Fogo Cruzado
capítulo 81
ÀS OITO E MEIA DA MANHÃ seguinte Colleen Brophy saiu da Rua E e entrou no pátio da igreja, onde eu esperava do lado de fora do escritório do True Press. Ela estava com uma mochila volumosa nos ombros, uma braçada de jornais e um cigarro quase terminado no canto da boca.
– Ah, meu Deus – exclamou ela ao me ver. – Você de novo. O que quer agora?
– Eu não a procuraria se não fosse importante, Sra. Brophy. Sei muito bem como se sente com relação a tudo isto – respondi. Mesmo assim, depois do longo domingo na estrada, eu não estava muito no clima para a atitude dela.
A editora do True Press pousou sua carga de jornais e sentou-se no banco de pedra de onde eu tinha acabado de me levantar.
– Em que posso ajudá-lo? – perguntou ela, com o sarcasmo ainda intacto. – Se é que eu tenho escolha...
Mostrei-lhe a foto de Mitchell Talley.
– Já viu este homem?
– Ah, qual é? – disse ela de imediato. – Você acha que esse é o cara que me mandou aqueles e-mails?
– Vou interpretar isso como um sim. Obrigado. Quando foi a última vez que o viu?
Ela pegou outro cigarro, acendeu-o no anterior e só então respondeu.
– Você precisa mesmo que eu participe disso? A confiança que essas pessoas depositam em mim é muito frágil.
– Não estou atrás de um ladrão de lojas, Sra. Brophy.
– Entendo, mas é com os ladrões de lojas que estou preocupada. Muitos desses sem-teto com quem trabalho precisam violar a lei de vez em quando apenas para sobreviver. Se algum deles me vir falando com você...
– Esta conversa pode ser confidencial. Ninguém precisa saber dela. Quer dizer, presumindo que possamos continuar conversando. A senhora conhece esse homem?
Depois de outra pausa longa e mais algumas tragadas, ela disse:
– Acho que foi na semana passada. Eles pegaram os jornais na quarta-feira, como todos os outros.
– Eles? – perguntei.
– É. Mitch e Denny, o amigo dele. Os dois são como uma...
Então ela parou e se virou lentamente para me olhar. Parecia que tinha acabado de somar dois e dois com relação a alguma coisa. Ou talvez eu devesse dizer um e um.
– Ah, meu Deus – retomou ela. – Eles são como uma equipe. São eles, não é?
Pude sentir aquele estalo mental quando algo se encaixa. Será que tinha acabado de encontrar meu Steven Hennessey?
– Qual é o sobrenome do Denny? – perguntei a ela.
– Honestamente, não sei. Ele é branco, alto e magro. Está sempre com a barba por fazer e tem uma espécie de... – Ela balançou a mão embaixo do maxilar. – Uma espécie de queixo fundo, acho que se pode dizer assim. Ele meio que comanda o Mitch.
– E a senhora disse que eles pegam os jornais na quarta-feira?
Ela assentiu.
– Às vezes voltam para pegar mais quando vendem tudo, mas nos últimos tempos não os tenho visto. Juro. Agora sei que isso é sério.
– Acredito em você – respondi. Tudo em sua atitude havia mudado. Agora ela parecia mais triste do que qualquer coisa. – Tem alguma ideia de onde eu poderia procurar os dois?
– Por aí. Denny tem um Suburban branco e velho, que ele dirige quando consegue gasolina. Sei que eles dormem no carro às vezes. – Agora o veículo era uma pista que não daria em nada, mas não falei nada disso à Sra. Brophy.
– E você pode tentar nos abrigos. Há uma lista deles na última página do jornal. – Ela pegou um exemplar no topo da pilha e me entregou. – Nossa, eu me odeio por estar lhe dizendo tudo isso.
– Não precisa – falei e paguei um dólar pelo jornal. – A senhora está fazendo a coisa certa.
Finalmente.