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6. “A Informação Quer Ser Grátis”
“A INFORMAÇÃO QUER SER GRÁTIS”
A história de uma frase que definiu a era digital
EM 1984, o jornalista Steven Levy publicou Hackers: Heroes of the Computer Revolution, que relatava a desgrenhada subcultura que não apenas criou o computador pessoal (e, eventualmente, a Internet), como também a identidade social única que o acompanhou. Ele relacionou sete princípios da “ética dos hackers”:
1. O acesso a computadores – e a qualquer coisa que possa ensinar algo sobre o funcionamento do
mundo – deve ser irrestrito e total.
2. Sempre se submeta ao Imperativo da Mão na Massa!
3. Toda informação deve ser grátis.
4. Não confie nas autoridades – promova a descentralização.
5. Os hackers devem ser julgados por suas ações, não por critérios artificiais como diplomas, idade,
raça ou posição.
6. É possível criar arte e beleza em um computador.
7. Os computadores podem mudar sua vida para melhor.
Acredita-se que o princípio número 3, que remonta de 1959, tenha originalmente sido proposto por Peter Samson, do Tech Model Railroad Club, um clube de ferromodelismo, do MIT. O TMRC foi a comunidade proto-geek definitiva e talvez o grupo de seres humanos mais nerds jamais reunido até os dias de hoje. Sua entrada no Wikipedia explica a importância do clube:
O clube era composto de dois grupos: os que estavam interessados em modelismo e paisagismo e
aqueles que constituíam o Signals and Power Subcommittee – subcomitê de sinalização e energia – e
que criavam os circuitos que faziam os trens funcionarem. No último grupo, estavam as pessoas que
popularizaram o termo “hacker”, entre muitos outros termos, e que acabaram migrando para
computadores e programação. Eles foram inicialmente atraídos ao IBM 704, o mainframe de vários
milhões de dólares que funcionava no Building 26, mas o acesso ao mainframe e o tempo passado
com ele eram restritos a pessoas mais importantes. O grupo passou realmente a se envolver com os
computadores quando Jack Dennis, um ex-membro, lhes apresentou o TX-0, um computador de
US$3 milhões de propriedade do Lincoln Laboratory e que estava sob um contrato de empréstimo
de longo prazo. Eles costumavam ficar de tocaia no local em que o TX-0 estava instalado até tarde
da noite, esperando que alguém que tivesse direito a usar o computador não aparecesse.
O livro de Levy chamou a atenção de Kevin Kelly, que mais tarde viria a se tornar o editor executivo da revista Wired (e continua sendo nosso “Rebelde Sênior” e conselheiro), e Stewart Brand, Merry
Prankster1 ocasional e criador do Whole Earth Catalog, talvez a publicação mais influente gerada pela contracultura, que era editada por Kelly. Em 1983, Brand recebeu um adiantamento de $1,3 milhão para criar um Whole Earth Software Catalog. A ideia era fazer do livro o inspirador da ascendente cultura dos PCs, da mesma forma que o Whole Earth Catalog fez para a cultura do movimento ruralista “de volta à terra” no final da década de 1960 e começo da década de 1970 nos Estados Unidos.
Quando descobriram o livro de Levy, Brand e Kelly decidiram organizar uma conferência para reunir as três gerações de hackers. Como, posteriormente, Kelly contou a Fred Turner, o professor de Comunicação de Stanford, ele e Brand queriam ver se o hacking era “precursor de uma cultura mais ampla” e esperavam “testemunhar ou incentivar o grupo a articular a ética dos hackers”.
Em novembro de 1984, cerca de 150 hackers viajaram para o Fort Cronkhite, aninhado na Marin Headlands, ao norte da Golden Gate. Participando da conferência que seria realizada ao longo de um fim de semana, estavam Steve Wozniak, da Apple, Ted Nelson (um dos inventores do hipertexto), Richard Stallman (o cientista de computação do MIT, que mais tarde fundou a Free Software Foundation) e John Draper, também conhecido como “Captain Crunch”, porque descobriu que podia fazer ligações telefônicas de graça usando um apito de brinquedo que vinha (grátis!) em uma caixa de cereais. Além de comida e hospedagem, Brand e Kelly disponibilizaram aos hackers computadores e equipamento audiovisual.
Dois temas surgiam repetidamente nas conversas: como caracterizar a “ética dos hackers” e que tipos de negócio estavam surgindo na indústria de computadores. Foi quando Brand reelaborou a regra número 3 de uma forma que viria a definir a era digital que despontava na época. Ele disse:
Por um lado, a informação quer ser cara, por ser tão valiosa. A informação certa no lugar certo
muda a sua vida. Por outro lado, a informação quer ser grátis, porque o custo de acessá-la está
sempre caindo. Então você tem essas duas forças lutando uma com a outra.
Essa é provavelmente a frase mais importante – e incompreendida – da economia da Internet.
O que é especialmente importante nessa citação é que ela traça a relação econômica entre tecnologia e ideias. A Lei de Moore se refere ao aspecto físico da computação. Mas a informação é a commodity sem peso sobre a qual os equipamentos atuam. A física determinava que o transistor um dia seria praticamente de graça. Mas o valor dos bits que o transistor processava – a informação –, bem…, isso poderia ter ido para cima ou para baixo.
Talvez a informação se tornasse mais barata, porque os bits poderiam ser reproduzidos com muita facilidade. Ou poderia encarecer, porque o processamento perfeito dos computadores produziria informação de melhor qualidade. Na verdade, foi exatamente essa questão que levou ao comentário de Brand, que inclui os dois extremos.