Free: grátis. O futuro dos preços
O Pinguim Ataca
Outra forma de software grátis é o de código aberto, algo com o qual a Microsoft tem concorrido durante décadas, embora nem sempre com esse nome. Até 1998, o software que as pessoas podiam usar e modificar gratuitamente era chamado de “free software” ou “freeware” e variava de sistemas operacionais (como variantes do UNIX) a processadores de textos e linguagens de programação. Mas com a ascensão da Web como plataforma de comunicações, as comunidades informais de programadores que escrevem esses códigos cresceram e se tornaram mais eficazes. Licenças especiais foram criadas, o que permitiu que o software se popularizasse e atraísse ainda mais colaboradores. O software livre se tornou uma força digna de nota.
Em 1998, a decisão da Netscape de abrir ao público o código do navegador Netscape foi o catalisador que popularizou o software livre (o “free software”). Em uma reunião realizada mais tarde naquele ano, organizada pelo editor Tim O’Reilly, atingiu-se um consenso em relação ao termo “código aberto”. Essa foi a principal vantagem de não usar a palavra “free”, que foi jogada na lama pelo extremismo ideológico de Richard Stallman, o ex-incendiário do MIT, cuja Free Software Foundation vinha tentando empurrar o movimento na direção da própria visão anticapitalista.
Linus Torvalds, na época com 29 anos, também estava presente na reunião. Sete anos antes, em Helsinque, ele começara a trabalhar em um modesto projeto para criar uma variação simplificada do sistema operacional UNIX, que chamou de Linux. Devido à combinação de bom código, sua personalidade forte, habilidades organizacionais e, o mais importante, a Web como um veículo de colaboração global, o projeto decolou (os temores em relação ao domínio da Microsoft e o sentimento geral anti-Redmond dos puristas do software também ajudaram).
Na ocasião da reunião de O’Reilly, o Linux já era visto como o garoto-propaganda dessa nova classe de software, um exemplo de código funcional e popular desenvolvido com base em uma licença que exigia que todas as pessoas que utilizassem e alterassem o software disponibilizassem essas alterações gratuitamente a todos. Qualquer pessoa podia vender o software se quisesse, mas ele não seria de propriedade de ninguém.
Inicialmente, o Linux concorria, em grande parte, com outras versões do UNIX, das gratuitas às versões comerciais da Sun e da IBM. Mas seu sucesso, tanto em termos de recursos técnicos quanto sua extraordinária utilização de talento e trabalho gratuito, também estava começando a chamar atenção em Redmond, onde a Microsoft estava sentada, satisfeita, em um mercado de vários bilhões de dólares vendendo software de sistema operacional de servidores.
Ao entrevistar executivos da Microsoft sobre como a empresa decidiu competir de maneira eficaz com o código aberto, o que mais me impressionou foi constatar como isso demorou a acontecer. Embora a empresa estivesse ciente do Linux desde o início e seus profissionais de marketing estivessem depreciando publicamente o fenômeno desde o final da década de 1990, na Microsoft ela era vista como mais um inseto em suas costas; nada grave o suficiente para provocar um ajuste de estratégia. A empresa considera o Linux World 2002, uma conferência conduzida em setembro daquele ano, como o início do que o gerente de programação Peter Houston chama de estratégia para “combater o Linux com credibilidade”.
Como ponto de referência, essa epifania ocorreu mais de uma década depois de Torvalds dar início ao projeto Linux e quatro anos após o encontro do código aberto promovido por O’Reilly. Isso ocorreu três anos depois da “bolha do Linux”, com empresas como a VA Linux e a Red Hat, que abriram o capital na NASDAQ e viram suas ações decolarem. E em 2002, a participação de mercado do Linux no mercado de sistemas operacionais para servidores da Web chegava a 25%, em comparação com 50% da Microsoft.