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O Problema do Grátis
Enquanto isso, os gregos explicitamente rejeitavam o zero. Como o sistema matemático grego se baseava na geometria, os números precisavam representar o espaço de uma forma ou de outra – extensão, ângulos, área etc. O espaço zero não fazia sentido. A matemática grega teve seu melhor exemplo em Pitágoras e em seu culto pitagórico, que fez descobertas tão profundas quanto a escala musical e a proporção áurea (mas não, ironicamente, o Teorema de Pitágoras – na verdade, a fórmula para calcular a hipotenusa de um triângulo retângulo já era conhecida muitos anos antes de Pitágoras). Embora soubessem que a aritmética por vezes produz números negativos, números irracionais e até zero, os gregos rejeitavam todos eles porque não tinham como representá-los em formas físicas. (Estranhamente, a proporção áurea é um número irracional, o que se manteve em segredo enquanto foi possível.)
Essa miopia é compreensível. Quando os números só representam coisas concretas, você não precisa de um número para expressar a ausência de algo. Isso é um conceito abstrato e só transparece quando a matemática passa a ser igualmente abstrata. “A questão do zero é que não precisamos utilizá-lo nas operações da vida cotidiana”, escreveu Alfred North Whitehead, matemático inglês, em 1911. “Ninguém sai de casa para comprar zero peixe. O zero é, de certa forma, o mais civilizado de todos os [números] cardinais, e sua utilização só nos é imposta pelas necessidades provenientes de formas refinadas de pensar.”
Isso nos leva aos matemáticos da Índia. Diferentemente dos gregos, os indianos não viam formas em todos os números. Em vez disso, os indianos viam os números como conceitos. O misticismo oriental incluía tanto o tangível quanto o intangível, por meio da dualidade do yin e do yang. O deus Shiva era, ao mesmo tempo, o criador e o destruidor dos mundos; com efeito, um aspecto da divindade Nishkala Shiva era o Shiva “sem partes” – o vazio. Com base na capacidade de separar os numerais da realidade física, os indianos inventaram a álgebra. Isso, por sua vez, permitiu-lhes estender a matemática a suas finalidades lógicas, incluindo números negativos e, no século IX, o zero. Com efeito, a palavra “zero” tem origem indiana: a palavra indiana para zero era sunya, que significava “vazio” e os árabes transformaram em sifr. Os estudiosos ocidentais latinizaram a palavra para zephirus, a raiz de nosso zero.
O PROBLEMA DO GRÁTIS
Em 900 d.C. já existia tanto um símbolo quanto um modelo conceitual algébrico para o nada. Mas o que dizer do sistema econômico? Bem, em certo sentido, ele sempre existiu. A palavra “economia” vem do grego antigo oikos (“casa”) e nomos (“costume” ou “lei”), daí “regras da casa”. E em casa, o Grátis sempre foi a regra. Mesmo depois que a maioria das culturas estabeleceu economias monetárias, as transações cotidianas nesses grupos sociais intimamente ligados, de famílias a tribos, ainda permanecia em grande parte sem preço. As moedas da generosidade, confiança, boa-fé, reputação e troca justa ainda dominavam os bens e serviços da família, do bairro e até mesmo do local de trabalho. Em geral, o dinheiro não se faz necessário entre amigos.
Mas para transações entre estranhos, em que os laços sociais não constituem o principal sistema de “pontuação”, o dinheiro proporcionava uma métrica consensual de valor e o escambo deu lugar ao pagamento. Mas mesmo nesses casos, sempre houve um lugar para o Grátis em tudo, desde o clientelismo até o serviço civil.
À medida que o estado-nação emergia no século XVII, o mesmo ocorria com a noção de tributação progressiva, em que os ricos davam mais, de modo que os pobres pudessem pagar menos e receber serviços de graça. Esse estabelecimento de instituições públicas para servir as pessoas criou um tipo especial de Grátis: você pode não pagar a si mesmo pelos serviços do governo, mas a sociedade em geral pode, e pode não saber exatamente o quanto do que você pagou em impostos retorna diretamente a você.
A caridade, é claro, também é uma forma de Grátis, como em colaborações comunitárias, como os mutirões organizados para a construção de celeiros e os potlatches, festivais de troca de presentes dos índios americanos. O surgimento da semana de trabalho de cinco dias, as leis trabalhistas que definiam idades mínimas e máximas para o trabalho e a transição da mão de obra camponesa à industrial e depois ao trabalho em escritórios criaram o tempo livre. Isso, por sua vez, gerou uma explosão de voluntariado (mão de obra gratuita) que se mantém até os dias de hoje.
Mesmo quando as economias monetárias passavam a ser a norma, o hábito de não cobrar por algumas coisas ainda era profundamente enraizado. Talvez o melhor exemplo sejam os juros sobre um empréstimo, que, historicamente, são vistos como um ato de exploração, em especial quando se trata dos pobres. Hoje em dia, “usura” significa juros excessivos, mas originalmente significava quaisquer juros. (Um empréstimo sem juros hoje em dia é visto como um tipo de brinde.)
No começo, a Igreja Católica se posicionava firmemente contra cobrar pelos empréstimos. Em 1179, o Terceiro Conselho de Latrão decretou que as pessoas que recebiam juros sobre os empréstimos não tinham mais o direito aos sacramentos nem a um enterro cristão. O papa Clemente V, em 1311, proclamou como heresia a crença no direito à usura e aboliu todas as legislações seculares que a permitiam. O Papa Sisto V condenou a prática de cobrar juros como “detestável a Deus e aos homens, maldita pelos cânones sagrados e contrária à caridade cristã”.
Nem todas as sociedades viam os juros como uma prática do mal. O historiador Paul Johnson observa:
A maioria dos primeiros sistemas religiosos do Oriente Próximo antigo e os códigos seculares que
deles surgiram não proibiam a usura. Essas sociedades consideravam que matéria inanimada tinha
vida, como plantas, animais e pessoas, e era capaz de se reproduzir. Dessa forma, se você emprestasse
“dinheiro em forma de alimento” ou qualquer outro tipo de moeda, era legítimo cobrar juros. O
dinheiro na forma de olivas, tâmaras, sementes ou animais já era emprestado em 5000 a.C., se não
antes.
Mas em se tratando de ganhar lucros com o dinheiro vivo, muitas sociedades se posicionam com mais rigor. Algumas interpretações da lei islâmica banem completamente os juros e o Corão não tenta amenizar a questão: