Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 20 de 98

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A Era da Abundância

Enquanto as emissoras de rádio e a ASCAP negociavam, as estações de rádio começaram a assumir o controle da situação, extinguindo totalmente as apresentações ao vivo. A tecnologia de gravação estava melhorando e cada vez mais estações começavam a tocar discos, que eram anunciados por um locutor em um estúdio, conhecido como disk jockey. As gravadoras de música reagiram vendendo discos com os dizeres “NÃO LICENCIADO PARA A TRANSMISSÃO POR RÁDIO”, mas, em 1940, a Corte Suprema decretou que as estações de rádio podiam reproduzir um disco se o comprasse. Então, a ASCAP convenceu seus membros mais proeminentes, como Bing Crosby, a parar de gravar novos discos.

Diante de uma seleção cada vez menor de músicas para tocar e um pagamento de direitos autorais que potencialmente as levaria à falência, as emissoras reagiram organizando o próprio órgão de direitos autorais, a Broadcast Music Incorporated (BMI). Rapidamente, a arrivista BMI se tornou um ímã para músicos regionais, como artistas do rhythm-and-blues e da música country e western, que normalmente eram desprezados pela ASCAP, sediada em Nova York. Como esses músicos menos populares queriam mais exposição do que dinheiro, eles concordaram em permitir que as estações de rádio transmitissem as músicas de graça. O modelo de negócios de cobrar uma fortuna de estações de rádio pelo direito de tocar músicas foi por água abaixo. Em vez disso, o rádio passou a ser conhecido como o principal canal de marketing para os artistas, que ganhariam dinheiro vendendo discos e shows.

Apesar de a ASCAP ter contestado essa estratégia em várias ações judiciais nas décadas de 1950 e 1960, ela nunca recuperou o poder de cobrar altas taxas de direitos autorais das estações de rádio. Os direitos autorais “free to air” versus nominais para os artistas criaram a era dos disks jockeys e, por sua vez, o fenômeno das Top 40. Hoje em dia, as taxas de direitos autorais são calculadas com base em uma fórmula envolvendo tempo, alcance e tipo de estação, mas são baixas o suficiente para permitir que as estações de rádio prosperem.

A ironia estava completa. Em vez de acabar com o negócio da música, como a ASCAP temia, o Grátis ajudou a indústria musical a crescer e prosperar significativamente. Uma versão inferior grátis da música (qualidade inferior, disponibilidade imprevisível) acabou se mostrando um excelente recurso de marketing para uma versão superior paga, e o faturamento dos artistas passou das apresentações aos direitos autorais sobre os discos. Agora o Grátis oferece a oportunidade de fazer a transição de volta, na medida em que a música grátis serve como ferramenta de marketing para a crescente indústria de shows. O único fator que permanece inalterado, como era de se esperar, é que as gravadoras continuam se mostrando contrárias a isso.

 

A ERA DA ABUNDÂNCIA

Se o século XX viu pessoas voltando a adotar o conceito do Grátis, também testemunhou um fenômeno crucial que ajudou a transformar o Grátis em uma realidade – a chegada da abundância. Para a maioria das gerações anteriores, a escassez – de alimentos, roupas ou moradia – era uma preocupação constante. Para aqueles nascidos no mundo desenvolvido mais ou menos nos últimos 50 anos, contudo, a abundância tem prevalecido. E em nenhuma outra área essa abundância tem sido mais evidente do que no pré-requisito fundamental para a vida: alimento.