Fogo Cruzado
capítulo 9
NANA MAMA JÁ ESTAVA com o Washington Post aberto na mesa da cozinha quando desci, às cinco e meia da manhã. O caso estava bem ali, na primeira página: “Atirador de elite deixa dois mortos no centro da cidade”.
Ela bateu duas vezes na manchete com um dedo ossudo, como se fosse necessário chamar minha atenção.
– Não estou dizendo que ninguém, por mais ganancioso que seja, mereça morrer – disparou ela. – Isso é absolutamente horrível. Mas aqueles dois não eram anjos, Alex. As pessoas vão sentir certa satisfação, e você terá de enfrentar isso.
– Bom dia para você também.
Inclinei-me para beijar seu rosto e, por instinto, pus a mão na xícara de chá diante dela. Uma xícara fria significaria que ela estava acordada há muito tempo, e esta estava fresca. Não gosto de pegar no pé dela, mas tento garantir que descanse o suficiente, em especial desde seu ataque cardíaco. Nana parece estar forte, mas tem mais de 90 anos.
Servi um pouco de café numa caneca e sentei-me para dar uma olhada rápida no jornal. Sempre quero saber o que um assassino pode estar lendo sobre si mesmo. A matéria era opinativa e estava errada em alguns pontos importantes. Nunca presto atenção quando pessoas que se supõe serem inteligentes escrevem coisas idiotas – ali estava outro exemplo de uma reportagem que precisava ser ignorada.
– De qualquer modo, é só um grande jogo de escamoteação – continuou Nana, engrenando em seu discurso. – Alguém é pego com a boca na botija e todos fingimos que ele é o único que fez alguma coisa errada. Você acha que esse congressista foi o primeiro e o último a aceitar propina aqui em Washington?
Abri o jornal para ver a continuação na página 20.
– Seu otimismo chega a ser contagiante, Nana – falei.
– Não venha com gracinhas para cima de mim a esta hora da manhã – disse ela. – Além disso, ainda sou otimista, só que uma otimista de olhos abertos.
– E eles ficaram abertos a noite toda também? – perguntei meio desajeitadamente. Querer saber sobre a saúde de Nana é o mesmo que tentar colocar verduras no cheeseburger das crianças. Você precisa ser ardiloso, senão o truque não funciona, e em geral acaba não dando certo mesmo.
Ela levantou a voz, sem dúvida para deixar claro que eu fora ouvido e seria ignorado.
– Aqui vai outra pérola de sabedoria para você. Por que, quando ouvimos falar de pessoas assassinadas nesta cidade, elas são sempre pobres e negras ou ricas e brancas? Por que, Alex?
– Infelizmente, esta é uma conversa longa e eu não estou com tempo hoje – respondi, empurrando a cadeira para trás a fim de me levantar.
Ela esticou a mão na minha direção.
– Aonde você vai tão cedo? Deixe-me fazer uns ovos. E aonde você está levando esse jornal?
– Quero fazer umas pesquisas na minha sala antes da primeira entrevista. E por que você não se distrai com o caderno de entretenimento por um tempo?
– Ah, sim, porque não existe racismo em Hollywood, não é? Caia na real.
Gargalhei, dei-lhe um beijo de despedida e roubei mais um biscoito de chocolate da mesa, tudo ao mesmo tempo.
– Essa é a minha garota. Tenha um bom dia, Nana. Eu te amo!
– Não seja condescendente, Alex. Também te amo.