Free: grátis. O futuro dos preços
1. Não existe essa coisa de almoço grátis.
As pessoas com uma sólida educação em economia sabem que nada é realmente “grátis”: você vai pagar de uma
forma ou de outra pelo que receber.
– Terry Hancock, em uma carta de reclamação para a Free Software Magazine
Esse argumento é conhecido como TANSTAFL 1 no mundo da economia e foi muito utilizado por Milton Friedman, o ganhador do Prêmio Nobel e ex-professor da University of Chicago. Isso quer dizer que uma pessoa ou sociedade não tem como receber nada em troca de nada. Mesmo que algo pareça grátis, sempre há um custo para a pessoa ou para a sociedade como um todo, embora esse custo possa ser oculto ou diluído.
Será que isso sempre se aplica? Na verdade, estamos lidando com duas questões, uma econômica e uma prática: intelectualmente, achamos que alguém deve estar pagando em algum lugar, certo? E que, no final, essa pessoa será eu, certo?
A resposta mais curta para a primeira questão é sim. Mais cedo ou mais tarde, todos os custos devem ser pagos. O que está mudando, contudo, é que esses custos estão passando do “oculto” (o pequeno detalhe da cerveja que vo- cê precisa comprar para aquele almoço) ao “distribuído” (alguém está pagando, mas provavelmente não é você; com efeito, os custos podem ser tão diluídos que individualmente nem chegamos a senti-los).
Os economistas costumam analisar essa regra no contexto dos “mercados fechados”, como o balanço patrimonial do restaurante que serve esse almoço. Se você não estiver pagando pelo almoço, seu companheiro de almoço está. E se ele não estiver pagando, o proprietário do restaurante está. Ou, se o proprietário do restaurante não estiver pagando, o fornecedor do alimento está. E assim por diante. De uma forma ou de outra, os registros contábeis devem se equilibrar.
Mas o mundo está cheio de mercados que não são fechados e tendem a vazar em outros mercados ao redor deles, que podemos ou não estar mensurando. Já analisamos a interação entre os mercados monetários e não monetários. O almoço pode ter saído de graça para você no mercado monetário, mas você pagou com seu tempo e sua presença nos mercados de atenção e reputação. Esses são os “outros custos” e é assim que os economistas lidam com fatores que não se encaixam nos modelos básicos. Um desses fatores são os “custos de oportunidade” – o valor de alguma outra coisa que você poderia ter feito com seu tempo enquanto estava almoçando.
Se fosse possível contabilizar todos os mercados, monetários e não monetários, e calcular as taxas de conversão adequadas, sem dúvida constataríamos que Friedman estava certo. Mas não temos como fazer isso. E mesmo que pudéssemos calcular o custo ecológico distribuído da última vez que você respirou, por exemplo, isso não eliminaria a realidade de que respirar é grátis em todos os sentidos que fazem alguma diferença para você.
A economia, pelo menos em sua forma idealizada, segue as leis da conservação: o que entra deve sair. Se você emitir mais moeda, por exemplo, a teoria monetária padrão dita que você desvaloriza a oferta existente de dinheiro em uma quantia equivalente.
Na realidade, contudo, a economia é chamada de “ciência sombria” por uma razão – como qualquer outro estudo do comportamento humano, ela é mais do que um pouco imprecisa. O que não pode ser diretamente mensurado nos sistemas econômicos é desprezado e jogado em uma categoria denominada “fatores externos” (por exemplo, quando você compra um par de sapatos, não paga pelo impacto ambiental do carbono emitido durante a fabricação do produto – isso é chamado de “fator externo negativo”, que discutiremos em mais detalhes a seguir). Muitos dos custos desse almoço grátis se enquadram nessa categoria dos fatores externos – tecnicamente, mas, para você, é irrelevante.