Fogo Cruzado
capítulo 92
STANISLAW WAJDA PISCOU , acordando. Para ele era difícil enxergar, a princípio. Uma penumbra de formas vagas preenchia sua visão. Então, aos poucos, as coisas começaram a se distinguir. Uma parede. Blocos de concreto. Um velho aquecedor num piso de cimento rachado.
A última coisa da qual se lembrava era de ter estado no parque. Isso. Do rapaz. Teria sido ontem à noite?
– Olá – disse alguém, e Stanislaw deu um pulo. Seu coração disparou num galope enquanto ele de repente se dava conta do suficiente para ficar apavorado.
Havia um homem ali. Cabelo escuro. Vagamente familiar.
– Onde estou? – perguntou Stanislaw.
– Em Washington.
– Quero dizer...
– Entendi o que você quer dizer.
Ele percebeu que suas mãos estavam desamarradas. Os pés também. Sem correntes, sem algemas. Quase havia esperado o contrário. Olhou para baixo e viu que estava sentado, meio encurvado, numa cadeira velha.
– Não se levante – disse o homem. – Você ainda vai se sentir meio grogue.
Ele já vira aquele rosto. No abrigo. Isso. Com os dois detetives negros. Isso. Isso.
– Você é da polícia? – perguntou. – Estou preso?
O homem deu um riso baixinho, o que era muito esquisito.
– Não, professor. Posso chamá-lo de Stanislaw?
Mesmo agora que a situação começava a tomar corpo, nada daquilo fazia sentido para ele.
– Como você sabe o meu nome? – perguntou ele.
– Digamos que sou admirador de sua obra – respondeu o homem. – Vi o que você fez na Farragut Square ontem à noite e preciso dizer que foi empolgante. Definitivamente valeu o esforço de ir até lá.
O estômago de Wajda se revirou. Sentiu que poderia vomitar. Ou até desmaiar.
– Ah Jezu...
– Não se preocupe. Seu segredo está a salvo comigo. – O homem puxou outra cadeira e sentou-se de frente para ele. – Mas me diga uma coisa, Stanislaw. Qual é a dos números primos? Os relatórios da polícia dizem algo sobre a hipótese de Riemann. É isso mesmo?
Então ele sabia. Esse sujeito estranho sabia o que ele havia feito. Stanislaw podia sentir lágrimas esquentando os cantos de seus olhos.
– É – respondeu. – Riemann. Sim.
– Mas e daí? Isso quer dizer especificamente o quê? Explique-me, professor. Estou morrendo de curiosidade.
Fazia muito tempo que Stanislaw não via curiosidade nos olhos de uma pessoa jovem. Anos e anos. Uma vida atrás...
– A função zeta zero de Riemann, como você sabe, fica na linha crítica com a parte real entre zero e um, se a função zeta é igual a zero...
– Não – disse o homem. – Escute com atenção. Por que você mata por causa disso? O que significa para você?
– Tudo. Entender isso é captar o infinito, você não entende? Conceber uma estrutura vasta a ponto de transcender noções de tamanho ou mesmo de limitação...
O homem deu-lhe um tapa com força no rosto.
– Não quero uma porcaria de palestra, professor. Quero saber por que você mata aqueles rapazes daquele jeito. Você pode me responder isso ou não? Você é inteligente, isso deveria ser simples.
Ele podia, percebeu Stanislaw de repente. Isso. Isso. O resultado fora tirado de suas mãos. Não havia mais espaço para nada além da verdade.
– Aqueles rapazes estão melhores mortos – disse. – Para eles não existe nada aqui além de miséria e sofrimento. Você não entende? Não vê?
– Vejo.
– Eles ficaram fora do alcance de Deus, mas eu ainda posso ajudá-los. Posso lhes dar o que é infinito. Posso entregá-los de volta a Deus, entendeu?
– Acho que sim – respondeu o homem, levantando-se. – Isso é muito decepcionante. Nós poderíamos ter tido... – Ele fez uma pausa e sorriu. – Bom, não importa o que poderia ter sido. Obrigado, professor. Foi uma aula e tanto.
– Não – disse Stanislaw. – Obrigado a você.
Ele viu o furador de gelo e o acompanhou com os olhos enquanto o homem o levantava na diagonal até que ele desaparecesse na silhueta de uma lâmpada nua no teto. Então Stanislaw levantou seu queixo bem alto para que, não importava o que acontecesse, o homem tivesse certeza de que não erraria.