Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 32 de 98

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Free: grátis. O futuro dos preços

Adiante-Se ao Barato

Vejamos o exemplo do transistor. Em 1961, um único transistor custava $10. Dois anos mais tarde, ele custava $5. Dois anos depois, quando Moore publicou sua previsão na edição de abril de 1965 da revista Electronics, ele custava $2,50. Em 1968, o preço do transistor caíra para $1. Sete anos depois, ele custava $0,10. Mais sete anos e ele passou a custar $0,01, e assim por diante.

Atualmente, os mais recentes chips de processamento da Intel contêm cerca de dois bilhões de transistores e custam por volta de $300. Isso significa que cada transistor custa aproximadamente 0,000015 centavos. Em outras palavras, barato demais para ser medido.

Esse tripé composto de tecnologias mais rápidas, melhores e mais baratas – processamento, armazenamento e largura de banda – é colocado em prática on-line, e é por isso que hoje em dia você tem serviços grátis como o YouTube – essencialmente quantidades ilimitadas de vídeo a que você pode assistir imediatamente com uma resolução cada vez melhor – que seriam dispendiosos a ponto de serem impraticáveis apenas alguns anos atrás.

Nunca no decorrer da história humana os insumos primários e uma economia industrial tiveram os preços reduzidos tão rapidamente e por tanto tempo. Esse é o motor que impulsiona o novo Grátis, aquele que vai além de um artifício de marketing ou de um subsídio cruzado. Em um mundo no qual os preços sempre parecem aumentar, o custo de qualquer coisa com base nessas três tecnologias sempre cairá. E continuarão caindo até se aproximar o máximo possível do zero.

 

ADIANTE-SE AO BARATO

Quando o custo do que você produz cai com essa regularidade, por tanto tempo, é possível tentar esquemas de precificação que, de outra forma, poderiam parecer insanos. Em vez de vendê-lo pelo que ele custa hoje, você pode vendê-lo pelo quanto ele custará amanhã. A maior demanda que esse preço mais baixo estimulará vai acelerar a curva, garantindo que seu produto custe ainda menos do que o esperado amanhã. E assim você ganha mais dinheiro.

Por exemplo, no início da década de 1960, a Fairchild Semiconductor vendia um dos primeiros transistores, chamado de 1211, aos militares. Cada transistor tinha um custo de fabricação em torno de $100. A Fairchild queria vender o transistor à RCA para ser utilizado em seu novo receptor UHF de televisão. Na época, a RCA utilizava tubos de vácuo tradicionais, que custavam apenas $1,05 cada.

Os fundadores da Fairchild, os lendários Robert Noyce e Jerry Sanders, sabiam que, à medida que o volume de produção aumentasse, o custo do transistor rapidamente cairia. Mas para fazer a primeira venda comercial, eles precisariam reduzir imediatamente o preço, antes de ter qualquer volume. Então, eles arredondaram o preço para baixo. Muito baixo. Eles reduziram o preço do 1211 para $1,05, desde o início, antes mesmo de saberem como poderiam produzi-lo a um custo tão baixo. “Produziríamos os chips em uma fábrica que ainda não havíamos construído, utilizando um processo que ainda não tínhamos desenvolvido, mas o importante era: estávamos no mercado na semana seguinte trabalhando com um preço de $1,05”, Sanders contou. “Estávamos vendendo para o futuro.”

E funcionou. Ao se adiantar na curva de queda do preço, eles atingiram a meta de $1,05 e abocanharam 90% de participação de mercado dos receptores UHF. Dois anos mais tarde, eles conseguiram reduzir o preço do 1211 para $0,50 e ainda lucrar. Kevin Kelly, que descreveu esse efeito em seu livro Novas regras para uma nova economia, chama a isso “antecipar-se ao barato”.

Imagine se Henry Ford tivesse usado a mesma tendência em sua fábrica do Modelo T. Parece quase impossível: como um produto físico, como um carro, poderia ter seu preço reduzido da mesma forma que a tecnologia digital? Todo ano, teríamos de dobrar a eficiência da extração de minério do solo e sua transformação em metais. Todos os componentes de um carro precisariam ficar mais baratos, como os chips semicondutores, obedecendo a alguma espécie de Lei de Moore para limpadores de para-brisa e dispositivos de transmissão. Os trabalhadores precisariam concordar com uma redução salarial de 50% todos os anos ou metade deles precisaria ser substituída por robôs.

Mas se você testemunhou as primeiras décadas da indústria automobilística, não seria impossível imaginar tudo isso. Entre 1906 e 1918, os preços dos automóveis, “ajustados para a qualidade” (o desempenho do carro por dólar), caíram aproximadamente 50% a cada dois anos, de modo que, ao final desse período, um carro equivalente custava apenas um quinto do que na década anterior.

Ao passar do trabalho manual a uma linha de montagem alimentada por motores elétricos, Ford conseguiu reduzir o custo da mão de obra. Então, ao trocar peças customizadas feitas à mão por componentes-padrão manufaturados, ele, mais uma vez, reduziu o custo da mão de obra e vendeu milhões de carros produzidos em massa.

Mas essa impressionante curva de custo descendente, fruto das revolucionárias técnicas de linha de produção de Henry Ford, não tinha como se manter. As melhorias da razão preço/desempenho dos carros desaceleraram e, hoje em dia, constituem apenas alguns por cento ao ano. De fato, tornamo-nos muito melhores na extração dos minérios do solo e metade dos trabalhadores da indústria automobilística realmente foi substituída por robôs, mas isso não aconteceu da noite para o dia. Os carros realmente ficam cada vez mais baratos e melhores, mas longe da velocidade da tecnologia digital. Hoje em dia, um carro continua sendo um item caro.

Do ponto de vista ambiental, isso não é nada ruim. Mesmo que fosse possível reduzir os preços dos produtos físicos com a mesma rapidez que os preços dos microchips, os “fatores externos negativos” da superprodução resultante logo se tornariam evidentes. Se você assistiu à animação da Pixar WALL-E, em que os humanos são obrigados a abandonar o planeta devido ao acúmulo de gigantescas montanhas de lixo, pode imaginar o problema.

Mas no mundo digital, em que o que é criado em abundância são bits efêmeros de informação – elétrons, fótons e fluxo magnético –, não há nada que impeça essas impressionantes leis de duplicação de serem plenamente concretizadas. E a consequência é, como o próprio Moore observou, incrível: “A Lei de Moore é uma violação da Lei de Murphy. Tudo fica cada vez melhor.”