Fogo Cruzado
capítulo 35
LOGO DEPOIS DISSO DEIXEI o local do crime do Mayflower, feliz por ter uma desculpa para me afastar de Siegel.
A segunda vítima daquela noite, Rebecca Littleton, estava no Hospital Universitário George Washington com um ferimento à bala no ombro. O que haviam dito na emergência era que tinha sido um trauma penetrante, não perfurante. Isso significava que o projétil ainda estava no corpo dela. Se eu corresse, poderia pegá-la antes da cirurgia.
Quando cheguei, Rebecca estava na maca de um dos cubículos cercados por cortinas azuis, na emergência. A atadura em seu ombro tinha uma mancha escura de Betadine e, quaisquer que fossem os medicamentos ministrados para a dor física através do equipamento intravenoso, certamente não estavam ajudando seu estado mental: ela continuava branca como papel e morrendo de medo.
– Rebecca? Sou o detetive Cross, da Polícia Metropolitana – falei. – Preciso dar uma palavrinha com você.
– Eu vou ser, tipo, acusada de alguma coisa? – Não creio que ela tivesse muito mais do que 18 ou 19 anos. Mal havia entrado na maioridade. Sua voz era baixíssima e se embargava quando ela falava.
– Não – garanti. – Nada do tipo. Só preciso fazer algumas perguntas. Vou tentar ser rápido e facilitar para você.
A verdade era que, mesmo que alguém quisesse abordar a questão da prostituição, não havia testemunhas para isso – com a possível exceção do homem que havia atirado nela.
– Você viu alguma coisa esta noite que possa lhe dar uma ideia de quem fez isso? Alguém do lado de fora da janela? Ou mesmo algo incomum no quarto do hotel?
– Acho que não, mas... não me lembro de muita coisa. O Sr. Downey começou a fechar as cortinas e aí eu já estava... no chão. Não sei o que aconteceu depois. Nem antes do tiro.
Na verdade, fora ela que havia arrastado o telefone de uma mesinha de cabeceira e pedido ajuda. O incidente provavelmente iria retornar à sua memória aos poucos, mas por ora não pressionei.
– Essa foi a primeira vez que você se encontrou com o Sr. Downey? – perguntei.
– Não. Ele era um cliente meio regular.
– Sempre no Mayflower?
Ela assentiu.
– Ele gostava daquela suíte. Nós sempre íamos para o mesmo quarto.
Uma enfermeira com uniforme cor-de-rosa entrou no cubículo.
– Rebecca, querida, eles estão esperando você lá em cima, está bem?
A cortina em volta de nós se abriu e o espaço ficou cheio de várias outras pessoas. Um dos residentes começou a destravar as rodas da maca.
– Só mais uma pergunta – pedi. – Quando isso aconteceu, havia quanto tempo que vocês estavam no quarto?
Rebecca fechou os olhos e pensou por um segundo.
– Cinco minutos, talvez. Nós tínhamos acabado de chegar. Detetive... Eu faço faculdade. Meus pais...
– Você não vai ser acusada de nada, mas seu nome provavelmente será divulgado. Você deveria ligar para seus pais, Rebecca.
Fui andando ao lado da maca enquanto ela era empurrada para o corredor, na direção dos elevadores. Não parecia haver nenhum parente ou amigo por perto e tive um pouco de pena ao pensar que ela teria de passar por aquilo sozinha.
– Escute – continuei. – Eu já estive no seu lugar. Já levei um tiro no ombro e sei que é assustador. Você vai ficar bem, Rebecca.
– Está bem – respondeu ela, mas não creio que tenha acreditado em mim. Ainda parecia aterrorizada.
– Vou visitar você mais tarde – falei, antes que a porta do elevador se fechasse entre nós.