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A Economia dos Presentes
Em 1983, o sociólogo Lewis Hyde escreveu The Gift, um dos primeiros livros que tentavam explicar a mecânica de uma das mais antigas tradições sociais: dar coisas às pessoas sem cobrar nada. Ele se concentrou, em grande parte, na Oceania e em outras sociedades “nativas” que não haviam adotado economias monetárias formais. Em vez disso, o prestígio era determinado por meio de troca de presentes e rituais – moedas culturais que substituíam o dinheiro.
Muitas dessas sociedades viviam entre abundantes recursos naturais – a comida realmente dava em árvores –, de modo que suas necessidades físicas básicas eram proporcionadas pela natureza. Por causa desse fato, eles puderam subir na pirâmide de Maslow e se concentrar nas necessidades sociais. Os presentes exerciam o papel de cimento social: no caso de algumas tribos de índios americanos, a regra implícita de um presente era que ele trazia consigo a obrigação de retribuir. Os presentes também não devem ser mantidos, mas repassados aos outros (“o presente deve estar sempre em movimento”). Hoje
em dia, pensamos na expressão “Indian giver”1 como pejorativa, mas ela tem origem no que Hyde observou: nessas culturas, um presente nunca pode ser de ninguém. Em vez disso, é um símbolo de boa vontade e só funciona caso se mantenha em circulação.
Hyde concentrou-se, em grande parte, nas economias de presentes físicos – objetos trocados (como vemos hoje com o Freecycle – veja o quadro da página 190). Mas sempre houve uma economia muito mais ampla de presentes na forma de ações, coisas que fazemos uns aos outros sem cobrar nada em troca. Como no caso das economias da atenção e da reputação, essa efêmera economia dos presentes logo passou a se tornar explícita e mensurável à medida que passava para o ambiente on-line.
No negócio da mídia tradicional, no qual eu trabalho, as pessoas são pagas para escrever. Elas podem cobrar, no mínimo, US$1 por palavra. Excelentes escritores podem cobrar US$3 ou mais por palavra. Se eu estivesse escrevendo essa frase para uma revista tradicional sofisticada (e pudesse cobrar o máximo), eu teria acabado de ganhar $30. Mas alguma coisa mudou. De acordo com a última contagem, existiam 12 milhões de blogs ativos, pessoas ou grupos de pessoas escrevendo pelo menos uma vez por semana, gerando bilhões de palavras. Apenas alguns poucos milhares desses escritores são pagos para fazer isso.
Você pode ver esse fenômeno por toda parte, de analistas amadores de produtos no Amazon a entusiastas de filmes que fizeram do IMDB o compêndio mais abrangente do mundo de informações sobre filmes e profissionais do cinema. Ou nas mensagens informais em grupos de suporte de inúmeros fóruns de discussão e também em projetos que levaram semanas ou meses de trabalho, como guias de videogame criados por jogadores e catálogos de tudo (existem muitas pessoas por aí que adoram se tornar a maior especialista do mundo em alguma coisa e divulgar as informações a todos).
Isso não é novidade alguma – as pessoas sempre criaram e contribuíram de graça. Não costumávamos chamar isso de “trabalho” porque as pessoas não eram pagas, mas sempre que você dá um conselho de graça a alguém ou se oferece para fazer alguma coisa, está fazendo algo que, em um contexto diferente, poderia ser o trabalho de alguém. Agora os profissionais e amadores se veem subitamente no mesmo mercado da atenção, e esses mundos paralelos concorrem entre si. E há muito mais amadores do que profissionais.
O que motiva os amadores, se não o dinheiro? Muitas pessoas presumem que a economia dos presentes é motivada, em grande parte, pela generosidade, mas, como Hyde observou nas civilizações que estudou, a motivação não é tão altruísta assim. Adam Smith estava certo: o interesse próprio esclarecido é a maior força da humanidade. As pessoas fazem coisas de graça basicamente por suas próprias razões: para se divertir, porque têm algo a dizer, porque querem que as pessoas prestem atenção, porque querem transformar suas opiniões em dinheiro e inúmeras outras razões pessoais.
Em 2007, Andy Oram, um editor da O’Reilly Media, observou a incrível variedade da documentação gerada por usuários – manuais de instrução para software, hardware e jogos que vão além do que os próprios criadores originalmente elaboraram – e se perguntou o que motivava as pessoas a fazerem isso. Ele conduziu um levantamento durante um ano e tabulou os resultados. A principal motivação era a “comunidade” – as pessoas se sentiam parte de uma comunidade e queriam contribuir para sua vitalidade. A segunda era “desenvolvimento pessoal”, que diz respeito ao nível mais alto da pirâmide de Maslow, a realização pessoal. Em terceiro lugar, vinha a “ajuda mútua”, que sugere que muitos desses colaboradores são o que os sociólogos chamam de especialistas – pessoas com conhecimento e que gostam de compartilhá-lo. (É interessante notar que a reputação obteve uma classificação relativamente baixa nas motivações do levantamento de Oram.)
E como as pessoas arranjam tempo? Deixando de fazer algumas outras coisas – abandonando coisas que não proporcionam as mesmas recompensas sociais e emocionais. Imagine se pudéssemos explorar só uma fração do potencial humano perdido assistindo à televisão. (Na verdade, não há necessidade de imaginar isso: análises de tendências sugerem que assistir à televisão já atingiu seu auge e que estamos cada vez mais escolhendo telas que nos permitem produzir e consumir.)
Em um mundo no qual comida, abrigo e as outras necessidades de subsistência de Maslow são satisfeitas sem precisarmos trabalhar na lavoura do amanhecer ao pôr do sol, vemo-nos com “ciclos ociosos” ou o que os sociólogos chamam de “excedentes cognitivos” – energia e conhecimento não plenamente explorados por nossos empregos. Ao mesmo tempo, temos necessidades emocionais e intelectuais que também não são plenamente satisfeitas no trabalho. O que nossa “mão de obra gratuita” em uma área que valorizamos nos proporciona é respeito, atenção, expressão e um público.
Em resumo, fazer coisas que gostamos sem sermos pagos muitas vezes nos traz mais alegria do que o trabalho que realizamos por um salário. Você ainda precisa comer, mas, como Maslow demonstrou, a vida é mais do que isso. A oportunidade de contribuir de uma forma que seja ao mesmo tempo criativa e valorizada é exatamente o tipo de realização que Maslow colocou acima de todas as outras aspirações e o que muitos empregos tão raramente proporcionam. Não é de se surpreender que a Web tenha explodido, impulsionada pelo trabalho voluntário – as pessoas ficam felizes por serem criativas, por contribuírem, por causarem impacto e por serem reconhecidas como especialistas em algo. O potencial de uma economia de produção não monetária desse tipo se faz presente em nossa sociedade há séculos, só esperando pelo surgimento de ferramentas e sistemas sociais para ser totalmente concretizado. A Web proporcionou essas ferramentas e, de repente, surgiu um mercado de trocas grátis.