Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 124 de 129

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Fogo Cruzado

Dois

 

O NOME DELE ERA JOHNNY TUCCI, mas todos os garotos do seu bairro no sul da Filadélfia o chamavam de Johnny Cacoete, por causa do modo como seus olhos não paravam quietos quando ele ficava nervoso, o que acontecia a maior parte do tempo.

É claro que, depois dessa noite, os garotos do bairro poderiam ir se danar. Naquela noite Johnny entrou no jogo pra valer. Era hora de ser homem. Ele estava com “o pacote”, não estava?

Era um serviço simples, mas dos bons, porque ele estava sozinho e precisava assumir toda a responsabilidade. Já havia apanhado o pacote. Teve medo, mas se saiu bem.

Ninguém falava com todas as letras, mas, assim que você começava a fazer entregas desse tipo, isso significava que estava vinculado de alguma forma à Família e que ela estava vinculada a você. Em outras palavras, havia um relacionamento. Depois daquela noite, Johnny não precisaria mais fazer apostas para os outros, nem catar migalhas nos bairros do sul. Era como aquele adesivo de para-choque que dizia: Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida.

Então era natural que ele estivesse empolgado... e só um pouquinho nervoso.

O alerta de seu tio Eddie não parava de se repetir na sua mente, como uma gravação: Não desperdice essa oportunidade, Cacoete. Estou colocando o meu na reta por você. O tio dissera isso como se estivesse lhe fazendo um grande favor ao lhe dar esse serviço. Quer dizer, Johnny até achava que talvez estivesse realmente, mas mesmo assim. Seu próprio tio não precisava jogar isso na sua cara, precisava?

Ele estendeu a mão e aumentou o volume do rádio. Até a música country que eles costumavam tocar por ali era melhor do que escutar a falação de Eddie na sua cabeça a noite inteira. Estava tocando uma velha canção da Charlie Daniels Band, “The Devil Went Down to Georgia”. Ele até conhecia um pouco da letra. Mas nem isso fez com que a voz de Eddie saísse de sua mente.

Não desperdice essa oportunidade, Cacoete.

Estou colocando o meu na reta por você.

Puta merda!

Luzes azuis piscavam em seu retrovisor, vindas do nada. Dois, três segundos antes ele poderia ter jurado que estava sozinho na Interestadual 95.

Pelo jeito, não.

Johnny começou a sentir os primeiros espasmos no canto do olho direito.

Ele pisou no acelerador; talvez conseguisse fugir. Então se lembrou da porcaria do Dogde que estava dirigindo, roubado do estacionamento de um motel em Essington. Que droga! Eu devia ter ido ao estacionamento do Marriott. Arranjado um carro japa.

Mas era possível que ainda não tivessem denunciado o roubo do Dodge. O dono, seja lá quem fosse, provavelmente estava dormindo no motel. Com alguma sorte, Johnny poderia simplesmente sumir com a multa e ninguém jamais precisaria ficar sabendo.

Mas esse era o tipo de sorte que as outras pessoas tinham, não ele.

Os policiais levaram uma eternidade para sair da viatura, o que era um mau sinal – o pior de todos. Eles estavam conferindo o modelo e a placa do veículo. Quando enfim chegaram ao Dodge, parando um de cada lado, os olhos de Johnny já pareciam dois feijões saltadores mexicanos.

Ele tentou manter a calma.

– Boa noite, oficiais. Algum pro...

O que estava do seu lado, um sujeito alto com um sotaque caipira, abriu a porta do motorista.

– Bico calado. Saia do veículo.

Eles não demoraram nada para encontrar o pacote. Depois de vasculharem os bancos da frente e de trás, abriram o porta-malas, puxaram a lona que cobria o estepe e pronto.

– Nossa Senhora! – exclamou um dos policiais ao iluminar o porta-malas com sua lanterna. O outro engasgou quando viu o que havia ali. – Que diabo você fez?

Johnny não ficou por perto para responder à pergunta. Ele já estava correndo para salvar sua vida.

Três

 

NINGUÉM NUNCA TINHA ESTADO TÃO morto, ou sido tão burro, quanto ele agora. Johnny Tucci teve certeza disso enquanto saía do meio das árvores e começava a descer, deslizando, uma ribanceira que havia ao lado da rodovia.

Ele talvez pudesse se esconder daqueles tiras, mas não da Família. Nem na cadeia nem em qualquer outro lugar. Isso era um fato. Não se perdia um “pacote” como aquele sem que você mesmo se tornasse um pacote.

Vozes surgiram de cima do barranco, seguidas por fachos de luz dançantes. Johnny atirou-se no chão e se escondeu debaixo de um aglomerado de arbustos. Ele tremia dos pés à cabeça, seu coração tão acelerado que chegava a doer, seus pulmões ofegantes por conta do excesso de cigarros. Era quase impossível ficar parado, em silêncio.

Ai, merda, estou morto.

– Está vendo alguma coisa? Está vendo aquele desgraçado? Aquele doente?

– Ainda não. Mas nós vamos pegá-lo. Ele está aqui embaixo em algum lugar. Não pode ter ido longe.

Os policiais se dividiram, indo cada um para um lado, descendo a ribanceira. Muito calculistas e eficientes.

Embora ele já tivesse conseguido recuperar o fôlego, a tremedeira só piorava, e não apenas por causa dos tiras. Era porque tinha começado a se dar conta do que precisaria fazer em seguida. Estritamente falando, havia somente duas opções realistas. Uma envolvia o 38 que ele trazia no coldre em seu tornozelo. A outra, o pacote – e seu dono. Era apenas uma questão de como ele preferia morrer. E, sob aquele luar frio, não parecia haver muita escolha. Movendo-se o mais lentamente possível, ele estendeu a mão para baixo e sacou o 38. Tremendo muito, encaixou o cano dentro da boca. A porcaria do metal chacoalhava com força contra seus dentes e deixava um gosto amargo em sua língua. Ele sentiu vergonha das lágrimas que escorriam pelo seu rosto, mas não conseguia evitá-las. De qualquer maneira, quem além dele ficaria sabendo?

Meu Deus, era assim mesmo que iria terminar? Com ele chorando feito um bebê, sozinho no meio da floresta? Que mundo terrível.

Ele conseguia até ouvir os garotos falando. Deus me livre de acabar como Johnny. Johnny Cacoete. Era isso que eles colocariam na sua lápide – só de crueldade. Aqueles malditos!

Durante todo aquele tempo, o cérebro de Johnny dizia aperte o gatilho, mas seu dedo não obedecia. Tentou novamente, com as duas mãos no cabo dessa vez, mas não adiantou. Nem isso ele conseguia fazer direito.

Por fim, cuspiu o cano da arma, ainda chorando como uma criança. De certa maneira, saber que iria viver mais um dia não o ajudou nem um pouco a conter as lágrimas. Ele apenas ficou deitado ali, mordendo os lábios, sentindo pena de si mesmo, até os tiras chegarem ao córrego no fundo da ribanceira.

Então Johnny Cacoete escalou rapidamente o mesmo caminho pelo qual havia descido, atravessou a interestadual e se jogou na mata do outro lado – perguntando-se como faria para sumir da face da Terra, mas sabendo que isso era totalmente impossível.

Ele havia olhado. Tinha visto o que estava dentro do “pacote”.