não vê?

– Vejo.

– Eles ficaram fora do alcance de Deus, mas eu ainda posso ajudá-los. Posso lhes dar o que é infinito. Posso entregá-los de volta a Deus, entendeu?

– Acho que sim – respondeu o homem, levantando-se. – Isso é muito decepcionante. Nós poderíamos ter tido... – Ele fez uma pausa e sorriu. – Bom, não importa o que poderia ter sido. Obrigado, professor. Foi uma aula e tanto.

– Não – disse Stanislaw. – Obrigado a você.

Ele viu o furador de gelo e o acompanhou com os olhos enquanto o homem o levantava na diagonal até que ele desaparecesse na silhueta de uma lâmpada nua no teto. Então Stanislaw levantou seu queixo bem alto para que, não importava o que acontecesse, o homem tivesse certeza de que não erraria.