Fogo Cruzado
capítulo 47
A CAMPAINHA SOOU NO MEIO do nosso jantar no dia seguinte. Em geral era o telefone que tocava e quase sempre era uma das amigas de Jannie ligando. E ela ainda se perguntava por que eu não queria lhe dar um celular.
– Eu atendo! – gritou ela, e pulou da mesa.
– Aposto cinco dólares que é a Terry Ann – falei.
Bree pôs seu dinheiro na mesa.
– Aposto que é a Alexis.
Quem quer que fosse, tinha sido liberado por Rakeem.
Mas um momento depois Jannie estava de volta. Seu rosto estava sem qualquer expressão, quase em choque.
E então Christine Johnson entrou na minha cozinha.
– Mamãe! – Ali derrubou sua cadeira ao descer dela. Depois correu para se jogar nos braços da mãe.
– Veja só você!
Christine abraçou-o com força e sorriu para o resto de nós por cima do ombro dele – aquele sorriso brilhante de que eu me lembrava com tanta clareza, o que dizia que tudo estava bem no mundo, mesmo quando isso nem de longe era verdade.
– Meu Deus – disse ela enquanto olhava ao redor da mesa. – Parece que vocês viram um fantasma!
De certa forma era como eu me sentia. Alguns anos antes, a pedido de Christine, tínhamos assinado um documento passando a custódia legal de Ali para mim. Ele ficava na casa dela em Seattle por um mês no verão e por 15 dias durante o ano letivo. Minha única condição fora que respeitássemos o acordo, pelo bem de todo mundo. Até agora era o que tínhamos feito... ao menos até esta noite.
– Não acredito! – Ela colocou Ali no chão e olhou para ele de cima a baixo de novo. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. – Como foi que você cresceu tanto desde a última vez que eu o vi?
– Não sei! – gritou Ali, e olhou para nós.
Sorri para ele.
– Veja só quem é, Ali! Dá para acreditar? – Olhei para Christine. – Que surpresa.
– Pois é, eu mesma – respondeu ela, ainda sorrindo. – Olá, Regina.
– Christine. – A voz de Nana soou tensa e controlada. Para mim pareceu uma fervura em fogo baixo.
– E você deve ser a Bree. Que bom enfim conhecê-la. Sou a Christine.
Bree, como era de se esperar, foi fantástica. Levantou-se de imediato, foi até Christine e abraçou-a.
– Você tem um filho incrível – disse. Típico de Bree: ela sempre consegue arranjar um modo de falar a verdade em qualquer caso, mesmo numa situação desconfortável como essa.
– Mamãe, quer ver o meu quarto? – Ali já estava puxando a mão de Christine, levando-a pelo corredor em direção à escada.
– Claro – respondeu ela, e olhou para mim. Pedindo permissão, acho. Na verdade, agora todo mundo estava me encarando.
– Que tal nós três irmos? – perguntei, e me levantei para acompanhá-los.
No primeiro degrau da escada Christine parou e se virou para mim. Ali correu à nossa frente.
– Sei o que você está pensando – disse ela.
– Sabe?
– Honestamente, não é nada além do que parece, Alex. Só uma visita surpresa. Eu tenho um congresso em Washington esta semana e não podia ficar longe do Ali.
Eu não sabia se acreditava ou não. Christina havia se mostrado uma pessoa muito inconstante ao longo dos anos, inclusive no modo como lutou tanto pela guarda de Ali e depois desistiu com igual rapidez.
– Você poderia ter ligado antes. Deveria ter ligado, Christine.
Ali praticamente berrou do alto da escada, de tão empolgado:
– Vem logo, pessoal!
– Já vamos, rapazinho! – gritei para ele. Enquanto começávamos a subir, falei baixo para Christine: – Vai ser só esta vez. E depois nunca mais. Certo?
– Sem dúvida – respondeu ela, e apertou meu braço. – Prometo.