Fogo Cruzado
capítulo 42
ASSIM QUE FICAMOS SABENDO dos e-mails para o True Press, liguei para uma antiga conhecida na Unidade Cibernética do Bureau, Anjali Patel. Tínhamos trabalhado juntos no caso DCAK e eu sabia que ela conseguia segurar a barra sob pressão.
Pouco depois, nós dois chegamos à redação, uma sala única que havia sido doada ao jornal, numa igreja da Rua E.
– Vocês não podem nos impedir de publicar isso!
Essa foi a primeira coisa que Colleen Brophy, a editora do jornal, disse quando nos apresentamos. Ela ficou batucando em seu teclado enquanto estávamos ali, com mais três funcionários apinhados naquele espaço minúsculo.
– Quem foi a primeira pessoa a abrir esses e-mails? – perguntei.
– Fui eu. – Um garoto desarrumado, com cara de universitário, levantou a mão. Em sua camiseta estava escrito PAZ, JUSTIÇA E CERVEJA. – Meu nome é Brent Forster – acrescentou.
– Brent, essa é a agente Patel. É sua nova melhor amiga – disse eu. – Ela vai dar uma olhada no seu computador. Agora. – Eu havia trabalhado com Patel por tempo suficiente para saber que ela podia cuidar disso sozinha. – Quanto à senhora, Sra. Brophy – continuei, mantendo aberta a porta para o corredor –, poderíamos conversar lá fora, por favor?
Então ela se levantou, com um bocado de má vontade, e pegou um maço de cigarros em sua mesa. Acompanhei-a até o fim do corredor, onde ela abriu uma janela e acendeu um cigarro.
– Eu estou bastante atolada hoje, então se pudermos acabar logo com isso... – disse ela.
– Sem dúvida. Mas agora que a senhora conseguiu o seu furo, vou precisar da sua cooperação. Este é um caso de assassinato.
– Claro – respondeu ela, como se até agora tivesse sido muito solícita. Vários sem-teto, e por extensão seus defensores, tendem a ver a polícia mais como um obstáculo do que como uma aliada. Eu sabia disso, mas pensei: dane-se. – Não há muito a dizer – continuou ela. – Nós recebemos os e-mails há algumas horas. Presumindo que não sejam desse tal de Wexler, não faço ideia de quem os mandou.
– Sei. Mas quem quer que tenha sido, essa pessoa simplesmente fez um grande favor ao seu jornal, não acha? Imagino se poderia haver alguma conexão com a qual a senhora poderia nos ajudar.
– O remetente também tinha um argumento bastante bom, o senhor não acha?
Ela me lembrava meu amigo Ned Mahoney, do FBI, com seu jeito veloz de falar e as mãos que não paravam quietas. Além disso, eu nunca tinha visto alguém fumar tão rápido. Não Ned, e sim Brophy.
– Espero que a senhora não esteja pensando em transformar esses caras em heróis – falei.
– Por favor, me dê algum crédito. Eu fiz mestrado na Faculdade de Jornalismo da Columbia. Além disso, eles não precisam que a gente os transforme em nada. Já são famosos e já são heróis para qualquer um que tenha coragem de admitir.
Minha pulsação acelerou.
– Fico surpreso ao ouvir a senhora falar assim. Quatro pessoas morreram. Esses vagabundos não são heróis.
– Sabe quantas pessoas morrem ao relento nas ruas todo ano? Ou porque não podem pagar por remédios, quanto mais por uma ida ao médico? Essas suas vítimas podiam ter melhorado a vida de muita gente em vez de piorar, detetive, mas não fizeram isso. Elas cuidaram de si, ponto final. Não sou partidária da justiça pelas próprias mãos, mas gosto de poesia, e isso é pelo menos um pouquinho poético, não acha?
Ela podia estar na defensiva, porém não era nenhuma idiota. Esse caso poderia facilmente se transformar num pesadelo de relações públicas, pelos mesmos motivos que ela estava descrevendo. Ainda assim, eu não fora ali para discutir. Tinha meus próprios objetivos.
– Vou precisar de uma lista de todos os seus vendedores, anunciantes, doadores e funcionários – falei.
– Nada feito – respondeu ela de imediato.
– Acho que você não tem escolha. Podemos esperar que o procurador geral dos Estados Unidos processe o depoimento, e depois que o juiz assine uma intimação e que o oficial de justiça a traga aqui. Ou posso largar do seu pé em uns cinco minutos. A senhora não disse algo sobre estar atolada?
Ela me lançou um olhar furioso enquanto batia a última cinza do cigarro pela janela e enfiava a guimba no bolso.
– A maioria dessas pessoas não tem endereço fixo – disse ela. – Você nunca vai encontrar todas.
Dei de ombros.
– Mais um motivo para começar imediatamente.