Fogo Cruzado
capítulo 94
AO AMANHECER TÍNHAMOS uma equipe tática inteira na esquina da 29 com a K. Poucas coisas que Kyle poderia fazer seriam capazes de me deixar surpreso, e, ainda que aparecer quando e onde ele tinha especificado provavelmente fosse um erro, eu não poderia ignorar o telefonema. Por isso tomamos precauções, o máximo possível.
O local ficava no final do Rock Creek Park, com a via expressa Whitehurst passando acima. Colocamos policiais com fuzis MP5 no elevado e uma barreira de furgões blindados da SWAT cercando a esquina, para bloquear o máximo de linhas de visão possível.
Nosso centro de comando era um café na Rua K, onde o comandante da unidade da SWAT, Tom Ogilvy, podia ficar em contato pelo rádio com sua equipe. Sampson e eu escutávamos em fones de ouvido.
Os paramédicos estavam a postos e havia unidades de patrulha isolando a rua a um quarteirão de distância nas duas direções. Todo o pessoal usava capacetes e coletes à prova de balas.
E talvez tudo isso fosse por nada. Será que Kyle estaria mesmo olhando? Estaria armado? Teria algo na manga? Ou nenhuma das opções anteriores? Acho que eram exatamente essas dúvidas que ele queria suscitar em mim.
De qualquer modo, não demorou muito para que a primeira equipe a agir descobrisse alguma coisa. Menos de cinco minutos depois de terem se esgueirado no parque vindo da 29, o líder do grupo falou pelo rádio:
– Temos um corpo aqui. Homem, branco, de meia-idade. Pode ser um sem-teto.
– Prossiga com cautela – respondeu Ogilvy pelo rádio. Já havíamos colocado todo mundo a par das possibilidades. – Quero uma verificação visual completa ao redor do corpo antes que alguém encoste nele. Equipe B, preciso de vocês em alerta máximo.
Mais três minutos de silêncio se passaram até que o “caminho livre” fosse anunciado. Quando cheguei à porta do café, Sampson agarrou meu braço.
– Deixe isso comigo, Alex. Se o Kyle estiver aí, ele pode estar esperando você.
– De jeito nenhum – respondi. – Além disso, se o Kyle vier atrás de mim, será um confronto cara a cara, não a distância.
– Ah, porque você sabe tudo o que há para saber sobre aquele maníaco?
– Pelo menos disso eu sei – respondi e saí.
Antes mesmo de chegarmos perto do corpo no parque, reconheci o casaco imundo de Stanislaw Wajda. Ele fora deixado de lado, largado sob alguns arbustos, como suas próprias vítimas.
Desta vez não havia nenhum número entalhado. O único ferimento visível era um furo na garganta, semelhante ao que tínhamos visto em Anjali Patel.
Seu pescoço tinha uma grande mancha de sangue seco, que descia pela camisa. Isso significava que era provável que ele estivesse sentado quando recebeu o golpe. E quando morreu também.
Já havíamos recolhido digitais do carrinho de compras e da marreta deixados na Farragut Square. Não havia mais dúvida de que Wajda era o nosso Assassino dos Números. Mesmo assim, independentemente do que ele havia feito quando estava vivo, senti um pouco de pena.
– O que é isso? – Sampson apontou para algo na mão de Wajda. Calcei luvas e me ajoelhei para pegar o que havia entre seus dedos apertados.
Era um pequeno cartão de visita – do tipo que, em geral, era mandado com flores. Tinha a foto de um bolo de casamento na frente, com uma noiva e um noivo afro-americanos em cima.
– É o meu presente de noivado – falei. Sentia um certo enjoo.
Quando abri o cartão, no mesmo momento reconheci as letras de forma precisas, típicas de Kyle.
Para Alex:
De nada.
K.C.