Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 89 de 129

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Fogo Cruzado

capítulo 85

 

O CARA ESTAVA A MEIO CAMINHO da esquina quando Sampson e eu chegamos ao lado de fora. Ele aparentava ter 50 e poucos anos, mas pelo visto estava em boa forma.

– Droga, droga, droga...

Perseguição a pé é um saco. Simplesmente um saco. Além de todos os motivos óbvios, não é algo que você queira fazer no fim de um longo dia. Mas ali estávamos, Sampson e eu, arrebentando os pulmões pela Rua 2 atrás de um maluco.

Gritei algumas vezes para ele parar, mas estava claro que essa não era sua intenção.

O trânsito da hora do rush na Rua D estava engarrafado o bastante para ele atravessá-la com bastante facilidade.

Cruzei-a logo atrás dele, passando entre um táxi e um caminhão de uma companhia de energia, enquanto alguns caras sentados em cadeiras dobráveis do lado de fora do abrigo gritavam em nossa direção.

– Vai lá, meu chapa! Vai nessa!

– Corre, corre, corre!

Acho que não estavam falando comigo.

Ele continuou em frente e entrou no parquinho perto do Departamento do Trabalho. O parque fazia uma diagonal entre os edifícios altos, indo na direção da Avenida Indiana, mas ele não chegou tão longe.

Ali o chão era aterrado e, quando ele se esforçou para passar sobre o primeiro muro de arrimo, isso o fez diminuir a velocidade o suficiente para que eu o alcançasse. Coloquei um dos pés no muro e as duas mãos nos ombros dele e nos estatelamos num trecho de grama. Pelo menos não estávamos mais na calçada.

Na mesma hora ele começou a me arranhar, querendo se libertar, depois tentou me morder. Sampson chegou e pôs um joelho em suas costas enquanto eu me levantava.

– Senhor, pare de se mexer! – gritou John enquanto eu começava a revistá-lo rapidamente.

– Não! Não! Por favor! – gritava ele no chão. – Não fiz nada! Sou inocente!

– O que é isto?

Eu havia tirado uma faca do bolso lateral de seu casaco imundo. Estava enfiada num rolo de papel higiênico e tinha uma fita adesiva enrolada no cabo.

– Vocês não podem pegar isso! – disse ele. – Por favor! É minha propriedade!

– Não vou pegar – respondi. – Só estou segurando por enquanto.

Nós o ajudamos a ficar de pé e o fizemos sentar-se no muro de arrimo.

– O senhor precisa de atendimento médico? – perguntei. Sua testa estava esfolada por causa da queda. Eu me sentia um pouco mal com isso. Tremendo ali à minha frente, ele parecia meio patético. Não importava que um minuto atrás estivesse se saindo muito bem ao tentar arrancar meus dedos a mordidas.

– Não – respondeu ele. – Não.

– Tem certeza?

– Não tenho necessidade de falar com vocês. Vocês não têm motivo para me prender.

Ele falava bem nosso idioma, ainda que de forma um pouco empolada. E era óbvio que ele não era tão maluco quanto eu pensara, se bem que ainda não nos olhava.

– E quanto a isto? – perguntei, mostrando a faca. Entreguei-a a Sampson. – Olhe, o senhor simplesmente fugiu do seu jantar. Quer um cachorro-quente? Alguma coisa para beber?

– Não tenho necessidade de falar com vocês – repetiu ele.

– É, entendi. Quer uma Coca?

Ele assentiu olhando para o chão.

– Um cachorro-quente e uma Coca – disse Sampson, indo na direção das barraquinhas na Rua D. Dava para ver Siegel e os homens dele na calçada, esperando para descobrir o que havia acontecido. Pelo menos ele estava mantendo distância; essa era uma mudança bem-vinda.

– Escute – falei. – O senhor notou que não perguntei seu nome, certo? Só estou interessado no cara da foto e acho que o senhor sabe de alguma coisa que não está dizendo.

– Não – insistiu ele. – Não. Não. Sou só um homem pobre.

– Então por que saiu correndo? – perguntei.

Mas ele não quis responder e eu não podia obrigá-lo. Quanto a isso ele estava certo. Minha intuição não bastava para detê-lo.

Além do mais, havia outros modos de obter informação.

Quando Sampson voltou com o cachorro-quente, o cara comeu o sanduíche em três mordidas, engoliu o refrigerante e se levantou.

– Estou livre para ir embora, não é? – disse.

– Fique com o meu cartão – respondi. – Para o caso de mudar de ideia.

Entreguei-o a ele e Sampson devolveu a faca na bainha de papelão.

– O senhor não precisa de dinheiro para me ligar – falei. – Basta dizer a qualquer policial na rua que quer falar comigo. E fique longe de encrencas com essa faca, certo?

Não houve despedida, claro. Ele enfiou a faca no bolso e seguiu direto pela Rua D enquanto ficávamos ali parados, olhando-o.

– Pode falar, Sampson – disse eu. – Você está pensando a mesma coisa que eu?

– Acho que sim. Ele sabe de alguma coisa. Vou só deixá-lo virar a esquina primeiro.

– Beleza. Vou pedir para o Siegel terminar o trabalho lá no abrigo. Depois quero levar essa lata de Coca ao laboratório e ver se ela nos diz alguma coisa.

Nosso homem misterioso havia acabado de chegar à Rua 1. Virou à esquerda e continuou, sumindo de vista.

– Certo, esta é a minha deixa – afirmou Sampson. – Ligo se descobrir alguma coisa.

– Eu também – respondi, e nos separamos.