Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 77 de 129

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Fogo Cruzado

capítulo 73

 

QUANDO TERMINARAM DE FAZER a ligação direta, eles pararam para se lavar no banheiro de um posto de gasolina e roubaram um buquê de tulipas de um balde do lado de fora da loja de conveniência. Denny gostaria que eles estivessem usando gravatas também, mas estava ficando tarde.

De fato, já havia escurecido quando enfim pararam diante da casinha estilo Cape Cod no Bulevar Central em Brick Township. Era uma rua calma, com árvores grandes se arqueando dos dois lados para se encontrarem no meio, e dava para sentir a maresia na brisa.

– Você foi criado aqui? – perguntou Denny, olhando em volta. – Cara, por que você quis ir embora?

Mitch deu de ombros.

– Não sei, Denny. Só fui.

Quando chegaram à porta da frente, Denny desatarraxou a lâmpada da varanda e tocou a campainha. Uma mulher de meia-idade veio atender. Tinha a mesma corpulência e o mesmo rosto redondo de Mitch, e franziu os olhos na escuridão, tentando ver quem era.

– É o... Mitchell?

– Oi, mãe.

O pano de prato caiu da mão dela.

– Mitchell! – No segundo seguinte ela estava puxando-o para dentro e envolvendo-o com os braços gordos e flácidos. – Senhor, Senhor, trouxestes meu menino para uma visita ao lar. Obrigada!

– Corta essa, mãe. – Mitch se contorceu sob os beijos, mas estava sorrindo quando se desvencilhou dela com as tulipas meio esmagadas na mão. – Esse é o Denny – anunciou.

– Prazer em conhecê-la, senhora – disse Denny. – Lamento muito aparecermos desse jeito. Deveríamos ter avisado antes. Sei que deveríamos.

Bernice Talley descartou o pedido de desculpas abanando a mão no ar como se estivesse espantando uma mosca.

– Nem pense em dizer isso de novo. Entrem, entrem.

Ela entrou em casa atrás de Denny e, quando se virou para fechar a porta, seu olhar se fixou no Lexus ES parado junto ao meio-fio. Mas tudo o que disse foi:

– Aposto que estão com fome, rapazes.

– É, mãe – respondeu Mitch.

– Mitch está sempre com fome – disse Denny, e Bernice riu como se soubesse que era verdade. O lado direito do seu quadril se deslocava muito para cima quando ela andava, mas a mulher passou mancando direto pela bengala pendurada numa maçaneta do corredor.

– Mitchell, ofereça alguma coisa para o seu amigo beber. Vou ver o que tem na geladeira.

Denny ficou para trás enquanto passavam pela sala de estar. Todas as peças da mobília combinavam entre si, contudo eram velhas, do tipo que cabe no orçamento de um idoso. Ele poderia imaginar seu próprio pai naquele lugar tentando vender aspiradores de pó, facas ou o que quer que estivesse pagando suas garrafas de uísque na época. Mas ele não devia ser bom nisso. O filho da puta nunca bebia nada de boa qualidade.

Numa mesinha lateral a Sra. Talley tinha três porta-retratos com molduras douradas, arrumados numa linha curva perfeita. Um deles tinha uma imagem de Jesus, com os olhos erguidos para Deus. Outro continha uma foto de Mitch, parecendo jovem e pateta em seu terno e gravata. E o terceiro guardava uma fotografia militar de um negro de meia-idade, com o uniforme completo que contava com um belo mostruário de condecorações no peito.

Denny entrou na cozinha, onde a Sra. Talley estava se mantendo ocupada enquanto Mitch se sentava à velha mesa de fórmica com duas cervejas abertas à frente.

– Ei, aquele ali na foto é o Sr. Talley? – perguntou.

A velha parou abruptamente. Sua mão se dirigiu até o lado ruim do quadril, mas, antes de chegar até ele, ela interrompeu o movimento e abriu a geladeira.

– Perdemos o Sr. Talley há dois anos – respondeu ela sem olhar para eles. – Que Deus o tenha.

– Sinto muito, de verdade – disse Denny. – Então a senhora mora aqui sozinha, é? – Ele sabia que estava sendo um sacana, mas não podia evitar.

Ela confundiu isso com preocupação.

– Ah, mas eu estou bem. Tem um garoto que corta a grama e tira a neve, e meu vizinho Samuel sempre me ajuda quando eu preciso pegar alguma coisa pesada.

– Bom, desculpe ter puxado esse assunto, Sra. Talley. Eu não queria...

– Não, não. – Ela abanou a mão no ar de novo. – Não tem problema nenhum. Ele era um bom homem.

– Um bom homem que deixou um ótimo filho – acrescentou Denny.

O rosto da Sra. Talley se abriu num sorriso.

– Não precisa nem dizer – concordou ela, passando a mão sobre o ombro largo de Mitch enquanto ia da geladeira até a bancada com um saco de cebolas.

Denny podia ver que, embaixo da mesa, o joelho de Mitch estava começando a se balançar loucamente.