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Chris Anderson · Capítulo 70 de 98

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Tornando o Mundo Seguro para Vídeos de Gatos

Cory Doctorow, escritor de ficção científica, chama a isso de “pensar como um dente-de-leão”. Ele escreve:

A vontade de cada uma – ou até da maioria – das sementes não é o que importa, do ponto de vista

de um dente-de-leão. O que importa é que, a cada primavera, cada fissura em cada calçada esteja

cheia de dentes-de-leão. O dente-de-leão não quer cuidar de uma única e preciosa cópia de si mesmo

na esperança de ela deixar o ninho e cuidadosamente percorrer um longo caminho até o ambiente de

crescimento ótimo para, ao chegar lá, perpetuar a linhagem. O dente-de-leão só quer se certificar de

que cada oportunidade de reprodução seja explorada!

É assim que adotamos o desperdício. As sementes são baratas demais para que possam ser medidas. Parece errado, até estranho, jogar tanta coisa fora, mas é a melhor maneira de se beneficiar da abundância.

Pense no aspirador de pó robótico Roomba. É difícil vê-lo funcionando sem sentir pena de sua estupidez, enquanto ele ricocheteia aleatoriamente pela sala, percorrendo os mesmos caminhos e deixando de passar por montes óbvios de sujeira. No entanto, mais cedo ou mais tarde, de uma forma ou de outra, o carpete é limpo à medida que esse passeio aleatório percorre cada centímetro quadrado. Pode levar uma hora para fazer o que você faria em cinco minutos, mas não se trata de seu tempo, e sim do tempo da máquina. E a máquina tem muito tempo.

 

TORNANDO O MUNDO SEGURO PARA VÍDEOS DE GATOS

Talvez o melhor exemplo dessa gloriosa aceitação do desperdício seja o YouTube. Costumo ouvir as pessoas reclamando que o YouTube não representa ameaça alguma à televisão, por estar cheio de bobagens, o que, imagino, deve ser verdade. O problema é que não existe um consenso sobre o que é “bobagem”, porque não existe um consenso para seu oposto, a “qualidade”. Você pode estar procurando vídeos engraçados de gatos e meus tutoriais preferidos sobre soldagem talvez não interessem a você. Eu, de minha parte, quero ver cenas divertidas de videogames e seu tutorial de culinária não me interessa. E os vídeos de nossos charmosos familiares são, é claro, uma fonte de deleite para nós e totalmente maçantes para o restante do mundo. A bobagem está nos olhos de quem vê.

Até os vídeos mais populares do YouTube podem fracassar totalmente de acordo com a definição de Hollywood de qualidade de produção, no sentido de que os vídeos são de baixa resolução e mal iluminados, com péssima qualidade de som e enredos inexistentes. Mas nada disso importa, porque o mais importante é a relevância. Sempre preferiremos um vídeo de “baixa qualidade” de algo que realmente queremos a um vídeo de “alta qualidade” de algo que não queremos.

Alguns fins de semana atrás era a hora de meus filhos escolherem como passar as duas horas de “tempo de tela” às quais eles têm direito aos sábados e domingos. Sugeri que seria um bom dia para “Guerra nas estrelas” e ofereci uma opção. Eles podiam assistir a qualquer um dos seis filmes em qualidade de DVD em uma enorme tela de projeção de alta definição com surround sound e pipoca. Ou podiam ir para o YouTube e assistir a animações em stop motion de bonequinhos de Lego atuando em cenas do “Guerra nas estrelas” criadas por crianças de 9 anos. Eles não pensaram duas vezes – e correram para o computador.

Acontece que meus filhos, e muitas crianças como eles, não estão muito interessados no filme “Guerra nas estrelas” criado por George Lucas. Eles estão mais interessados no “Guerra nas estrelas” criado por outras crianças, a despeito das câmeras tremidas e dos dedos no enquadramento. Em minha infância, eu me lembro de muitos produtos inteligentes elaborados para estender a franquia do “Guerra nas estrelas” a crianças, de brinquedos a lancheiras, mas, até onde sei, ninguém pensou em uma animação em stop motion de bonequinhos Lego criada para crianças.

É provável que a demanda por esse tipo de encenação do “Guerra nas estrelas” sempre tenha existido, mas era invisível, porque ninguém pensou em oferecer esse produto. Mas com o YouTube, ninguém mais precisava da permissão de um profissional de marketing para fazer as coisas e um mercado antes invisível surgiu subitamente. Juntos, encontramos uma categoria que os profissionais de marketing haviam deixado de ver. (Existem dezenas de outros mercados com base no “Guerra nas estrelas”, de ficção criada por fãs à 501 a Legião de adultos que fazem as próprias fantasias e se reúnem para realizar encenações.)

Todos esses vídeos aleatórios no YouTube são como sementes de dentes-de-leão em busca de solo fértil sobre o qual pousar. Em certo sentido, estamos “desperdiçando vídeo” em busca de um vídeo melhor, explorando o espaço potencial do que um filme pode ser. O YouTube é um amplo experimento coletivo para inventar o futuro da televisão, um upload irrefletido e esbanjador. Mais cedo ou mais tarde, por meio do YouTube e de outros sites similares, cada vídeo que puder ser feito será feito e todo cineasta que puder ser um cineasta se tornará um. Todos os nichos possíveis serão explorados. Se você reduzir os custos de exploração de um espaço, pode ser menos exigente em relação ao modo como isso é feito.

Ninguém está decidindo se um vídeo é bom o suficiente para justificar o espaço escasso que ele ocupa, porque não existe um espaço escasso. A distribuição agora está tão perto do Grátis que praticamente pode ser arredondada a zero. Hoje em dia, custa cerca de $0,25 enviar uma hora de vídeo a uma pessoa. No ano que vem, esse valor cairá para $0,15. E um ano depois, será menor que $0,01. É por isso que os fundadores do YouTube decidiram dá-lo, tanto no sentido de gratis quanto de libre. O resultado é caótico e se opõe a todos os instintos de um profissional da televisão, mas é isso que a abundância requer e demanda. Se o YouTube não tivesse feito isso, haveria outro recurso para ocupar seu lugar.

Tudo isso se resume à diferença entre a mentalidade da abundância e da escassez. Se controlar recursos escassos (digamos, o horário nobre na programação da televisão), você precisa ser seletivo. Há custos reais associados a essas meias horas de tempo de rede e a penalidade por deixar de atingir dezenas de milhões de espectadores é calculada em tinta vermelha e em função de carreiras perdidas. Não é de se espantar que os executivos das redes recorram a fórmulas batidas de comédias de situações e celebridades – uma aposta segura em um jogo caro.