Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 23 de 98

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A Cegueira da Profusão

Os humanos foram programados para entender melhor a escassez do que a abundância. Da mesma forma que evoluímos para reagir exageradamente a ameaças e perigo, uma de nossas táticas de sobrevivência é nos concentrarmos no risco de as provisões chegarem ao fim. A abundância, de uma perspectiva evolucionária, não é problema, enquanto a escassez precisa ser combatida. O resultado é que, apesar da vitória de Simon, o mundo parecia presumir que Ehrlich, em algum nível, continuava certo.

Simon reclamou que, por algum motivo que ele jamais entenderia, as pessoas tendiam a acreditar no pior sobre qualquer coisa; elas estavam imunes a evidências contrárias, como se tivessem sido vacinadas contra o poder do fato. As previsões sombrias de Ehrlich continuaram (e continuam) a ter sua influência. Enquanto isso, as observações de Simon só parecem interessar aos traders de commodities.

 

A CEGUEIRA DA PROFUSÃO

Deveria ser óbvio que Simon tinha mais chances de ganhar a aposta. Mas nossa tendência de dar mais atenção à escassez do que à abundância nos fez ignorar os vários exemplos de abundância que temos testemunhado, como o milho. O problema é que, uma vez que alguma coisa passa a ser abundante, tendemos a ignorá-la, da mesma forma que ignoramos o ar que respiramos. Há uma razão pela qual a economia é definida como a ciência da “escolha diante da escassez”: diante da abundância, você não precisa fazer escolhas, o que significa que nem precisa pensar a respeito.

É possível ver exemplos disso por toda parte. Em algumas regiões sem acesso ao mar da Europa na Idade Média, o sal algumas vezes era tão escasso que era utilizado como uma “moeda”, como o ouro. Veja a situação agora: o sal é um condimento incluído gratuitamente em qualquer refeição – barato demais para ser cobrado.

Na categoria mais ampla, vemos efeitos arrebatadores, como globalização, que disponibilizou mão de obra abundante a qualquer país. Hoje em dia, necessidades básicas como roupas podem ser produzidas de forma tão barata a ponto de se tornarem praticamente descartáveis. Em 1900, a camisa masculina mais básica (basicamente, o tecido e a costura equivalentes a uma camiseta) custava nos Estados Unidos cerca de $1 no atacado, o que era muito, especialmente considerando o preço de varejo. Em consequência, o consumidor americano médio tinha apenas oito peças de roupa.

Hoje em dia, a camiseta continua custando $1 no atacado. Mas, hoje, $1 vale 25 vezes menos do que valia um século atrás, o que significa que, na prática, podemos comprar 25 camisetas pelo preço de uma daquela época. Hoje em dia, ninguém precisa se vestir com trapos; com efeito, alguns sem-teto têm mais acesso a roupas de graça do que a chuveiros e máquinas de lavar roupa, de modo que tratam as roupas como um item descartável, que é usado por algum tempo e depois jogado fora.