Free: grátis. O futuro dos preços
Brand Explica
Em geral, a única parte dessa citação que é lembrada é que “a informação quer ser grátis”, o que difere bastante da citação original de Samson na lista de Levy, de duas formas. Para começar, Samson dissera “free”, em inglês, no sentido de livre, irrestrito, e não de grátis – aquela era a época do mainframe e a grande questão era quem teria acesso à máquina. Brand, contudo, alterou o significado da palavra “free” para o sentido utilizado em seu livro – de grátis, ou preço zero.
A segunda diferença é que Brand transformou o “deve” de Samson em “quer”. Grande parte da elaboração de Brand se deve à metáfora antropomórfica que atribui desejo à informação, em vez de projetar uma postura política a ela (“deve”). Essa forma de se expressar, neutra em termos de valor, retirou o “livre” dos hackers fanáticos como Stallman, que queriam proteger uma ideologia de abertura forçada e a expressavam como uma simples força da natureza. A informação quer ser livre da mesma forma que a vida quer se espalhar e a água quer descer morro abaixo.
Essa citação é incompreendida porque só metade dela é lembrada. A outra metade do que Brand disse – “a informação quer ser cara, por ser tão valiosa” – é ignorada, talvez por parecer, ao mesmo tempo, paradoxal e tautológica. Talvez um modo melhor de entender o que ele disse é:
A informação commoditizada (todo mundo recebe a mesma versão) quer ser grátis. A informação
customizada (você recebe algo único e que faz sentido para você) quer ser cara.
Mas essa forma de dizer também não está totalmente correta. Afinal, o que é uma busca no Google se não uma forma única e customizada da Web, personalizada só para você, para ser uma resposta significativa à sua pergunta? Então, vamos tentar novamente:
A informação abundante quer ser grátis. A informação escassa quer ser cara.
Nesse caso, estamos usando uma construção de “abundante” e “escasso” no que se refere ao custo marginal: a informação que pode ser replicada e distribuída a um baixo custo marginal quer ser grátis; a informação com alto custo marginal quer ser cara. Dessa forma, você pode ler este livro on-line (informação abundante, commoditizada) de graça, mas, se quer que eu vá até sua cidade e faça uma palestra customizada sobre o Grátis e a aplicação a seu negócio, ficarei feliz, mas você terá de pagar pelo meu tempo (escasso). Eu tenho muitos filhos e a faculdade não está ficando mais barata.
BRAND EXPLICA
Mas essa é só minha interpretação. Considerando o impacto dessa profecia, procurei Brand para entender melhor o contexto e o significado que ele quis dar à frase.
Minhas primeiras perguntas diziam respeito às palavras que ele usou nessa lendária citação. Em primeiro lugar, por que ele mudou o imperativo dos hackers de que essa informação “deve” ser grátis para “quer” ser grátis?
Por duas razões, ele disse. Em primeiro lugar, do ponto de vista semântico, a frase soava melhor: “É poético e mítico e escapa da palavra acusadora ‘deve’.” Mas a segunda razão é mais importante: “Ela muda a perspectiva de si mesmo para o fenômeno, e o fenômeno é que o valor provém dessa forma peculiar de compartilhamento.” Em outras palavras, trata-se mais de uma função da informação do que de uma decisão que eu ou você tomamos a respeito. Na verdade, não faz muita diferença qual é nossa filosofia específica sobre cobrar ou distribuir gratuitamente a informação, os fatores econômicos subjacentes da informação claramente favorecem a segunda opção.
Minha próxima pergunta na desconstrução da frase foi sobre a tão esquecida segunda parte. Por que ele elaborou essa dualidade do “grátis” e do “caro”?
Ele disse que chamou sua atenção o paradoxo da informação sendo puxada para os dois extremos:
Em argumentos que eu ouvia sobre a propriedade intelectual, ambos os lados faziam todo o sentido
e essa é a definição de um paradoxo. Os paradoxos estão por trás das coisas que importam para nós.
O casamento é um paradoxo: eu não consigo viver com ela e não consigo viver sem ela. As duas
afirmações são verdadeiras. E a dinâmica entre essas duas afirmações é o que mantém o casamento
interessante, entre outras coisas.
Os paradoxos são o oposto das contradições. As contradições se fecham em si mesmas, mas os
paradoxos se mantêm evoluindo, porque, cada vez que você reconhece a verdade de um lado, é
apanhado pela verdade do outro lado.
Na conferência, algumas pessoas estavam distribuindo shareware gratuito e outras estavam
vendendo software de cópia controlada por milhares de dólares. Então, o preço que podia ser
cobrado por isso ainda estava no processo de ser descoberto e o preço evoluía tanto para baixo
quanto para cima. Em outras palavras, o mercado nunca se estabilizava no sentido normal. As
pessoas estavam cobrando o que o tráfego era capaz de suportar e o tráfego suportava todos os
tipos de preços muito bizarros. Era possível manter corporações sendo um completo bandido.
Outra sutileza da frase é a forma como ele usou a palavra “informação”. Essa é uma utilização relativamente moderna do termo e tem origem no famoso artigo de Claude Shannon sobre a teoria da informação, de 1948. Antes disso, as pessoas, em geral, usavam diferentes palavras (ou nenhuma palavra) para descrever o fenômeno particular de ideias ou instruções codificadas. (Com efeito, em seus textos de 1939 sobre as ideias embrionárias, o próprio Shannon utilizava a palavra “inteligência”, em vez de “informação”.) Uma das palavras que as pessoas usavam era, é claro, “linguagem”, mas outras incluíam “símbolos” e “sinais”. Até a era da informação, a palavra “informação” costumava ser utilizada no contexto de notícias: “Tenho algumas novas informações.” Ou simplesmente “fatos”.
Shannon trabalhava na AT&T e sua teoria se baseava em um contexto do processamento de sinais. Ela definia informação como o oposto de ruído – sinais coerentes versus incoerentes – e calculava como extrair um do outro. Isso pode ser feito na forma de sinais analógicos ou digitais, mas hoje, quando falamos de informação, normalmente estamos falando de bits digitais: aqueles sinais on/off que não significam nada ou significam tudo, dependendo de como os decodificamos.
Um processador de textos pensa que seu arquivo MP3 não passa de ruído e seu TiVo não consegue ler uma planilha, mas, do ponto de vista da informação, eles são todos a mesma coisa: um fluxo de bits. Um bit só reflete a diferença entre dois estados, que podem ou não ter sentido. Mas a informação é o que o antropólogo inglês Gregory Bateson descreveu como “uma diferença que faz uma diferença”.
Quando Brand utilizou a palavra “informação”, ele estava se referindo à informação digitalmente codificada e o que isso refletia era sua experiência com as primeiras redes digitais, incluindo a que ele cofundou, a Whole Earth ‘Lectric Link (WELL). O que ele aprendeu era que os bits e seu significado eram coisas totalmente diferentes. Os bits eram, pelo menos economicamente, quase grátis, mas seu significado podia ter uma ampla variedade de valor, de zero a infinito, dependendo de quem os recebia.
“Uma das coisas que adotei como modelo na WELL foi uma companhia telefônica”, ele explicou. “Ela não vende conversas. Eles, na verdade, não se importam com o que as pessoas dizem ao telefone. Tudo o que eles querem que você faça é pagar a conta para que seu telefone funcione e que você passe algum tempo usando o telefone. O conteúdo é irrelevante.”
A analogia no mundo físico, ele disse, é um bar. O bar proporciona um lugar para a interação social e conversas, mas não cobra por isso. Ele só cobra pela cerveja que lubrifica essas interações. “Você descobre algum outro item para cobrar, como os canecos de cerveja ou o tom de discagem ou algum outro equivalente, como a propaganda adjacente. Você sempre acaba cobrando por algo além da informação.”
E ele não fica chateado ao ver que, durante 25 anos, as pessoas citam só a metade da frase dele? É o que acontece com os memes, ele diz: eles se propagam na forma mais eficiente, não importa se essa era a intenção ou não. Afinal, ele observa, Winston Churchill não disse: “Sangue, suor e lágrimas.” Winston Churchill disse: “Sangue, suor, trabalho duro e lágrimas.” Aquilo podia soar melhor, mas um deles não é um líquido. A propagação mimética editou a frase para sua forma ótima.