Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 119 de 129

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Fogo Cruzado

capítulo 115

 

DEI UM TIRO PARA O ALTO quando cheguei à praia. Todas as pessoas que já não estivessem saindo do caminho de Kyle começaram a se espalhar nesse momento. Ele estava correndo com dificuldade. Era possível que tivesse uma concussão, mas minha panturrilha também não estava ajudando em nada. Eu nunca vira uma perseguição assim.

Alguns hóspedes gritavam, outros tiravam as crianças da água. Então, sem linha de tiro livre, só pude assistir enquanto Kyle se abaixava e pegava um menininho de 2 ou 3 anos antes que a mãe pudesse chegar a ele.

A mulher correu direto em sua direção, mas Kyle apertou o filho dela na frente do corpo, como um escudo.

– Para trás! – gritou ele. – Para trás ou eu...

– Me leve! – A mãe estava de joelhos, incapaz de chegar mais perto ou de se afastar. – Me leve no lugar dele.

– Kyle, ponha-o no chão!

Então ele se virou para me olhar e eu estava perto o suficiente para ver a calma retornando aos seus olhos. Ele tinha a moeda de troca de que precisava e sabia disso.

– Você veio por causa de mim, não desse garoto – falei. – Solte-o! Me leve.

A pobre criança estava soluçando e estendendo a mão para a mãe, mas Kyle ergueu-a um pouco mais alto e a segurou com mais força ainda.

– Primeiro vou precisar dessa arma de volta – disse ele. – Chega de papo. Só ponha a arma no chão e se afaste. Vou contar até três...

– Certo. – Comecei a me ajoelhar devagar. Minha perna estava muito ferida, e eu mal conseguia movê-la agora. – Estou colocando-a no chão.

Mas não confiaria a vida daquele menino à palavra de Kyle. Por isso, aproveitei a única chance que tinha. Virei a arma no último segundo e disparei baixo. O garoto não era grande o suficiente para proteger o corpo inteiro de Kyle. Meu tiro o acertou logo abaixo do joelho.

Ele uivou como um animal selvagem. O menino caiu na areia e correu para a mãe. Kyle tentou se levantar, porém só conseguiu se firmar numa das pernas – e mesmo assim só até eu atirar na outra também.

Ele voou para trás na areia, o peito arfando de dor. Suas pernas eram uma massa sangrenta, e eu me sentia ótimo por isso. Tê-lo derrubado com sua própria arma teve um gostinho especial.

Nesse momento vi Bree correndo em nossa direção com dois policiais uniformizados. Ela apontou Kyle para eles e então veio direto para mim.

– Ah, meu Deus. – Ela me envolveu com o braço, para aliviar parte do peso da minha perna. – Você está bem?

Assenti.

– Ele vai precisar de uma ambulância – disse ela para os oficiais.

– Já está a caminho – respondeu um deles.

Os olhos de Kyle estavam fechados, porém ele os abriu quando passei na sua frente.

– Acabou, Kyle – disse eu. – Para sempre.

– Defina “acabou” – respondeu ele num chiado. Sua respiração estava entrecortada e ele tremia de dor. – Você acha que ganhou alguma coisa?

– Não estou falando de ganhar. Estou falando de mandar você para um lugar onde nunca mais vai poder machucar ninguém.

Ele tentou sorrir.

– Da última vez isso não me impediu.

– Bom, você sabe o que dizem: a única coisa pior do que ir para a solitária é voltar para lá. Mas pode ser só um boato.

Talvez pela primeira vez na vida vi algo parecido com medo nos olhos de Kyle Craig. Durou apenas um segundo, antes que ele retornasse à mesma postura rígida.

– Isso não acabou! – grasnou ele, mas eu já tinha me virado.

A ambulância acabara de chegar e eu queria alertar os paramédicos.

– Cuidem dele primeiro – disse eu. – Mas tenham muito cuidado. Esse homem é extremamente perigoso.

– Entendido, senhor – afirmou um deles. – Preciso que me entregue essa arma.

Obedeci com certa relutância e, com a ajuda de Bree, acomodei-me em uma espreguiçadeira, de onde eu ainda podia ficar de olho nas coisas. Ela pegou uma toalha e enrolou com força na minha perna.

Kyle não criou nenhuma resistência quando os paramédicos o acomodaram numa maca, depois o colocaram no soro, puseram-lhe uma máscara de oxigênio e, por fim, cortaram as pernas da sua calça. Ele havia perdido muito sangue. Seu rosto estava branco feito papel. Acho que a realidade de voltar à penitenciária de segurança máxima de Florence estava começando mesmo a penetrar em sua mente.

Quando finalmente empurraram a maca para dentro da ambulância, fiquei tenso.

– Vocês precisam algemá-lo! – gritei para os policiais. – E não deixem os paramédicos irem sozinhos!

– Calma, senhor – disse um deles com raiva.

– Sou policial e sei do que estou falando. Esse homem é procurado pelo FBI e vocês precisam algemá-lo. Agora!

– Certo, certo. – Ele fez um gesto para o colega e os dois foram na direção de Kyle.

Quase em câmera lenta, vi o primeiro policial entrar na traseira da ambulância. Quando ele pegou as algemas, Kyle estendeu a mão para elas, com o tipo de força concentrada que só um psicopata como ele pode demonstrar naquelas condições. Ele usou as algemas para puxar o policial para baixo e num segundo estava segurando a arma do sujeito.

Bree se levantou instintivamente para ajudar, mas eu rolei da espreguiçadeira e puxei-a para baixo.

Houve um tiro, depois outro.

Então o primeiro de dois estouros altos. Mais tarde descobriríamos que uma bala havia acertado o tanque de oxigênio de Kyle, que explodiu numa bola de fogo dentro da ambulância, seguido de imediato pelo tanque de combustível.

Todo o veículo foi pelos ares com um estrondo que atordoou meus tímpanos. Vidro e metal voaram mais para cima do que para os lados e uma chuva de areia caiu sobre nós. As pessoas estavam gritando de novo.

Quando levantei a cabeça, vi que não havia sobreviventes. A ambulância tinha se transformado em uma carcaça preta, com chamas e fumaça escura ainda subindo para o céu. Os dois policiais e os dois paramédicos estavam mortos.

Assim como Kyle. Quando o fogo foi apagado e chegamos perto o suficiente para ver seu corpo, percebemos que estava completamente carbonizado.

O rosto em que ele investira tanto dinheiro tinha ficado irreconhecível: uma máscara preta e disforme ocupava o lugar onde antes existia o homem. Na verdade, não havia restado muita coisa dele.

Não tenho como saber se Kyle disparou de propósito naquele tanque de oxigênio, mas talvez o retorno à solitária fosse mais do que ele conseguiria suportar. A prisão poderia acabar matando-o, e talvez Kyle soubesse disso.

É possível que ele até estivesse tentando me levar junto – um último esforço para terminar o que, por algum motivo, havia se transformado no objetivo de sua vida.

Na verdade, acho que sei as respostas a todas essas perguntas, mas é claro que nunca terei certeza. E talvez algum dia isso nem importe mais.