Free: grátis. O futuro dos preços
6. Custo zero = valor zero
O mundo da mídia tem tentado descobrir como equilibrar os interesses do consumidor e do anunciante durante décadas, variando de orientações dos setores às “Muralhas da China” de mídias que separam as funções editoriais das funções de negócios. Esse não é um problema novo, e vimos que é possível ter independência editorial, mesmo quando os anunciantes pagam por tudo.
Vale notar, contudo, que a privacidade é um alvo em movimento. Na Europa, um amplo sistema legal protege as informações pessoais, mas, nos Estados Unidos, é mais uma questão de códigos de conduta de empresas individuais e pressão dos consumidores. Mas as expectativas de privacidade que tínhamos 20 anos atrás não são as mesmas da geração que está crescendo on-line atualmente. Depois de ter mostrado ao mundo inteiro fotos suas totalmente bêbado na festa de sua turma de faculdade e descrito os altos e baixos de seu último namoro, qual é o problema se uma empresa lhe der um desconto em uma linha de roupas se você informar suas preferências?
6. Custo zero = valor zero
Fico triste ao ver que as pessoas sentem que a música deveria ser grátis, que o trabalho que fazemos não é valorizado.
Quando a música vem de graça por meio de amigos que fazem cópias dos CDs, as pessoas não têm noção do trabalho
que dá para fazer um disco.
Sheryl Crow, entrevista à New York Times Magazine
Identificou a falácia? É que a única forma de mensurar o valor é em termos de dinheiro. A Web se baseia, em grande parte, em duas unidades monetárias – atenção (tráfego) e reputação (links) – e ambas se beneficiam enormemente de serviços e conteúdo grátis. E é muito simples converter qualquer uma dessas duas moedas em dinheiro – basta dar uma olhada do balanço patrimonial do Google. Ou veja o exemplo da conferência TED, que cobra milhares de dólares pela entrada enquanto, simultaneamente, transmite todas as palestras on-line (veja o quadro da página 118). Crow, é claro, se beneficia em termos de reputação quando os fãs fazem cópias dos discos para dar aos amigos. Um CD dado de presente é uma recomendação de alguém confiável. Algumas empresas matariam para criar um boca a boca tão autêntico e veloz.
Quando as pessoas copiam CDs (ou, mais provavelmente nos dias de hoje, compartilham eletronicamente as músicas via iTunes ou troca de arquivos), elas não estão dizendo que Crow deixou de dedicar trabalho à criação do álbum. Elas estão essencialmente dizendo que ela não dedicou trabalho àquele ato específico de distribuição – a criação de uma cópia digital. E é verdade. Para ela, o custo marginal dessa transferência é zero, e a compreensão inata que a geração do compartilhamento de arquivos tem da economia digital ajuda a chegar à conclusão de que o pagamento a ela por essa transferência também deveria ser zero.
Crow ganhará dinheiro no final, com os shows, artigos promocionais, licenciamento para comerciais e trilhas sonoras e, sim, a venda de música para pessoas que ainda querem CDs ou preferem comprar música on-line. Mas a celebridade e a credibilidade que ela recebe dos compartilhadores de arquivos que escolhem fazer o download das músicas dela ou os trocadores de CDs que optam por fazer cópias e trocar com os amigos ajudarão – no mínimo, o compartilhamento de arquivos lhe rende moeda de reputação. É impossível quantificar o quanto disso se traduzirá em dinheiro por meio desses outros recursos, mas não é zero. Seria mais do que a quantia de faturamento direto que ela poderia obter se essas pessoas pagassem pela música? Nunca saberemos.