Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 92 de 98

Páginas do PDF

Free: grátis. O futuro dos preços

Conclusão

 

O Grátis em uma época de crise econômica

 

DEPOIS DO CRASH DO MERCADO DE AÇÕES EM 2001, os modelos de negócios da economia das pontocom foram totalmente expostos. Como fomos tolos em acreditar que “monetizar olhos” constituía um bom fundamento para um negócio! O que nós, os investidores, estávamos pensando quando enchemos nosso portfolio de ações com empresas que vendiam ração de cachorro on-line? “Amazon.Bomb”, zombavam as manchetes. Nós abaixamos a cabeça com vergonha de ter acreditado em uma fantasiosa “nova economia”.

Alguns anos depois, quando os mercados se recuperaram e olhamos para trás, descobrimos, surpresos, que era praticamente impossível ver o efeito do crash sobre o crescimento da Internet. Ela continuou se espalhando, exatamente como antes, quase sem hesitação, enquanto os mercados públicos caíam ao chão. A “revolução digital” não foi uma miragem, ou pior, uma farsa. O número de pessoas entrando no ambiente on-line já subiu ao mesmo índice, e o mesmo se aplica ao tráfego e praticamente a todas as outras medidas de impacto.

Aquela foi uma bolha do mercado financeiro, não uma bolha da tecnologia. A Web era tão importante quanto as previsões dos analistas mais deslumbrados – só que levou mais tempo para chegar lá do que os profissionais do mercado de ações presumiram.

Agora os mercados entraram em crise novamente. Será que o Grátis será mais como o tráfego na Web e crescerá mesmo assim ou mais como a ração de cachorro on-line?

Do ponto de vista do consumidor, o grátis é muito mais atrativo em uma economia em queda. Afinal, quando você não tem dinheiro, $0,00 é um preço excelente. Espere que a transição para o software livre (que é grátis) e ferramentas de produtividade baseadas na Web como o Google Docs (também grátis) fique mais rápida. Hoje em dia, os computadores mais baratos e na moda são os “netbooks”, que chegam a custar apenas $250 e vêm com uma versão grátis do Linux ou uma versão antiga e superbarata do Windows. As pessoas que os compram não instalam o Office nem pagam à Microsoft centenas de dólares pelo privilégio. Em vez disso, elas usam equivalentes on-line, como o nome netbook sugere, que tendem a ser grátis.

Esses mesmos consumidores estão poupando dinheiro e jogando jogos on-line grátis, ouvindo música grátis no Pandora, cancelando a TV a cabo e assistindo a vídeos grátis no Hulu e enchendo as linhas telefônicas de teias de aranha enquanto usam o Skype. É o paraíso de consumo: a Web se tornou a maior loja da história e tudo está sendo vendido com um desconto de 100%.

E o que dizer daquelas empresas que estão tentando abrir um negócio na Web? Nos velhos tempos (o que pode significar “até setembro de 2008”), o modelo era bastante simples: (1) Ter uma boa ideia; (2) Levantar dinheiro para levá-la ao mercado, de preferência de graça, para atingir o maior público possível; (3) Se a ideia for bem aceita, levantar dinheiro para aumentar a escala; (4) Repetir os passos anteriores até ser comprado por uma empresa maior.

Hoje em dia, os passos 2 a 4 não estão mais disponíveis. Dessa forma, as start-ups na Web estão sendo forçadas a fazer o impensável: lançar um modelo de negócios que entre com dinheiro real enquanto elas ainda são jovens.

Isso, é claro, não é novidade alguma no mundo dos negócios. Mas é um pouco chocante para o mundo da Web, em que a atenção e a reputação são as moedas de maior demanda, com a expectativa de que uma quantidade suficiente de uma delas venha a se transformar um dia, de alguma forma, em dinheiro.

O modelo de negócios padrão para as empresas da Web que, na verdade, não têm um modelo de negócios é a propaganda. Um serviço popular terá muitos usuários e alguns anúncios do lado para pagar as contas. Dois problemas surgiram com esse modelo: o preço dos anúncios on-line e os índices de cliques. O Facebook é um serviço incrivelmente popular, mas também uma plataforma de propaganda incrivelmente ineficaz. Mesmo que você consiga descobrir o anúncio certo para exibir ao lado das fotos da festa de uma garota adolescente, ela e os amigos provavelmente não clicariam nele. Não é de se estranhar que as aplicações do Facebook recebam menos de $1 por mil visualizações (em comparação com cerca de $20 em sites de grandes mídias).

O Google construiu uma ferramenta econômica invejável para seus anúncios direcionados de texto, mas os sites nos quais eles são exibidos raramente geram muito dinheiro. Colocar anúncios de AdSense do Google na lateral de seu blog, por mais popular que ele possa ser, não vai lhe render nem um salário mínimo pelo tempo que você passar escrevendo o blog. Em um bom mês, os anúncios podem cobrir o custo da hospedagem. Eu falo por experiência própria.

E o que dizer do truque mais antigo do mundo: cobrar das pessoas por seus produtos e serviços? É aqui que a verdadeira inovação vai florescer em uma economia em baixa. Agora é a hora de os empreendedores inovarem, não somente com novos produtos, mas também com novos modelos de negócios.

Veja o exemplo de Tapulous, o criador do Tap Tap Revenge, um popular programa de jogo musical para o iPhone. Como nos jogos Guitar Hero ou Rock Band, as notas vão caindo pela tela e você precisa tocá-las na batida da música. Milhões de pessoas testaram a versão grátis e uma boa parcela se mostrou disposta a pagar quando Tapulous ofereceu versões pagas para músicas de bandas específicas, como Weezer e Nine Inch Nails, entre outras. (O Wall Street Journal está em busca de uma estratégia para misturar conteúdo grátis e pago em seu site.)

No outro extremo do espectro dos negócios, temos a Microsoft, que agora precisa concorrer com processadores de textos e aplicativos de planilhas eletrônicas grátis de concorrentes on-line como o Google. Em vez de reclamar de concorrência injusta (o que seria irônico), a Microsoft criou versões na Web de seus softwares corporativos e as ofereceu gratuitamente a empresas pequenas e jovens. Se sua empresa tiver menos de três anos e faturamento inferior a $1 milhão, você pode usar os softwares da Microsoft gratuitamente pelo programa BizSpark. Quando essas empresas crescerem, a aposta da Microsoft é que elas continuarão utilizando o software como clientes pagantes. Enquanto isso, o programa não custa quase nada à Microsoft.

Mas extrair um modelo de negócios do Grátis nem sempre é fácil, especialmente quando seus usuários passaram a esperar gratuidade. Veja o exemplo do Twitter, o serviço incrivelmente popular de mensagens de texto limitadas a 140 caracteres (e grátis, é claro), com o qual as pessoas atualizam o mundo sobre o que estão fazendo, em fragmentos de haicai de cada vez. Depois de assumir o controle do mundo, ou pelos menos do mundo dos geeks, o Twitter agora se vê precisando ganhar dinheiro suficiente para cobrir suas contas de Internet. No ano passado, a empresa contratou um guru para tentar encontrar um modelo de negócios e anunciou que pretendia revelar sua estratégia em 2009. Especulações sobre qual será essa nova estratégia variam da cobrança em relação às empresas para ter seus “tweets” recomendados aos consumidores (como adicionar o Burger King como seu amigo no Facebook) à certificação de identidade para evitar personificação. E o guru da administração nem vai precisar queimar muitos neurônios.

Enquanto isso, o YouTube ainda está com dificuldades para traduzir sua popularidade em faturamento, e o Facebook está vendendo anúncios por meros centavos depois que as tentativas de cobrar por propaganda intrusiva levaram a reações negativas dos usuários. E o site de compartilhamento de notícias, o Digg, apesar dos milhões de usuários, ainda não ganha nem um centavo sequer. Um ano atrás, isso não importava muito: o modelo de negócios era “desenvolver-se para uma saída lucrativa, de preferência em dinheiro”. Mas agora as portas de saída estão fechadas e o fluxo de caixa é o rei.

Será que isso significa que o Grátis vai recuar em uma economia em baixa? Provavelmente não. Os argumentos psicológicos e econômicos que o sustentam continuam tão bons como sempre – o custo marginal de qualquer coisa digital cai 50% a cada ano, o que torna a precificação uma corrida na direção do zero, e o “Grátis” tem muito mais poder sobre a psique do consumidor do que nunca. Mas isso significa que o Grátis não basta. Ele também precisa da contraparte do Pago. Da mesma forma como os aparelhos de barbear grátis de King Gillette só faziam sentido acompanhados de lâminas caras, os empreendedores da Web precisam inventar não somente produtos que as pessoas adorem, como também produtos pelos quais elas pagarão. O Grátis pode ser o melhor preço, mas não pode ser o único.