Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 75 de 129

Páginas do PDF

Fogo Cruzado

capítulo 71

 

– O TELEFONE QUE ESTOU USANDO é criptografado, então nem se dê o trabalho de tentar nada – continuou Kyle. – Agora, se tudo estiver saindo de acordo com o que planejei, você está bem no olho do furacão. Certo? E não me ponha no viva-voz, senão vou desligar.

Cheguei à sala de reuniões gesticulando feito um maluco para que soubessem que algo estava acontecendo. Agentes começaram a andar de um lado para outro, ainda que não houvesse muito que pudessem fazer. Eu não tinha dúvida de que Kyle dizia a verdade sobre o aparelho criptografado.

Alguém me entregou um bloco de anotações e uma caneta e Burns se sentou com o ouvido perto do meu celular, até que um assistente apareceu com um laptop. Ele ocupou o lugar do diretor e começou a transcrever o máximo que conseguiu ouvir.

– Você matou Anjali Patel e Nelson Tambour, não foi, Kyle?

– Devo dizer que sim.

– E quanto a Bronson James? Você fez aquilo também?

– Era um garotinho admirável, não? E, da última vez que verifiquei, não passava de um vegetal.

Na vez anterior, meu grande erro fora perder as estribeiras durante a caçada a Kyle. Estava decidido a não permitir que isso acontecesse de novo, mas meu coração martelava com o máximo de ódio que já senti por alguém na vida.

– Está vendo toda a destruição que você está criando? – continuou ele. – Como essas pessoas estariam melhores se você simplesmente não existisse?

– O que vejo é um homem com uma obsessão por mim – respondi.

– Não é verdade. Acho você fascinante, em especial tratando-se de um negro. Se não achasse, você já estaria morto agora, e Tambour, Patel e o pequenino Bronson James estariam todos pensando no que comeriam no café de amanhã. Na verdade, esse é um grande elogio. Não existem muitas pessoas dignas do meu tempo.

Sua voz parecia quase... brincalhona? Ele parecia estar especialmente bem-humorado. Acho que matar fazia isso por ele. Além do mais, Kyle adorava falar sobre si mesmo.

– Posso lhe fazer uma pergunta? – questionei.

– Interessante. Em geral você não pede permissão. Vá em frente, Alex.

– Estou curioso sobre o modo como você matou Tambour e Patel. Você não costuma imitar ninguém...

– Não – respondeu ele de imediato. – Na maioria das vezes é o contrário, não é?

– Mas foi o que você fez. Duas vezes.

– E qual é a sua pergunta, Alex?

– Você esteve em contato com eles? Com os assassinos originais? Eles são seus, Kyle?

Ele pensou por um segundo, talvez tentando prolongar o momento. Ou quem sabe bolando uma mentira?

– Não estive, e eles não são meus – respondeu enfim. – Esse tal de Patriota é meio sem graça para mim. Mas o outro, o dos números? É muito mais interessante. Admito, não me desagradaria um pequeno encontro com ele.

– Isso quer dizer que você não sabe quem são eles.

Houve outra pausa longa. Então Kyle gargalhou, com um entusiasmo que eu jamais vira nele.

– Alex Cross, você está me pedindo conselhos?

– Você era um bom agente. Lembra? Costumava me aconselhar.

– Claro que lembro. Aqueles anos ficaram em segundo lugar no ranking de pior época da vida. O primeiro foi o tempo que passei naquela suposta penitenciária de segurança máxima em Florence, e por ele devo agradecer a você. – Ele parou e escutei outra respiração longa e lenta. – O que também nos leva a completar um ciclo, não é?

– É – respondi. – Toda a sua vida parece dedicada a se vingar de mim por causa disso.

– É por aí.

– Então por que todas essas voltas, todos esses jogos, Kyle? O que você está esperando?

– A inspiração certa, acho – disse ele sem qualquer traço de ironia. – Esta é a beleza da criação e da imaginação. Manter a mente aberta ao que acontecer. Quanto mais experiente o artista, mais ele se torna capaz de reagir ao momento.

– Então agora você é um artista?

– Acho que sempre fui. Só estou ficando melhor. Seria ridículo parar enquanto me encontro no auge. Mas vou dizer uma coisa, meu amigo.

– O quê?

– Quando o fim chegar, acredite, nós dois vamos saber.