Free: grátis. O futuro dos preços
O Primeiro Almoço Grátis
Explicando claramente sua lógica no livro de 1902, Mutual Aid: A Factor of Evolution, Kropotkin, de certa forma, antecipou algumas das forças sociais que dominam a “economia dos links” da Internet hoje em dia (pessoas se conectando umas às outras, levando tráfego e reputação ao destinatário). Ao dar algo de graça, ele argumentou, o que se ganha não é dinheiro, mas satisfação. Essa satisfação se baseava na comunidade, ajuda mútua e apoio. As qualidades dessa ajuda que se autorreforçava, por sua vez, levavam os outros a retribuir. “Sociedades primitivas” funcionavam assim, ele argumentava, de modo que essa economia dos presentes se aproximava mais do estado natural das relações humanas do que do capitalismo de mercado.
Mas todas as tentativas de fazer isso funcionar na prática em qualquer escala fracassaram, porque os laços sociais que policiam uma ajuda mútua desse tipo tendem a enfraquecer quando o tamanho do grupo excede 150 membros (que passou a ser chamado de “número de Dunbar”, o limite empiricamente observado em que os membros de uma comunidade humana conseguem manter fortes vínculos entre si). Isso, obviamente, acabava condenando o coletivismo em qualquer grupo tão grande quanto um país. Foi necessário esperar pela chegada dos mundos virtuais para finalmente podermos ver economias mais amplas desenvolvidas ao redor do benefício mútuo realmente funcionando. Sociedades on-line, desde a Web até jogos on-line de múltiplos jogadores, nos permitem manter redes sociais muito mais amplas das que mantemos no mundo físico. O software amplia nosso alcance e aumenta nosso crédito.
O PRIMEIRO ALMOÇO GRÁTIS
No final do século XIX, parecia que as batalhas ideológicas tinham, em grande parte, chegado ao fim. As economias de mercado estavam firmemente enraizadas por todo o Ocidente. Longe de ser a origem de todo o mal, o dinheiro provava-se catalisador de crescimento e a chave para a prosperidade. Seria melhor que se pudesse determinar o valor de qualquer coisa pelo preço que as pessoas estariam dispostas a pagar – era simples assim. Sonhos utópicos de sistemas alternativos baseados em presentes, escambo ou obrigação social se reservavam a experimentos periféricos, de comunas a kibbutzim em Israel. No mundo do comércio, o “grátis” assumiu seu principal significado moderno: uma ferramenta de marketing. E, como tal, rapidamente passou a ser visto com desconfiança.
Na época em que King Gillette e Pearle Wait fizeram fortunas com base no Grátis, os consumidores estavam acostumados a ouvir “não existe essa coisa de almoço grátis”. A frase se refere a uma tradição antes comum em tabernas dos Estados Unidos, que começaram a oferecer comida “grátis” a qualquer cliente que comprasse pelo menos uma bebida. Variando de um sanduíche a uma refeição completa, esses almoços grátis normalmente valiam muito mais do que o preço de uma única bebida. No entanto, os donos das tabernas apostavam que a maioria dos clientes pediria mais de uma bebida e que o apelo da comida grátis atrairia clientes em horários de menos demanda.
Em 1872, o The New York Times relatou que os almoços grátis haviam surgido como uma tendência “peculiar” comum em New Orleans, onde uma refeição grátis podia ser encontrada em qualquer taberna em qualquer dia. A oferta incluía generosas porções de manteiga, grandes cestas de pão, tigelas enormes cheias de batatas, carneiro cozido, tomates, macaroni à la française e “um prato de carne que devia pesar 20 quilos”.