Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 21 de 98

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Um Monte de Milho

Quando eu era criança, a fome era um dos principais problemas da pobreza na América. Hoje em dia, é a obesidade. Nas últimas quatro décadas, houve uma mudança radical no mundo da agricultura – melhoramos muito no cultivo dos alimentos. Uma evolução impulsionada pela tecnologia transformou uma commodity escassa em abundante. E nessa história, encontramos indicativos do que pode acontecer quando qualquer importante recurso passa da escassez à abundância.

Uma plantação só demanda cinco principais insumos: sol, ar, água, terra (nutrientes) e mão de obra. O sol e o ar são de graça e, se a plantação for cultivada em uma região em que chove bastante, a água também pode ser grátis. Os outros insumos – principalmente mão de obra, terra e fertilizantes – são, em grande parte, pagos e representam a maior parcela do custo das plantações.

No século XIX, a Revolução Industrial mecanizou a agricultura, reduzindo muito o custo da mão de obra e aumentando as safras. Mas foi a “Revolução Verde” da década de 1960 que realmente transformou a economia dos alimentos, tornando a agricultura tão eficiente que menos pessoas cuidavam do cultivo. O segredo dessa segunda revolução foi a química.

Na maior parte da história humana, o esterco definia quanto alimento tínhamos. A produção agrícola era limitada à disponibilidade de fertilizante, que, em grande parte, era proveniente de dejetos animais (e algumas vezes humanos). Se uma fazenda quisesse manter tanto criação de animais quanto plantações em um ciclo sinérgico de nutrientes, seria necessário dividir a terra entre eles. Mas no fim do século XIX, os cientistas começaram a desvendar o que havia no adubo que as plantas precisavam: nitrogênio, fósforo e potássio.

No início do século XX, alguns químicos começaram a trabalhar para produzir sinteticamente esses elementos. A grande inovação veio quando Fritz Haber, que trabalhava para a BASF, descobriu como extrair o nitrogênio do ar na forma de amônia combinando ar com gás natural em condições de alta pressão e temperatura. Comercializado por Carl Bosch em 1910, o fertilizante barato à base de nitrogênio – além de sua súbita disponibilidade – recebeu os créditos por evitar a tão prevista “catástrofe malthusiana”, ou crise populacional. Hoje em dia, a produção de amônia constitui cerca de 5% do consumo global de gás natural, que representa aproximadamente 2% da produção mundial de energia.

O processo Haber-Bosch eliminou a dependência que os fazendeiros tinham de adubo. Com os pesticidas e herbicidas químicos, essa inovação criou a Revolução Verde, que aumentou a capacidade agrícola quase 100 vezes, permitindo que o planeta alimentasse uma população crescente, especialmente uma nova classe média que, desejando subir na cadeia alimentar, cada vez mais escolhia carne, cuja produção demandava muitos recursos, em vez de apenas grãos.

Os efeitos disso foram dramáticos. O custo dos alimentos caiu de um terço da renda média de uma família americana em 1955 para menos de 15% hoje.

 

UM MONTE DE MILHO

Um aspecto da abundância agrícola que nos afeta todos os dias é a Economia do Milho. Esse extraordinário vegetal, desenvolvido pelo homem há milênios para produzir sementes cada vez maiores e cheias de amido, gera mais alimento por acre do que qualquer outra planta na face da Terra.

As economias do milho são naturalmente abundantes, pelo menos no que se refere ao alimento. Os historiadores muitas vezes analisam as grandes civilizações do mundo antigo através das lentes de três grãos: arroz, trigo e milho. O arroz é rico em proteínas, mas de cultivo extremamente difícil. O trigo é fácil de cultivar, mas pobre em proteínas. Só o milho é, ao mesmo tempo, fácil de cultivar e cheio de proteínas.

O que os historiadores observaram é que a razão entre proteína e mão de obra desses grãos influenciou o desenvolvimento das civilizações que se baseavam neles. Quanto mais alta era essa razão, maior era o “excedente social” das pessoas que se alimentavam desses grãos, já que elas podiam alimentar-se com menos trabalho. O efeito disso nem sempre era positivo. As sociedades baseadas em arroz e trigo tendiam a ser agrárias, culturas voltadas para dentro, supostamente porque o processo de cultivar as plantações demandava tanta energia. Mas as culturas do milho – os maias e os astecas – tinham tempo e energia sobrando, os quais, em geral, usavam para atacar os vizinhos. De acordo com essa análise, a abundância do milho fez dos astecas uma civilização guerreira.

Hoje em dia, o trigo não é só utilizado como alimento. Entre o fertilizante sintético e as técnicas de desenvolvimento que fazem do milho o conversor mais eficiente de luz do sol e água em amido que o mundo já viu, atualmente estamos nadando em uma colheita dourada e abundante – muito mais do que conseguimos comer. Então, o milho se tornou matéria-prima industrial para produtos de todos os tipos, de tinta a embalagens. O milho barato assumiu o lugar de muitos outros alimentos em nossa dieta e converteu animais que comem grama, como bois, em máquinas de processamento de milho.

Como Michael Pollan observa em O dilema do onívoro, um nugget de frango “é um monte de milho: todo frango que ele contém consiste em milho [seu alimento], além dos outros ingredientes dos nuggets, incluindo amido de milho modificado, que serve como liga para a massa, a farinha de milho da massa e o óleo de milho no qual ele é frito. Muito menos evidente, os fermentos e a lecitina, mono-, di- e triglicerídios, a apetitosa cor dourada e até o ácido cítrico que mantém o nugget fresco, tudo isso pode ser proveniente do milho”.

Hoje em dia, um quarto de todos os produtos encontrados em um supermercado qualquer contém milho, de acordo com Pollan. E isso se aplica também aos itens não alimentares! De creme dental e cosméticos a fraldas descartáveis e detergentes, tudo contém milho, inclusive as caixas de papelão nas quais tudo isso é embalado. Até o próprio supermercado é construído com base no milho, incluindo prateleiras de fibra, compensado, linóleo e colas.

O milho é tão abundante que agora o utilizamos para fabricar combustível para nossos carros, na forma de etanol, o que finalmente pôs à prova seus limites de abundância. Depois de décadas de quedas de preço, o milho nos últimos anos começou a ficar mais caro, acompanhando o preço do petróleo. Mas a inovação abomina uma commodity cara, de modo que o preço em alta acelerou a busca de uma forma de extrair etanol de vegetais ricos em celulose, que podem ser cultivados onde o milho não pode. Uma vez que se encontre a enzima mágica para consumir a celulose, o milho voltará a ser barato e, com ele, alimentos de todos os tipos.