Fogo Cruzado
capítulo 8
JÁ EM CASA, PULEI POR CIMA do segundo e do terceiro degraus da varanda, evitando o rangido deles com minhas pernas compridas. Era pouco mais de uma e meia da madrugada, mas a cozinha ainda cheirava a biscoitos de chocolate quando entrei. Eram para Jannie, que teria algum tipo de atividade na escola. Ganhei alguns pontos como pai por saber que ela teria a atividade, mas perdi outros por não saber qual era.
Roubei um biscoito – delicioso, com um leve toque de canela – e tirei os sapatos antes de subir de mansinho.
No corredor, constatei que a luz de Ali ainda estava acesa. Quando olhei para dentro do quarto, vi Bree dormindo ao lado da cama. Ele estivera com um pouco de febre e ela havia arrastado para lá a antiga poltrona de couro de nosso quarto, usada como cabide de roupa suja.
Um exemplar de O ratinho e a motocicleta estava aberto no colo dela.
A testa de Ali estava fresca, mas ele havia chutado a coberta durante a noite. Truck, seu urso de pelúcia, estava de cabeça para baixo no chão. Acomodei os dois de volta na cama.
Quando tentei tirar o livro de Bree, a mão dela se apertou em volta dele.
– E eles viveram felizes para sempre – sussurrei no ouvido dela.
Ela sorriu, mas não acordou, enquanto eu abria caminho até seu sonho. Era um bom lugar para estar, por isso a peguei no colo e a carreguei de volta para a cama.
Era tentador ajudá-la a tirar a calça de pijama, a camiseta e todo o resto, já que eu estava com a mão na massa, mas ela estava tão linda e em paz daquele jeito que não tive coragem de mudar nada. Em vez disso, deitei-me e fiquei só olhando-a dormir um pouco. Muito bom.
Porém, meus pensamentos retornaram inevitavelmente ao caso, ao que eu tinha acabado de ver.
Era impossível não pensar naqueles dias sombrios de 2002, a última vez que havíamos testemunhado algo assim, quando o “franco-atirador de Washington”, junto com seu cúmplice de 17 anos, matou 10 pessoas. A expressão “atirador de elite” provocava ainda hoje uma reação péssima em muita gente em Washington, inclusive em mim. Ao mesmo tempo, havia algumas diferenças apavorantes neste caso, considerando a habilidade do atirador. Além disso, tudo me parecia mais calculado. E então, graças a Deus, eu estava dormindo. Mas contando corpos, em vez de carneirinhos.