Fogo Cruzado

James Patterson · Capítulo 5 de 129

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Fogo Cruzado

Parte um

ATIRADOR A POSTOS

capítulo 1

 

OUTRO BUEIRO HAVIA EXPLODIDO em Georgetown, fazendo a tampa voar a uma altura de quase 12 metros. Era uma epidemiazinha estranha, como se a velha infraestrutura da cidade tivesse chegado a uma espécie de saturação crítica.

Com o passar do tempo, as tubulações subterrâneas haviam se corroído, preenchendo o espaço sob as ruas com gás inflamável. No fim – e com mais frequência nos últimos dias – os fios expostos criavam um curto-circuito, acendendo uma bola de fogo no esgoto e lançando pelo ar mais uma tampa de ferro de 130 quilos.

Eram essas notícias estranhas e apavorantes que sustentavam Denny e Mitch. Toda tarde eles juntavam seus jornais para vender e iam até a biblioteca acessar o site do Departamento Municipal de Transporte para saber onde o tráfego estaria pior. Os engarrafamentos faziam seus lucros aumentarem.

Mesmo num dia comum, a Key Bridge estava à altura de seu apelido: Ponte Estrangulada. Mas hoje a chegada pela Rua M era uma mistura de estacionamento e circo. Denny seguiu pelo meio do tráfego e Mitch pegou a lateral.

– True Press, só 1 dólar. Ajude os sem-teto.

– Jesus te ama. Ajude os sem-teto.

Formavam uma dupla estranha: Denny, um cara branco de mais de 1,80 metro de altura, com dentes podres e uma barba por fazer que jamais escondia totalmente o queixo fundo, e Mitch, um negro com rosto de menino, corpo robusto que chegava no máximo a 1,67 metro e trancinhas afro no cabelo.

– Isto aqui é uma metáfora perfeita, não é? – dizia Denny.

Os dois conversavam por cima do teto dos carros. Ou melhor, Denny falava e Mitch bancava uma espécie de coadjuvante.

– A pressão vai crescendo lá embaixo, onde ninguém vê, porque tudo o que existe lá são ratos e merda, e quem se importa com isso, não é? Até que um dia... – Denny encheu as bochechas e fez um som parecido com uma explosão nuclear. – Agora você tem que prestar atenção, porque os ratos e a merda estão por toda parte e todo mundo quer saber por que ninguém fez nada para impedir. Se isso não é a descrição perfeita de Washington, não sei o que é.

– Perfeita, malandro – concordou Mitch, rindo. Em sua camiseta desbotada estava escrito: IRAQUE: SE VOCÊ NÃO ESTEVE LÁ, CALE A BOCA! A calça era de camuflagem, larga como a de Denny, só que cortada na altura do tornozelo.

Denny carregava sua camisa dobrada sobre o ombro, em vez de vesti-la, para exibir seu projeto de tanquinho no abdômen. Nunca fazia mal mostrar algo agradável aos olhos, e o rosto não era exatamente seu ponto forte.

– É o estilo americano – continuou ele, alto o bastante para que qualquer um que estivesse com a janela aberta ouvisse. – Continuar fazendo o que sempre fez e continuar ganhando o que sempre ganhou. Estou certo ou não? – perguntou ele a uma bela mulher de tailleur dentro de um BMW. Ela chegou a sorrir e comprou um jornal. – Deus te abençoe, moça. Senhoras e senhores, é assim que a gente faz as coisas!

Continuou a perturbar a multidão, conseguindo que mais e mais motoristas estendessem a mão com dinheiro para fora das janelas.

– Ei, Denny! – Mitch esticou o queixo para mostrar uma dupla de policiais que vinham da Rua 34 na direção deles. – Acho que aqueles dois não estão gostando muito da gente.

Denny gritou antes que os policiais pudessem falar:

– Pedir não é contra a lei, senhores policiais. Pelo menos fora dos parques federais, e da última vez que verifiquei a Rua M não era um parque!

Um deles gesticulou para o emaranhado de carros, caminhões de empresas de energia e veículos do Departamento de Trânsito.

– Vocês estão brincando comigo, né? Vamos lá, saiam daí!

– Qual é, cara, vai negar a dois veteranos sem-teto o direito de ganhar a vida honestamente?

– Você já foi ao Iraque, cara? – acrescentou Mitch. As pessoas começavam a olhar com curiosidade.

– Vocês ouviram – disse o segundo tira. – Vão embora. Agora.

– Ei, cara, só porque você tem um bundão não significa que precise ser um – provocou Denny, arrancando algumas risadas dos motoristas e passageiros. Podia sentir a plateia passando para o seu lado.

De repente houve alguns empurrões. Mitch não gostava muito de ser tocado e o policial que tentou fazer isso caiu sentado entre os carros. O outro pôs a mão no ombro de Denny, que, rápido como um raio, a empurrou para longe.

Hora de dar o fora.

Ele deslizou por cima do capô de um táxi e começou a ir na direção da Prospect, com Mitch em seu encalço.

– Parem aí mesmo! – gritou um dos policiais.

Mitch continuou correndo, mas Denny se virou. Vários carros estavam entre ele e os oficiais agora.

– O que você vai fazer? Atirar num veterano sem-teto no meio do trânsito? – Em seguida abriu os braços. – Vá em frente, cara. Me apague. Economize uns trocados para o governo.

As pessoas estavam buzinando e algumas gritavam de dentro dos carros:

– Deixe-o em paz!

– Apoiem as tropas!

Denny sorriu, mostrou o dedo médio para o policial e correu para alcançar Mitch. Um segundo depois seguiram pela Rua 33 e logo sumiram de vista.