Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 24 de 98

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A Abundância Vence

Mas talvez o exemplo mais conhecido de abundância no século XX seja o plástico, que tornou os átomos quase tão baratos e maleáveis quanto os bits. O que o plástico – a commodity mais maleável que existe – era capaz de fazer era reduzir os custos de manufatura e materiais a praticamente zero. Ele não precisava ser entalhado, processado, pintado, fundido ou carimbado. Ele era capaz de assumir qualquer formato, textura ou cor desejada. O resultado foi o nascimento da cultura do descartável. O conceito lançado por King Gillette com a lâmina de barbear foi estendido a praticamente todo o resto por Leo Baekeland, que criou o primeiro polímero totalmente sintético em 1907. Seu nome originou o termo baquelite e deu nome à empresa Bakelite Corporation. A letra B pairando sobre o símbolo matemático do infinito foi incorporada pelo logo da empresa e as aplicações do polímero pareciam não ter fim.

Na Segunda Guerra Mundial, o plástico se tornou um importante material estratégico e o governo dos Estados Unidos gastou US$1 bilhão em fábricas de produção do polímero sintético. Depois da guerra, toda essa capacidade, redirecionada ao mercado de consumo, transformou um material incrivelmente maleável em um excessivamente barato. E assim nasceram o Tupperware, as mesas de fórmica, as cadeiras de fibra de vidro, os sofás de couro artificial, os bambolês, as canetas descartáveis e as meias-calças de nylon.

A primeira geração do plástico era vendida não como uma substância descartável, mas como algo superior. Ele podia ser moldado em formatos mais perfeitos do que o metal e durava mais do que a madeira. Mas a segunda geração de plásticos, os vinis e poliestirenos, era tão barata que podia ser jogada no lixo sem que se pensasse a respeito. Na década de 1960, bens descartáveis representavam a modernidade, o triunfo da tecnologia industrial sobre a escassez material. Jogar fora bens manufaurados não era desperdício; era o privilégio de uma civilização avançada.

Depois da década de 1970, as atitudes em relação a essa superabundância começaram a mudar. O custo ambiental de uma cultura de consumo descartável se tornou mais evidente. O plástico podia ter parecido quase gratuito, mas só porque ele não estava sendo precificado adequadamente. Inclua os custos ambientais – os “fatores externos negativos” – e talvez não pareça certo jogar fora aquele brinquedo que veio com o McLanche Feliz depois de brincar só uma vez. Uma nova geração começou a reciclar. Nossas atitudes em relação aos recursos abundantes passou da psicologia pessoal (“Não vou precisar pagar por isso”) à psicologia coletiva (“Precisaremos pagar por isso”).

 

A ABUNDÂNCIA VENCE

A história do século XX envolve extraordinárias mudanças sociais e econômicas motivadas pela abundância. O automóvel foi possibilitado pela capacidade de explorar vastos depósitos de petróleo, que substituiu o óleo de baleia, escasso, e permitiu que os combustíveis líquidos se popularizassem. O contêiner de dimensões padronizadas, que não demandava uma doca cheia de estivadores para carregar e descarregar os cargueiros, barateou a remessa o suficiente para usar abundante mão de obra em regiões distantes. Os computadores tornaram a informação abundante.

Da mesma forma que a água sempre fluirá morro abaixo, as economias fluirão na direção da abundância. Para produtos que podem se tornar commoditizados e baratos isso de fato tende a acontecer, e as empresas em busca de lucros se movem contra a corrente em busca de nova escassez. Onde a abundância derruba os custos de alguma coisa ao chão, o valor é transferido aos níveis adjacentes, o que o editor de tecnologia Tim O’Reilly chama de “Lei da Conservação de Lucros Atrativos”.

Em 2001, o guru da administração Seth Godin escreveu em Unleashing the Ideavirus: “Vinte anos atrás, as 100 principais empresas da lista da Fortune extraíam alguma coisa do chão ou transformavam um recurso natural (minério de ferro ou petróleo) em algo que era possível segurar.” Hoje em dia, como observou Godin, a situação é muito diferente.

Somente 32 das 100 principais empresas de hoje fazem coisas que você pode segurar, de equipamento aeroespacial a automóveis a substâncias químicas e comida, moldagem de metal e indústria pesada. As outras 68 empresas processam na maior parte ideias, e não recursos. Algumas oferecem serviços, em vez de produtos, como cuidados médicos e telecomunicações. Outras criam bens que são, em sua maior parte, propriedade intelectual, como medicamentos e semicondutores, em que o custo de produzir o item físico é minúsculo em comparação com o custo de inventá-lo. E ainda outras criam mercados para os bens dos outros, como atacadistas e varejistas de massa. Veja uma segmentação da lista:

• Seguros: de vida, saúde (12)

• Serviços médicos (6)

• Bancos comerciais (5)

• Atacadistas (5)

• Lojas de alimento e medicamentos (5)

• Comércio geral (4)

• Produtos farmacêuticos (4)

• Títulos (4)

• Varejistas de especialidades (4)

• Telecomunicações (4)

• Computadores, equipamento de escritório (3)

• Entretenimento (3)

• Ferramentas financeiras diversificadas (2)

• Remessa de cartas, pacotes, carga (2)

• Redes ou outros equipamentos de comunicações (2)

• Software de computador (1)

• Instituições de poupança (1)

• Semicondutores e outros componentes eletrônicos (1)

A questão que aprendemos com a aposta entre Ehrlich e Simon era que, à medida que as commodities ficam mais baratas, o valor migra para outro lugar. Ainda há muito dinheiro nas commodities (veja, por exemplo, os estados produtores de petróleo), mas, em geral, as maiores margens de lucro são encontradas onde a massa cinzenta foi agregada às coisas. Foi o que aconteceu à lista citada. Algumas décadas atrás, a maior parte do valor estava na manufatura. Então, a globalização transformou a manufatura em uma commodity e o preço caiu. Depois, o valor passou para coisas que (ainda) não eram commodities, afastando-se da coordenação mãos-olhos e se aproximando da coordenação cérebro-boca. Os trabalhadores do conhecimento de hoje são os operários de ontem (e os fazendeiros de anteontem), nadando rio acima em busca da escassez.

Nos dias de hoje, essa escassez é o que Robert Reich, ex-secretário do Trabalho dos Estados Unidos, chamou de “análise simbólica”, a combinação de conhecimento, habilidades e pensamento abstrato que define um trabalhador do conhecimento eficaz. O desafio constante é descobrir como dividir melhor a mão de obra entre pessoas e computadores e essa linha está sempre em movimento.

À medida que os computadores aprendem a realizar o trabalho humano (como operações no mercado financeiro), o preço desse trabalho cai para quase zero e os humanos que perderam o emprego aprendem a fazer algo mais desafiador ou não. O primeiro grupo normalmente ganha mais do que antes, enquanto o segundo grupo ganha menos. O primeiro é a oportunidade que vem com indústrias que se aproximam da abundância; o segundo é o custo. Como sociedade, nosso trabalho é tentar fazer o primeiro grupo ser maior do que o segundo.

A mentalidade da abundância não só está descobrindo o que ficará mais barato, como também está em busca do que se tornará mais valioso em consequência dessa transição e se moverá nessa direção. É o motor do crescimento, que nos tem impulsionado já antes de David Ricardo definir a “vantagem comparativa” de um país sobre o outro no século XVIII. A abundância de ontem consistia em produtos de outro país com recursos mais fartos ou mão de obra mais barata. A abundância de hoje também consiste em produtos da terra do silício e fibras ópticas.