Fogo Cruzado
capítulo 37
O DIA SEGUINTE FOI UM MARCO para mim e Nana. As coisas estavam geladas entre nós desde que eu trouxera os seguranças para casa, mas, quando desci e a encontrei fazendo o café da manhã para Rakeem e o pessoal dele, soube que pelo menos o primeiro passo para resolvermos nossas diferenças tinha sido dado.
– Ah, Alex, você está aqui. Bom. Leve esses pratos lá para fora – disse ela, como se a entrega de café da manhã fosse algo que eu fizesse todo dia. – Depressa, enquanto ainda está quente!
Quando voltei, meu prato me esperava: ovos mexidos com linguiça, torrada, suco de
laranja e o café fumegante de Nana na minha velha e favorita caneca de Papai no 1, com o quebradinho de quando Ali a havia jogado na parede.
Hoje em dia os cafés da manhã dela eram muito mais saudáveis: pedaços de toranja, torrada com manteiga sem sal, chá e meia salsicha, porque, como Nana gostava de dizer, havia um limite tênue entre comer com inteligência para viver mais e morrer de tédio.
– Alex, quero propor uma trégua – disse ela, enfim se sentando à minha frente.
– Um brinde a isso – respondi, levantando o copo de suco. – Aceito os seus termos, quaisquer que sejam.
– Porque há outra coisa que preciso falar com você.
Tive de rir.
– Foi o cessar-fogo mais rápido que já vi. Onde estamos, no Oriente Médio?
– Ah, relaxa. É sobre a Bree.
Pelo que eu sabia, Nana gostava de Bree tanto quanto adorava pão de forma, Barack Obama e cartas escritas à mão. Até que ponto o que ela tinha a dizer poderia ser ruim?
– Sabe, depois de tudo isso você seria um idiota se deixasse essa garota escorrer por entre seus dedos – começou ela.
– Sem dúvida – respondi. – E, se me permite, gostaria de chamar a atenção do tribunal para o belo anel de diamantes na mão esquerda da Srta. Stone.
Nana descartou meu raciocínio com seu garfo.
– Anéis saem do dedo com a mesma facilidade com que entram. Espero que não leve a mal o que vou dizer, mas você tem uma espécie de recorde com as mulheres, e não é no bom sentido.
Ai. Mesmo assim, eu não podia negar. Quaisquer que fossem os motivos, eu não conseguira ter um relacionamento estável desde que minha primeira mulher, Maria, fora assassinada, tantos anos antes.
Pelo menos até agora, com Bree.
– Se isso faz você se sentir melhor – respondi –, eu levei Bree à Igreja da Imaculada Conceição e pedi a mão dela outra vez, bem ali, na frente de Deus e da Criação.
– E o que ela respondeu? – perguntou Nana, com o rosto inexpressivo.
– Ela e eu vamos voltar a esse assunto mais tarde. Mas sério, Nana, por que isso agora? Eu lhe dei algum motivo para duvidar de nós?
Agora Nana tinha chegado à sua meia salsicha e levantou um dedo para que eu esperasse enquanto ela devorava o embutido com amor, quase com reverência. Então, como se estivesse introduzindo um assunto totalmente novo, Nana levantou os olhos e disse:
– Sabe que vou fazer 90 este ano?
Isso saiu com um sorriso – acho que ela faria uns 92 –, mas as palavras me fizeram parar, de qualquer modo.
– Nana, há alguma coisa que você não está dizendo?
– Não, não. Estou ótima. Não poderia estar melhor. Só estou pensando no futuro, só isso. Ninguém dura para sempre. Pelo menos ninguém que eu conheça.
– Bem, pense um pouco menos no futuro, certo? E, aliás, você não é uma peça de carro. É 100 por cento insubstituível.
– Claro que sou! – Ela pôs a mão em cima da minha. – E você é um pai forte, capaz e maravilhoso. Mas não pode fazer isso sozinho, Alex. Não do modo como você cuidou da outra metade de sua vida.
– Talvez, mas não é por isso que vou me casar com Bree. E esse também não é um bom motivo.
– Bem, eu posso pensar em motivos piores. Só não estrague tudo, rapaz – disse Nana, e se recostou de novo com uma piscadela, para que eu soubesse que ela estava brincando.
De certa forma, pelo menos.