Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 62 de 98

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Free: grátis. O futuro dos preços

A Economia do Grátis e o Mundo Grátis

VOLTANDO ÀS RAÍZES DA ECONOMIA

 

Como uma piada de um século se transformou na lei da economia

digital

 

EM 1838, ANTOINE COURNOT, matemático francês que vivia em Paris, publicou Recherches, atualmente considerada uma obra-prima da economia (embora, na época, poucas pessoas pensassem assim). No livro, ele tentou modelar como as empresas concorrem e concluiu, depois de muitos cálculos, que tudo tinha relação com a quantidade produzida. Se uma fábrica produzisse tigelas e outra empresa quisesse abrir uma fábrica que também produzisse tigelas, ela tomaria o cuidado de não fabricar demais, temendo encher o mercado de tigelas e provocar redução dos preços. Ambas as empresas, de alguma forma simultânea e independente, regulariam a produção para manter o maior preço possível.

O livro foi, como costuma ser o caso das mais inspiradas obras, imediatamente ignorado. Os membros da Escola Liberal Francesa, que, na época, dominava a profissão da economia na França, não se interessaram, deixando um desalentado e amargo Cournot. (Mesmo assim, ele desenvolveu uma carreira notável, ganhou vários prêmios e morreu em 1877.) Mas depois de sua morte, um grupo de jovens economistas retomou Recherches e concluiu que Cournot fora injustamente desprezado pelos contemporâneos. Eles exigiram que os modelos de concorrência de Cournot fossem reavaliados.

Então, em 1883, outro matemático francês, Joseph Bertrand, se dispôs a analisar a obra apropriadamente. E ele a odiou. Bertrand argumentou que Cournot havia chegado a conclusões erradas sobre praticamente tudo. Com efeito, Bertrand achou que a utilização, por Cournot, do volume de produção como a principal unidade de concorrência era tão arbitrária que ele, meio que brincando, reelaborou o modelo de Cournot com preços, e não produção, como a variável-chave. Estranhamente, ao fazer isso, ele descobriu um modelo tão ou mais elegante quanto o de Cournot.

Bertrand concluiu que, em vez de limitar a produção para elevar os preços e aumentar os lucros, as empresas provavelmente reduziriam os preços para ganhar participação de mercado. Com efeito, elas tentariam enfraquecer umas às outras até o preço atingir um nível um pouco acima do custo de produção, o que se chama de “precificação de custo marginal”. E se os preços mais baixos incentivassem uma maior demanda, tanto melhor.

A Concorrência de Bertrand pode ser resumida da seguinte forma:

Em um mercado competitivo, o preço cai até o custo marginal.

É claro que, naquela época, não existiam muitos mercados verdadeiramente competitivos, pelo menos não da forma que os modelos desses matemáticos os definiam: com produtos homogêneos (não diferenciação de produto) e sem conluio. Então, outros economistas ignoraram os dois como teóricos tentando desnecessariamente reduzir um comportamento humano complexo a equações inflexíveis e, durante algumas décadas, o incidente foi esquecido como mais uma disputa acadêmica.

Mas à medida que a economia entrava no século XX e os mercados se tornaram competitivos e mais mensuráveis, os pesquisadores retomaram o trabalho desses dois franceses pioneiros. Gerações de estudantes universitários de economia queimaram neurônios para descobrir quais indústrias se encaixavam mais no modelo de concorrência de Cournot e quais se adequavam mais ao modelo de concorrência de Bertrand. Eu lhe pouparei dos detalhes, mas a forma resumida é a seguinte: em mercados abundantes, onde é fácil fazer mais produtos, Bertrand tende a vencer; o preço muitas vezes de fato cai até o custo marginal.

Isso ainda seria de grande interesse acadêmico se não fosse pelo fato de que, atualmente, estamos construindo o mercado mais competitivo que o mundo já viu, em que o custo marginal dos produtos e serviços se aproxima de zero. No ambiente on-line, no qual as informações são uma commodity e os produtos e serviços podem ser facilmente copiados, testemunhamos o modelo de concorrência de Bertrand se desenrolando de uma forma que surpreenderia até o próprio Bertrand.

Se “o preço cai para o custo marginal” é a lei, então o grátis não é apenas uma opção, mas o inevitável ponto de chegada. Essa é a força da gravidade econômica, a qual só poderá ser combatida por tempo limitado. Nossa!

Mas espere. O software não é outro mercado com custo marginal perto de zero? E a Microsoft não cobra centenas de dólares pelo Office e pelo Windows? Sim e sim. Então como isso se adapta à teoria?

A resposta está naquela parte sobre “mercado competitivo”. A Microsoft criou um produto que se beneficiou imensamente dos efeitos de rede: quanto mais pessoas utilizam um produto, mais as outras pessoas se sentem impelidas a fazer o mesmo. No caso de um sistema operacional como o Windows, isso ocorre porque o sistema operacional mais popular atrairá a maioria dos desenvolvedores de software para criar a maioria dos programas que rodam nesse sistema. No caso do Office, isso ocorre porque você quer trocar arquivos com outras pessoas, de modo que tende a usar o mesmo programa que elas.

Esses dois exemplos tendem a produzir mercados do tipo “o vencedor leva tudo”, que é como a Microsoft criou um monopólio. E quando você tem um monopólio, pode cobrar “aluguéis de monopólio”, o que equivale a dizer $300 por discos plásticos em uma caixa com a palavra “Office”, quando o custo efetivo para produzir esses discos é de apenas $1 ou $2.

O outro aspecto do modelo de concorrência de Bertrand é que ele se aplica, em grande parte, a produtos similares. Mas se um produto for muito superior ao outro para seus propósitos, o principal determinante do preço não é o custo marginal, mas a “utilidade marginal” – o quanto o produto vale para você. No ambiente on-line, isso pode refletir as características do serviço ou o quanto você passou a depender dele.

Por exemplo, há muitas redes de relacionamentos sociais por aí, mas, se todas as suas conexões sociais estiverem no Facebook, você pode ser avesso a deixá-lo, mesmo que ele comece a cobrar. Sua utilidade marginal é tão maior para você do que as outras redes sociais que você estará disposto a pagar por ele. Mas para os recém-chegados que ainda não construíram sua rede de conexões em um site, a utilidade marginal das populares redes de relacionamentos sociais pode parecer bastante similar. Se precisarem escolher entre duas redes sociais populares – digamos, um Facebook pago e um MySpace grátis –, os recém-chegados tenderiam a escolher a opção grátis. E é por isso que o Facebook não cobra: seus membros existentes podem pagar, mas o site começaria a perder parte dos novos membros para concorrentes grátis.