Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 24 de 129

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Fogo Cruzado

capítulo 20

 

EA VIDA CONTINUA, ESTEJAMOS preparados ou não.

Assim que levei as crianças à escola, fui até o St. Anthony’s a tempo do meu segundo compromisso da manhã, depois de ter faltado ao primeiro. Eu fazia aconselhamento voluntário no hospital desde que fechara meu consultório particular. Aquelas eram pessoas muito necessitadas, que não podiam pagar sequer um tratamento mental básico, por isso eu me sentia feliz em fazer minha parte. Isso também ajudava a me manter afiado e alerta.

Bronson James, o “Pop-Pop”, entrou com seu andar de cafetão na minha salinha abafada com o mesmo ar de superioridade de sempre. Eu o havia conhecido quando ele tinha 11 anos. Agora era um pouco mais velho e mais confiante do que nunca em sua visão cínica do mundo.

Dois de seus amigos tinham morrido desde que eu começara a atendê-lo e a maioria dos seus heróis – assassinos pouco mais velhos do que ele – também já estava morta.

Às vezes eu sentia que era a única pessoa no mundo que se importava com Bronson, o que não quer dizer que fosse fácil trabalhar com ele.

Ele se sentou no sofá à minha frente, com o queixo apontado para o teto, olhando alguma coisa lá em cima ou provavelmente só me ignorando.

– Alguma novidade desde a última sessão? – perguntei.

– Nada que eu possa falar. Cara, por que você sempre traz esse negócio para cá?

Olhei o copo grande de café na minha mão.

– Por quê? Você gosta de café?

– Não, não chego nem perto disso. Acho horrível. Mas gosto daquela merda que a Starbucks vende, frappuccino.

Eu conseguia vê-lo mudando de posição agora. Talvez eu pudesse lhe trazer um agrado da próxima vez. Amaciá-lo. Era um daqueles raros instantes em que o garoto de verdade aparecia através da armadura que ele parecia usar dia e noite.

– Bronson, quando você disse que não há nada de que você possa falar, quis dizer que tem algo acontecendo?

– Você é surdo? Eu disse: Nada. Que. Eu. Possa. Falar!

Ele esticou a perna de modo abrupto e pontuou as palavras com chutes na mesinha entre nós.

Bronson era o tipo de garoto sobre quem as pessoas escrevem ensaios psiquiátricos o tempo todo – o tipo supostamente incurável. Pelo que eu podia ver, ele não tinha qualquer empatia pelas pessoas. Essa característica é o ponto de partida para o que poderia se tornar um transtorno de personalidade antissocial – Kyle se encaixava no mesmo quadro, na verdade – e torna muito fácil agir a partir de impulsos violentos. Em outras palavras, faz com que seja muito difícil não agir a partir deles.

Mas eu também conhecia o segredinho de Bronson. Dentro da sua armadura e por trás dos problemas mentais havia um menininho apavorado que não entendia por que se sentia daquela forma na maior parte do tempo. Pop-Pop era jogado de um lado para outro pelo sistema desde que era bebê e eu achava que ele merecia algo melhor do que aquilo que a vida havia lhe dado. Por isso o atendia duas vezes por semana.

Tentei de novo:

– Bronson, você sabe que estas nossas conversas são confidenciais, certo?

– A não ser que eu represente perigo para mim mesmo – recitou ele. – Ou para outra pessoa. – O segundo ponto pareceu fazê-lo sorrir. Acho que ele gostava do poder que essa conversa lhe dava.

– Você representa perigo para alguém? – Minha preocupação principal eram as gangues. Ele não havia aparecido com nenhuma tatuagem ou ferimentos perceptíveis: nenhuma queimadura, nenhum hematoma ou qualquer coisa que pudesse ser um rito de iniciação. Mas eu também sabia que seu novo lar adotivo ficava perto da Avenida Valley, onde circulavam as turmas da Rua 9 e da Yuma, praticamente uma em cima da outra.

– Não tem nada acontecendo – afirmou ele com convicção. – Eu só tava falando por falar.

– E com que turma você só “tá falando por falar” hoje em dia? Da Rua 9? Da Yuma?

Ele estava começando a perder a paciência e passou a me encarar, tentando fazer com que eu desviasse o olhar primeiro. Permaneci em silêncio para ver se ele responderia. Em vez disso, ele deu um salto e empurrou a mesa para o lado, a fim de ficar perto do meu rosto. A mudança foi quase instantânea.

– Não pega no meu pé, cara. Tira a porra dos olhos de cima de mim!

Então ele desferiu um soco.

Era como se ele nem soubesse como era pequeno. Precisei segurá-lo e obrigá-lo a se sentar segurando-o pelos ombros. Mesmo assim ele tentou me acertar de novo.

Empurrei-o no sofá pela segunda vez.

– Sem essa, Bronson. Nem pense em fazer isso comigo. – Eu odiava ter de usar a força física com ele, dado o seu histórico, mas ele havia ultrapassado o limite. Na verdade, para Bronson, não parecia importar onde ficava o limite. Isso era o que mais me amedrontava.

Aquele garoto estava indo para a beira de um penhasco e eu não sabia se poderia fazer algo para impedir.