Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 37 de 98

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Free: grátis. O futuro dos preços

O que a Abundância Pode Fazer

A largura de banda barata demais para ser medida nos foi trazida pelo You-Tube, que está rapidamente revolucionando (alguns dizem destruindo) a indústria televisiva tradicional. O armazenamento barato demais para medir possibilitou o Gmail, com sua caixa de entrada infinita, sem mencionar o TiVo, o Flickr, o MySpace e o iPod.

Antes do iPod, ninguém pedia para carregar toda uma coleção de músicas no bolso. Mas os engenheiros da Apple conheciam os fatores econômicos da abundância do armazenamento. Eles viram que as unidades de disco estavam ganhando capacidade pelo mesmo preço ainda mais rapidamente do que os processadores de computador. Não foi a demanda pelo armazenamento de enormes conjuntos de músicas que impulsionou essa inovação, mas sim a física e a engenharia. Mas os engenheiros da Apple “ouviram o apelo da tecnologia”, para usar a frase de Mead.

Eles prestaram particular atenção a um anúncio da Toshiba em 2000, de que a empresa logo conseguiria fabricar um disco rígido de 1,8 polegada capaz e armazenar cinco gigabytes. Quanta capacidade de armazenamento isso significa? Bem, se você fizer as contas, o suficiente para armazenar mil músicas em uma unidade menor que um jogo de baralhos. Então a Apple fez o que a tecnologia possibilitava e lançou esse produto. A oferta criou a própria demanda – os consumidores talvez nunca tivessem imaginado levar todas as suas músicas para todo lado, mas, quando tiveram a oportunidade, as vantagens se tornaram imediatamente evidentes. Por que prever o que você vai querer ouvir e carregar só isso, quando pode ter tudo ao mesmo tempo?

Agora que esse jogo triplo de tecnologias – processamento, armazenamento e largura de banda – se combinou para formar a Web, a abundância se multiplicou. Uma das piadas da época da bolha, no final da década de 1990, era que existiam apenas dois números na Internet: infinito e zero. O primeiro, pelo menos aplicado às cotações do mercado de ações, comprovou-se falso. Mas o segundo está vivo e muito bem. A Web se tornou o território do Grátis, não por razões ideológicas, mas econômicas. O preço caiu até o custo marginal e o custo marginal de todas as coisas on-line está tão próximo de zero que compensa arredondá-lo.

Da mesma forma que a indústria de computadores levou décadas para entender as implicações da observação de Moore, levará mais décadas para entender as consequências compostas da capacidade da Internet de conectar processamento à largura de banda e armazenamento, os dois outros paladinos da zerosfera.

Quando Lewis Strauss previu que a eletricidade se tornaria barata demais para medir, ela já afetava todas as partes da economia. Foi impressionante imaginar o que essa abundância possibilitaria. Agora a informação influencia a economia praticamente na mesma extensão que a eletricidade.

A informação é como o dinheiro flui; além das notas e moedas em sua carteira, é isso que o dinheiro é – só bits. A informação é como nos comunicamos, como cada telefonema se transforma em dados no momento em que as palavras saem de nossa boca. É a televisão e os filmes a que assistimos e a música que ouvimos – nascidos na forma digital e na forma digital se transformando como todo o restante no mundo dos bits, mudando como são feitos e como o consumimos. Até a própria eletricidade está cada vez mais se tornando uma indústria de informação, tanto no núcleo emissor da rede como em seus limites, à medida que “smart grids”, as redes inteligentes, transformam redes unilaterais em redes interativas, que logo regularão a demanda e tanto enviarão quanto receberão elétrons de painéis solares e carros elétricos.

Tudo o que os bits tocam também é tocado por suas propriedades econômicas únicas – mais barato, melhor, mais rápido. Transforme um alarme contra ladrões em uma tecnologia digital e ele passa a ser apenas mais um ponto sensor e de comunicações na Internet, com abundante armazenamento, largura de banda e processamento acrescentados praticamente de graça. É por isso que existe um incentivo tão grande para digitalizar as coisas: de repente, elas podem passar a integrar algo maior, algo que não apenas funciona mais rápido, como também acelera.

Bits são esteroides industriais da mesma forma que a eletricidade era – fazem com que tudo custe menos e faça mais. A diferença é que eles continuam melhorando como mágica ano após ano. Mais do que apenas uma transformação, como a eletricidade, mas também uma revolução contínua, com cada nova geração do tipo “metade do preço e dobro do desempenho” abrindo possibilidades totalmente novas.

Mas e o que dizer da primeira lição na aula de economia, que o preço é definido pela oferta e a demanda, e não pela ciência? Não tema, isso ainda é verdade. A oferta e a demanda determinam o preço para qualquer uma dessas commodities em qualquer momento. Mas as tendências de precificação de longo prazo são determinadas pela própria tecnologia – quanto maior for a quantidade de determinada commodity, menos ela custará. A Lei de Say (nome em homenagem ao economista francês do século XIX Jean-Baptiste Say) afirma que a “oferta cria a própria demanda”, o que é outra forma de dizer que, se você fabricar um milhão de vezes mais transistores, o mundo encontrará utilidade para eles.

Em qualquer determinado momento, o mundo pode querer ligeiramente mais ou ligeiramente menos do que está sendo produzido hoje, e o preço refletirá isso instantaneamente, subindo ou caindo com a oferta e a demanda. Mas no longo prazo, preços de produção cada vez mais baixos garantem que a tendência geral seja de queda, com desequilíbrios momentâneos de oferta e demanda meramente produzindo pequenas ondas em uma linha que inevitavelmente se aproxima de zero.

Então, toda a economia atual se baseia em curvas de aprendizagem composta. É impressionante, algo que levamos uma geração para compreender e levaremos mais gerações para explorar em sua plenitude. Mas o primeiro sinal de suas implicações veio não dos economistas, e sim da radical sociedade secreta dos… aficionados por trenzinhos de brinquedo.