Fogo Cruzado
capítulo 62
NELSON TAMBOUR TINHA levado o tiro antes do crepúsculo, num trecho de grama abandonado entre a Avenida Rock Creek e o rio. A autoestrada já estava fechada quando cheguei lá, desde a Rua K até o Kennedy Center. Parei o mais perto que pude e andei o restante do caminho.
Tambour havia sido detetive da Divisão de Narcóticos e Investigações Especiais, a DNIE. Eu não o tinha conhecido pessoalmente, mas nem por isso o incidente deixou de ser um pesadelo. A Polícia Metropolitana tinha acabado de perder um dos seus, e de modo horrível. O detetive Tambour fora encontrado com o crânio estourado: uma bala de grande calibre havia atravessado sua cabeça.
Agora estava escuro, mas várias luzes fortes iluminavam o lugar, como se fosse o interior de um estádio de futebol. Duas barracas tinham sido montadas ali perto, uma como centro de comando e outra para a coleta de provas fora do campo de visão dos helicópteros da imprensa que circulavam acima.
Também tínhamos a Patrulha do Porto na água mantendo os barcos de passeio a uma boa distância da margem. E o pessoal do comando estava em toda parte.
Quando vi o chefe Perkins, ele me chamou imediatamente. Estava um pouco afastado, junto com os chefes assistentes da DNIE e dos Serviços Investigativos, além de uma mulher que não reconheci.
– Alex, essa é Penny Ziegler, da Divisão de Assuntos Internos – informou ele, e o nó no meu estômago se apertou. O que a Divisão de Assuntos Internosestá fazendo aqui?
– Há algo que eu precise saber? – perguntei.
– Sim – respondeu Ziegler. Seu rosto estava tão tenso quanto os nossos. Policiais assassinados costumam deixar todo mundo na maior agitação.
– O detetive Tambour esteve fora de contato durante o último mês – disse ela. – Íamos prestar queixa contra ele ainda esta semana.
– Sob quais acusações?
Ela olhou para Perkins esperando um gesto de autorização antes de continuar a falar.
– Nos últimos dois anos, Tambour supervisionou uma operação secreta nos três maiores conjuntos residenciais em Anacostia. Vinha guardando para si metade de todas as drogas que apreendiam, principalmente PCP, cocaína e Ecstasy. Depois as revendia através de uma rede de traficantes de rua em Maryland e na Virgínia.
– Ele podia estar fazendo uma entrega aqui – acrescentou Perkins, balançando a cabeça. – Acharam um pacote de cocaína no porta-malas.
Três palavras relampejaram na minha mente: raposas no galinheiro.
De repente Tambour estava muito mais alinhado com o perfil das vítimas do atirador do que um minuto antes.
Mas, ao mesmo tempo, ele era desconhecido do público em geral. Não estivera nas manchetes como os outros, pelo menos ainda não, e essa era uma diferença.
Seria uma diferença importante? Não dava para saber ao certo, contudo eu também não conseguia deixar de pensar que talvez houvesse alguma coisa esquisita ali.
– Quero sigilo total sobre qualquer coisa que tenha a ver com a investigação – falei a Perkins. – Quem cometeu esse atentado obviamente tem alguma informação privilegiada.
– Concordo – respondeu ele. – E, Alex? – Pôs a mão no meu ombro enquanto eu me virava para ir embora. Seus olhos pareciam tensos. Talvez até um pouco desesperados. – Resolva essa porcaria. Isso está a ponto de fugir do controle.
Se esse atentado não fosse da tal equipe de atiradores de elite, as coisas já estariam fora de controle.