Fogo Cruzado
capítulo 57
O ASSASSINO DOS NÚMEROS – Santo Deus – agora, não.
Quando cheguei à Franklin Square, as entradas já estavam isoladas. Unidades adicionais encontravam-se estacionadas ao longo da praça, na Rua K e na I, embora parecesse que a ação acontecia perto da 13, onde Sampson estava nesse momento acenando para mim.
– Benzinho – disse ele quando me aproximei –, você é o meu herói. Sei que a hora não é a melhor.
– Vamos dar uma olhada.
Dois peritos usando agasalhos azuis estavam trabalhando dentro da área isolada com fita, junto com um legista que reconheci facilmente por trás.
O apelido não oficial de Porter Henning é “Corpulento” e ele faz com que Sampson, o “Homem-montanha”, pareça uma sílfide. Nunca soube muito bem como Porter consegue se espremer naqueles locais de crimes mais apertados, mas, além disso, ele é um dos legistas mais inteligentes com quem já trabalhei.
– Alex Cross, brindando-nos com sua presença – disse ele quando me viu.
– A culpa é desse cara. – Apontei para Sampson, mas parei quando vi a vítima.
As pessoas dizem que a minha especialidade são coisas radicais, e isso de certa forma é verdade, porém não há como alguém se acostumar com a mutilação humana. O corpo fora deixado com o rosto virado para cima no meio de alguns arbustos. As múltiplas camadas de roupas sujas o identificavam como um sem-teto, talvez até alguém que dormisse ali mesmo no parque. E, ainda que houvesse sinais de espancamento severo, eram os números entalhados na testa que causavam maior impacto. Como no assassinato anterior, era bizarro demais.
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– É a mesma sequência da outra vez? – perguntei.
– Quase – respondeu Sampson. – Mas não, não é a mesma.
– E não sabemos quem é a vítima?
John balançou a cabeça.
– Tenho um grupo fazendo perguntas por aí, porém a maioria das pessoas que dormem nos bancos sumiu assim que aparecemos. Confiar nos outros não é exatamente o forte dessa gente, sabia?
Eu sabia, eu sabia. Essa era uma das coisas que tornavam as mortes dos sem-teto tão difíceis de investigar.
– Também há o abrigo, a alguns quarteirões, na Rua 13 – continuou John. – Vou para lá quando sair daqui, ver se alguém sabe alguma coisa sobre esse homem.
A cena em si era difícil de ser interpretada. Havia pegadas recentes na terra, solas lisas que não eram de botas ou tênis. Além disso, alguns sulcos, talvez de um carrinho de compras, mas isso poderia não ter nenhuma relação. Havia pessoas sem-teto passando por ali o dia todo, todo dia. E a noite toda, também.
– O que mais? – perguntei. – Porter? Já descobriu alguma coisa?
– Já. Descobri que não estou ficando mais novo. Além disso, diria que a causa da morte foi tensão do pneumotórax, se bem que os primeiros golpes provavelmente foram aqui, aqui e aqui.
Ele apontou para o lado esmagado da cabeça do morto, onde um líquido rosado enchia o ouvido.
– Fratura basal no crânio, no malar, no arco zigomático, a porra toda. A única coisa que pode ser considerada boa é que o coitado devia estar apagado quando isso aconteceu. Há marcas de picadas em toda parte.
– Tudo como da outra vez – disse Sampson. – Só pode ser o mesmo assassino.
– E os cortes na testa? – Era o serviço com faca mais limpo que eu já tinha visto. Os números eram bem legíveis e os cortes, rasos e precisos. – Alguma ideia inicial sobre eles, Porter?
– Isso não é nada – respondeu. – Veja a verdadeira obra-prima.
Ele abaixou a mão e rolou o rapaz de lado, depois levantou a parte de trás da sua camisa.
– Isso só pode ser brincadeira.
A equação matemática cobria toda a área desde a cintura até as escápulas. Eu nunca tinha visto nada igual. Pelo menos não nesse contexto. Sampson pediu que o fotógrafo da perícia tirasse uma foto.
– Isso é novo – comentou John. – Na outra vez os números estavam só no rosto. Fico pensando se o nosso cara não andou treinando. Talvez haja outros corpos que não encontramos.
– Bom, sem dúvida ele queria que vocês encontrassem este – afirmou Porter. – Essa é a outra coisa. Nem de longe aqui tem sangue suficiente para a quantidade de agressões que ele sofreu. Alguém espancou esse garoto, depois o trouxe para cá e em seguida fez o belo trabalho com a faca.
O fotógrafo cantarolou um pedaço da música-tema de Além da imaginação antes que Sampson o encarasse e o fizesse parar.
– Desculpe, cara, mas poxa, estou feliz por não estar na pele de vocês hoje – disse ele, com a câmera a postos.
Dele e de todos os outros.
– Portanto a questão é: por que trazê-lo para cá? – perguntou Sampson. – O que ele está tentando nos dizer? O que está tentando dizer a quem quer que seja?
Porter deu de ombros.
– Alguém fala matematiquês?
– Conheço uma professora na Howard – falei. – Sara Wilson. Você se lembra dela? – John assentiu, ainda olhando para os números. – Posso ligar para ela, se você quiser. Talvez a gente possa dar um pulo lá esta tarde.
– Sim, seria ótimo.
E ali se encerrava minha rápida consultoria. Eu não tinha tempo para aquilo, no entanto, agora que tinha visto os danos que aquele criminoso era capaz de causar, queria colocar as mãos nele.