Fogo Cruzado
capítulo 5
DENNY FOI NA FRENTE e Mitch o seguiu como uma criança.
– É aqui em cima, meu chapa. Vamos indo.
O 10o andar era o último do prédio. Pedaços de plástico pendiam sobre partes da estrutura de caibro das paredes e o chão era de compensado. Uma pilha de estrados perto das janelas que davam para a Rua 18 serviam como um bom ponto de observação.
Denny desenrolou a lona plástica e abriu-a no chão. Os dois largaram as mochilas. Ele pôs a mão nas costas de Mitch e apontou para o lugar por onde haviam acabado de subir.
– Saída principal – disse, depois se virou noventa graus na direção de outra porta. – Saída alternativa.
Mitch assentiu nas duas vezes.
– E se nós nos separarmos? – continuou Denny.
– Eu limpo as impressões digitais da arma, abandono em algum lugar e encontro você no carro.
– Esse é o cara.
Tinham repassado isso umas cinquenta vezes, do começo ao fim. O treinamento era a chave. Mitch possuía todo tipo de talentos brutos, mas Denny pensava pelos dois.
– Alguma dúvida? – questionou Denny. – Esta é a hora de fazer perguntas. Mais tarde não vai adiantar nada.
– Não – respondeu Mitch. Sua voz tinha ficado monocórdia e distante, como sempre acontecia quando ele estava se concentrando em outra coisa. Já havia posicionado o fuzil M110 no suporte, com um abafador de som, e estava apontando-o, calibrando a mira.
Denny montou seu M21 e pendurou-o às costas. Se tudo corresse de acordo com o plano, ele jamais teria de usá-lo, mas era bom ter uma arma reserva. A Walther também estava no coldre da coxa.
Usou um compasso de corte com lâmina de diamante para riscar um círculo perfeito de 5 centímetros na janela, depois puxou o disco cortado com uma pequena ventosa. As luzes das ruas lá embaixo enviavam uma claridade que fazia a janela, vista de baixo, parecer um espelho.
Enquanto Mitch se posicionava, Denny passou o dedo no vidro e desenhou outro círculo, através do qual podia olhar por cima do ombro de Mitch e ao longo do cano do fuzil. Até a diferença de altura entre os dois ajudava.
Tirou sua luneta da embalagem. Dali tinham uma vista livre até a porta da Taberna del Alabardero. Com a ampliação de cem vezes da luneta, Denny praticamente conseguia ver os poros no rosto das pessoas que entravam e saíam do restaurante metido a besta.
– Aqui, porquinho, porquinho, porquinho – sussurrou. – Ei, Mitch, sabe como um porco descobre que já comeu o suficiente?
– Não.
– Quando vira comida.
– Essa é boa – disse Mitch, com a mesma voz distante de antes. Agora estava na posição: uma pose meio esquisita, com a bunda arrebitada e os cotovelos dobrados, mas isso funcionava para ele. Agora que tinha acertado a postura, não iria se mover nem desviar os olhos até tudo acabar.
Danny fez a verificação final. Olhou para o vapor que saía de uma abertura de ventilação do outro lado da rua, o modo como ele subia direto. A temperatura do ar era de aproximadamente 15 graus. Tudo perfeito.
Agora só precisavam de um alvo, que chegaria logo, logo.
– Está pronto para abrir essa caixa de Pandora, Mitchie? – perguntou ele.
– Quem é Pandora, Denny?
Ele deu um riso baixo. Mitch era realmente uma figuraça.
– É só a garota dos seus sonhos, cara. A garota da porra dos seus sonhos mais loucos.