Fogo Cruzado
capítulo 107
CHOVIA NA MANHÃ SEGUINTE. Tínhamos planejado fazer nossa grande coletiva de imprensa ao ar livre, mas ela acabou sendo transferida para a sala de identificações do Edifício Daly. Uma centena de repórteres, talvez mais, havia aparecido para isso e nós colocamos uma aparelhagem de som no saguão para quem não conseguisse entrar no prédio e para os que chegassem atrasados.
Max e eu nos sentamos a uma mesa na frente, com o chefe Perkins e Jim Heekin, da Diretoria. O som das máquinas fotográficas disparando soava por toda parte, a maioria delas apontada para Max e para mim.
Esse foi um dos meus momentos de fama. Eu já tivera alguns antes. Seguiriam-se duas semanas de pedidos constantes de entrevistas, talvez uma ou duas ofertas para publicar um livro e com certeza vários repórteres esperando do lado de fora da minha casa quando eu chegasse esta noite.
A coletiva começou com uma declaração do prefeito, que ficou uns 10 minutos explicando por que toda essa história significava que deveríamos votar nele na próxima eleição. Depois o chefe fez um resumo do caso antes de abrirmos espaço para as perguntas.
– Detetive Cross – começou um repórter da Fox –, pode nos relatar passo a passo o que ocorreu naquele telhado ontem à noite? Só o senhor pode contar a história como ela realmente aconteceu.
Essa era a parte atraente do caso – a que vende jornais e espaços para anúncios. Dei uma resposta curta, para manter a dinâmica da coletiva, mas forneci detalhes suficientes para evitar que os jornalistas passassem a hora seguinte querendo saber qual é a sensação de estarcara a cara com um assassino de sangue-frio.
– Então o senhor diria que o agente Siegel salvou a sua vida? – perguntou alguém.
Siegel se inclinou para seu microfone.
– Isso mesmo – disse ele. – Ninguém pode acabar com esse cara, só eu. – Todos deram boas gargalhadas. – Mas, falando sério – continuou –, nós podemos ter passado por alguns acidentes de percurso, porém esta investigação é um exemplo perfeito de como as autoridades federais e locais podem trabalhar juntas diante de uma grande ameaça. Tenho orgulho do que o detetive Cross e eu realizamos e espero que a cidade também se sinta assim a nosso respeito.
Pelo jeito, até mesmo o lado bom de Siegel tinha um ego gigantesco. Mas eu não estava no clima de ser exigente ou mesquinho. Se ele queria a fama, podia ficar com ela.
Nas perguntas seguintes fiquei de lado, até que inevitavelmente alguém questionou:
– E a motivação? Os senhores podem dizer com certeza, neste ponto, que Talley e Hennessey atuavam por conta própria? E por que motivo?
– Estamos examinando todas as possibilidades – respondi de imediato. – O que posso dizer é que os dois atiradores conhecidos como a equipe Patriota estão mortos. A cidade deve retornar ao normal. Quanto a qualquer outro aspecto da investigação, não temos comentários no momento.
Siegel me olhou mas ficou de boca fechada e prosseguimos com nossa encenação.
A verdade total, que jamais diríamos à imprensa, era que tínhamos muitos motivos para achar que Talley e Hennessey agiam seguindo as ordens de outra pessoa. Talvez descobríssemos quem era, talvez não. Naquela manhã, se eu tivesse que dar um palpite, diria que esse caso não se resolveria nunca.
Acontece. Boa parte do trabalho da polícia é pegar os bandidos que ficam na base da pirâmide do crime, sem jamais conseguir chegar ao topo. De fato, é com isso que as pessoas no topo contam. Quem trabalha para elas – os pistoleiros de aluguel, os capangas, os bandidos de rua – é que corre a maior parte dos riscos e em geral é a única parcela que se dá mal.
Algo sobre “raposas no galinheiro” me veio à mente.