Fogo Cruzado
capítulo 63
O PESSOAL DO FBI COMEÇOU a aparecer logo depois que eu cheguei. Sem dúvida isso era uma faca de dois gumes para mim. Suas equipes de coleta de provas contam com os melhores equipamentos disponíveis – mas a presença delas também significava que Max Siegel não demoraria muito a surgir.
De fato, demos de cara um com o outro acima do corpo de Nelson Tambour.
– É um baita ferimento de saída – disse ele, invadindo meu espaço com sua sensibilidade de sempre. – Ouvi dizer que o cara não valia nada. É verdade? De qualquer modo, vou descobrir.
Ignorei a pergunta e respondi àquela que ele deveria ter feito:
– Definitivamente foi um tiro a distância. Não há nenhuma marca de pólvora. E, dada a posição do corpo, é provável que os disparos tenham vindo de lá.
Bem à nossa frente, do outro lado, talvez a uns 250 metros da margem, podíamos ver fachos de lanternas se entrecruzando na vegetação rasteira da ilha Roosevelt. Tínhamos duas equipes lá procurando cápsulas, pegadas suspeitas, qualquer coisa.
– Você disse disparos, no plural? – perguntou Siegel.
– Isso mesmo. – Apontei para a encosta atrás do ponto onde Tambour havia caído. Quatro bandeiras amarelas estavam cravadas no chão, uma para cada bala recuperada até o momento.
– Três erros e um acerto – falei num sussurro. – Não sei se estamos procurando os mesmos atiradores.
Siegel alternou o olhar entre o rio e o corpo de Tambour diversas vezes.
– Talvez estivessem disparando de algum tipo de barco. Hoje a água está bem agitada. Isso poderia explicar as várias tentativas, os erros...
– É impossível ficar escondido na água – disse eu –, e o risco de haver uma testemunha ocular é muito grande. Além disso, com esses caras sempre foi um tiro e uma morte. Eles não erram.
– O lema do atirador de elite – comentou Siegel. – E daí?
– Acho que é um motivo de orgulho para eles. O trabalho tem sido no mínimo impecável. Até agora.
– Então é mais provável que tenhamos outro maluco com um fuzil de alta potência solto por aí?
Eu podia ouvir o desdém crescendo em sua voz. Lá vamos nós de novo.
– Não era justamente com essa possibilidade que o seu departamento estava trabalhando? – perguntei. – Foi o que Patel me disse. Na reunião a que você não foi.
– Sei. – Siegel ficou confuso. – Então você está elaborando alguma teoria própria... ou só seguindo o que ouve dizer no escritório?
Minha suposição foi que Siegel se sentia ameaçado por mim e seria bom para ele se pudesse me inspirar algum tipo de comportamento não profissional. Eu já havia posto metade do pé na armadilha, mas o puxei de volta e me concentrei no chão ao redor do corpo de Tambour.
Quando ficou claro que eu não responderia, ele tentou me irritar de outra forma.
– Sabe, é possível que esses caras simplesmente sejam bons demais – disse em tom casual. – Esse é o fundamento do terrorismo, certo? O melhor modo de ficar à frente da polícia é agir de modo imprevisível. É uma perspectiva válida neste caso, não é?
– Não estou descartando nada – respondi sem me virar.
– Ótimo. É bom você aprender com seus erros. Quero dizer, não foi isso que o levou a Kyle Craig?
Agora levantei a cabeça.
– Ele era mais esperto do que você, não era? Não ficava mudando de estratégia? Bem... é isso que ele ainda está fazendo, não é? Até hoje? – Siegel deu de ombros. – Ou estou errado nisso também?
– Sabe de uma coisa, Max? Só... pare de falar. – Levantei-me para encará-lo, ficando mais perto do que precisava. Eu não estava mais tentando “administrar” Siegel. Só precisava colocar para fora o que ia dizer. – Qualquer que seja o seu problema, posso lhe recomendar alguns profissionais para resolvê-lo. Mas, nesse ínterim, caso você não tenha notado, nós perdemos um policial aqui hoje. Demonstre um pouco de respeito.
Acho que reagi como ele queria. Siegel deu um passo para trás mas continuou com aquele sorriso antipático na cara. Era como se sempre estivesse pensando em algum tipo de piada que só ele conhecia.
– É justo – respondeu ele, fazendo um gesto por cima do ombro. – Vou ficar ali, para o caso de você precisar de mim.
– Não vou precisar – rebati, e voltei ao trabalho.