Free: grátis. O futuro dos preços
A Equação Tempo/dinheiro
O outro lado dessas duas histórias é que a imposição de um preço, por menor que seja, normalmente reduz a participação, muitas vezes de modo radical. No caso do Google, as pessoas pegariam muito menos guloseimas se tivessem de pagar. No caso da instituição de caridade, ela passou a distribuir muito menos passagens de ônibus. Esse é o trade-off do Grátis: o Grátis é a melhor forma de maximizar o alcance de algum produto ou serviço, mas, se isso não for o que você estiver tentando fazer (o Google não está tentando maximizar o consumo de guloseimas), pode ter efeitos contraproducentes. Como qualquer outra ferramenta poderosa, o grátis deve ser utilizado com cautela, pois pode provocar mais danos do que benefícios.
A EQUAÇÃO TEMPO/DINHEIRO
Em algum momento de sua vida, você pode acordar e perceber que tem mais dinheiro do que tempo. Então, você perceberá que deveria começar a fazer as coisas de forma diferente, o que significa deixar de andar quatro quadras para encontrar um caixa eletrônico que não cobra uma taxa, cruzar a cidade para encontrar gasolina mais barata ou pintar você mesmo sua casa.
Esse mesmo cálculo constitui a base de grande parte da economia freemium (veja a página 26). Costumamos ver isso em prática em jogos on-line gratuitos, como o Maple Story, em que você pode comprar itens como “pedras de teletransporte” para ir rapidamente de um lugar a outro sem uma longa caminhada ou sem ter de esperar por um ônibus. A maioria desses bens digitais pagos não melhora seu desempenho no jogo, mas lhe permite se tornar um jogador melhor mais rapidamente.
Se você for uma criança, provavelmente tem mais tempo do que dinheiro. Esse é o apelo da troca de arquivos de MP3, que nem sempre dá certo mas é de graça (apesar de ilegal!). Como Steve Jobs observou, se você fizer o download de música a partir de serviços de compartilhamento de arquivos, provavelmente terá de lidar com formatos problemáticos de arquivo, informações faltando sobre o álbum e a possibilidade de se tratar da música errada ou uma versão de baixa qualidade. O tempo que leva para evitar o pagamento significa que “você está trabalhando por menos do que o salário mínimo”, ele observou. No entanto, se você for rico em termos de tempo e pobre em termos de dinheiro, faz sentido agir assim. O Grátis é o preço certo para você.
Mas à medida que você envelhece, a equação se inverte e $0,99 de economia aqui e ali não parece mais ser um grande negócio. Você passa a ser um cliente pagante, o usuário premium na equação do freemium.
Um de meus projetos paralelos é uma empresa de hardware livre chamada DIY Drones (desenvolvimento e venda de tecnologia robótica aérea). Você provavelmente já conhece o conceito do software livre, ou de código aberto, mas a nova ideia de estender isso ao hardware – de circuitos impressos até as parafernálias eletrônicas de consumo como o fone Android do Google – só está surgindo agora.
Mesmo em sua forma embrionária, o hardware livre é um exemplo realmente interessante de como ganhar dinheiro com o Grátis. Ele acrescenta uma nova dimensão ao mundo do software livre, porque diz respeito a átomos (que têm custos marginais reais), não somente bits de informação que podem ser propagados praticamente sem custo algum.
A forma como a maioria das empresas de hardware livre trabalha é: todos os projetos, arquivos de circuitos impressos, software e instruções são gratuitos e disponibilizados a todos. Se quiser construir o seu (ou, ainda melhor, aprimorar um design), você é incentivado a fazer isso. Mas se não quiser o risco ou o trabalho de fazer você mesmo, pode comprar uma versão pré-montada que, com certeza, funcionará.
Por exemplo, veja o microprocessador livre Arduino, no qual se baseiam os pilotos automáticos da DIY Drones. Você pode construir o seu, com as instruções completas que podem ser encontradas em
arduino.cc. Ou pode comprar um. A maioria das pessoas compra. A equipe do Arduino ganha dinheiro com uma taxa de licença cobrada das empresas e varejistas que compram e vendem as placas.
Você pode montar uma boa empresa com base nesse modelo, como Limor Fried demonstrou com sua Adafruit Industries, uma empresa de varejo/design de kits eletrônicos. Ela e o sócio, Phillip Torrone, têm um modelo de negócios simples construído ao redor do Grátis, que eu descaradamente copiei para a DIY Drones.
Veja como ele funciona:
1. Desenvolva uma comunidade em torno de informações e orientações gratuitas sobre um tópico
específico.
2. Com a ajuda dessa comunidade, projete alguns produtos que as pessoas queiram e retribua o
favor disponibilizando gratuitamente os produtos desmontados.
3. Faça as pessoas com mais dinheiro do que tempo/habilidade/tolerância ao risco comprarem a
versão acabada desses produtos. (O que quase todo mundo acaba fazendo.)
4. Repita esse procedimento, incorporando margens de lucro de 40% aos produtos para pagar as
contas.
É realmente simples. Como diz Torrone: “Eu não consigo imaginar um livro, um vídeo ou uma revista sem uma comunidade reunida ao redor do projeto do começo ao fim. No final, sempre me pareceu que o que importa é a história – as pessoas gostam de ver o começo, o meio e o fim, o enredo de alguma coisa – e, se encontrarem um botão ‘Comprar’ em algum lugar, algumas vezes elas clicam nele e nos recompensam pelo trabalho duro.”
Quando você pensa a respeito, esse é outro exemplo da psicologia do Grátis, no que se refere a dois aspectos. O primeiro é o cálculo mental que fazemos quando valorizamos nosso tempo. Você se lembra da afirmação de Steve Jobs de que você não está recebendo nem um salário mínimo se escolher se dar ao trabalho e perder tempo se arrastando por todos os complicados metadados que acompanham a troca de arquivos? Jobs estava argumentando que pagar $0,99 por uma música poupava tempo ao comprador (além de outros argumentos sobre legalidade e justiça).