Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 75 de 98

Páginas do PDF

Free: grátis. O futuro dos preços

15. Imaginando a Abundância

MUNDO GRÁTIS

 

 

A China e o Brasil são as fronteiras do Grátis. O que podemos

aprender com eles?

 

TODOS OS AUTORES de ficção científica conhecem a regra tácita: você só pode violar as leis da física uma ou duas vezes por história. Depois disso, todas as regras do mundo normal devem ser mantidas. Então, você pode ter viagem no tempo, inventar a Matrix ou nos colocar em Marte. Mas além disso, somos apenas sujeitos normais. A diversão nas histórias provém de ver como a humanidade reage a essa grande mudança.

A ficção científica é o que o autor Clive Thompson chama de “o último baluarte dos textos filosóficos”. É uma espécie de simulação, Thompson diz, em que mudamos algumas regras básicas e aprendemos mais sobre nós mesmos. “Como o amor mudaria se vivêssemos até os 500 anos? Se você pudesse viajar de volta no tempo para reverter decisões, você o faria? E se você pudesse confrontar Deus, conversar com Ele ou matá-Lo?”

Um recurso ao qual os autores sempre recorrem é a invenção de alguma máquina que torna abundantes as coisas escassas. É o caso dos replicadores em “Jornada nas estrelas” (basta apertar um botão para se ter o objeto físico que quiser) e o mundo controlado por robôs de “WALL-E” (em que as pessoas se transformam em bolhas corpulentas enquanto passam seus dias à beira da piscina, com bebidas sempre à mão).

Nos círculos de ficção científica (e para os tecnoutopistas mais sofisticados), isso é chamado de “economia da pós-escassez”. Nesse contexto, muitos desses romances são mais do que simples histórias; eles também são longos experimentos mentais sobre as consequências de coisas caras passando a ser disponibilizadas quase de graça.

Vejamos o conto de E. M. Forster de 1909 “A Máquina parou”. Um dos primeiros exemplos da forma da pós-escassez apresenta um mundo no qual a humanidade se retirou para o subsolo, vivendo em apartamentos individuais, separados de toda interação física. Uma Máquina colossal provê toda a vida, garantindo alimento, entretenimento e proteção do mundo tóxico da superfície, como um grande deus mecânico. Com efeito, as pessoas da história passam a adorar a Máquina. E por que não? Nos apartamentos, todas as necessidades humanas são providas:

Havia botões e comutadores por toda parte – botões para pedir comida, música, para roupas. Havia

um botão de banho quente, que, ao ser pressionado, uma banheira de (imitação de) mármore se

elevava do chão, cheia até a borda de um líquido desodorante quente. E havia o botão de banho frio.

Havia o botão que apresentava literatura. E havia, é claro, os botões por meio dos quais [Vashti,

personagem principal] se comunicava com os amigos.

Vashti não tinha qualquer ocupação ou meta além de conversar com os amigos por meio de dispositivos de videcomunicação instantânea. (Para os pais das crianças e adolescentes de hoje, tenho certeza de que isso não soa estranho.)

E aí está: um contexto de abundância. E como a história se desenrola? Não muito bem. Pelo fato de a Máquina intermediar todas as interações pessoais, as pessoas perdem as habilidades de comunicação presencial e passam a temer encontrar-se umas com as outras. Os habitantes do mundo da Máquina decidem que todas as informações devem ser coletadas e redistribuídas para evitar contato direto. Infelizmente, essa atitude de evitar a interação implica o fim de toda criatividade colaborativa e o progresso para. A humanidade perde o senso de propósito, delegando até mesmo a criação de arte e literatura à Máquina.

Quando a Máquina começa a apresentar defeitos, ninguém sabe como consertá-la. Então, enquanto a Máquina se deteriora, as pessoas da Terra morrem em massa, esmagadas vivas nas colmeias subterrâneas. No final, contudo, um personagem revela à beira da morte que descobriu uma sociedade de exilados ainda vivendo na superfície da Terra, livres da prisão da abundância. Ufa!

Outras obras de ficção científica do início do século XX assumem o mesmo tom sombrio. As transformações provocadas pela Revolução Industrial ainda estavam ocorrendo e a violenta mudança social provocada por mecanização, urbanização e globalização era perturbadora. A abundância criada pelas máquinas era vista como disponível apenas aos poucos privilegiados – os beneficiários industrialistas das fábricas nas quais os outros trabalhavam.

Em “Metropolis”, de Fritz Lang, a sociedade é dividida em dois grupos: um composto de planejadores e pensadores vivendo no luxo muito acima da Terra e outro, de trabalhadores, morando e trabalhando no subsolo para operar a máquina que sustenta os abastados. O filme é sobre a revolta dos trabalhadores, mas a ideia mais ampla é clara. A abundância tem seu custo: escassez por toda parte.

As guerras mundiais jogaram um balde de água fria sobre grande parte da utopia da ficção científica, mas o despertar da Era Espacial a revitalizou e, dessa vez, sem tanta menção à idade das sombras. Como nas histórias citadas, em The City and the Stars, de 1956, Arthur C. Clarke começa descrevendo uma cidade tecnológica hermeticamente lacrada em que máquinas suprem todas as necessidades e ninguém realmente morre. Os cidadãos passam o tempo em discussões filosóficas, produzindo arte e participando de aventuras na realidade virtual. Depois de alguns milhares de anos, eles voltam ao Hall da Criação para que sua consciência seja digitalizada. Clarke retrata essa situação como idílica, mas a vida das pessoas acaba perdendo um pouco o sentido; o personagem principal decide se aventurar no deserto para ver o que existe no mundo lá fora e acaba descobrindo um mundo bem parecido com o nosso, em que o ciclo normal de nascimento e morte proporciona às pessoas um senso de propósito.

A chegada da era digital e o advento da Internet deram à ficção científica uma fonte mais plausível de abundância: os computadores. Bastava mergulhar no Metaverso e você poderia ser quem quisesse; a escassez era um conceito da realidade virtual e, se você fosse um bom hacker, poderia ter o que quisesse. Os escritores contemporâneos tinham uma visão mais positiva da abundância porque já a estavam vivenciando – a Internet trouxe o fim da escassez de informações.