Free: grátis. O futuro dos preços
O Não Problema do Carona
Então, o Grátis não é uma novidade na economia. Na verdade, ele é muitas vezes incompreendido. Um dos princípios mais famosos que ele contesta é o chamado “problema do carona”.
O NÃO PROBLEMA DO CARONA
Russell Roberts, um economista da George Mason, tem um popular podcast chamado EconTalk (que é excelente). Em um programa de 2008, ele observou o seguinte:
Uma das coisas que me fascinam [no Wikipedia] é que acho que, se você perguntasse a um
economista em 1950, 1960, 1970, 1980, 1990 ou até 2000 se “o Wikipedia funcionaria”, a maioria
responderia que não. Eles diriam: “Bem, não tem como funcionar, porque você ganha muito pouca
reputação com isso. Não há lucro. Todo mundo vai andar de carona. As pessoas vão adorar ler o
Wikipedia se ele chegar a existir, mas ninguém vai criá-lo porque se trata de um problema do
carona”. E esses sujeitos estavam errados. Eles negligenciaram o puro prazer que supera parte desse
problema do carona.
O problema do carona é o lado negro do almoço grátis. Como o “viciado no almoço grátis” que se demora no salão, os caronas são aqueles que consomem mais do que sua parcela justa de um recurso ou contribuem com menos do que uma parcela justa dos custos de produção. Mas como “justo” é totalmente subjetivo, isso só é considerado um problema na economia quando leva a colapsos no mercado. Então, quando alguns estudantes universitários famintos esvaziam o bufê de almoço do tipo “tudo que você conseguir comer”, levando a administração a retirar totalmente o bufê, isso seria um exemplo dos caronas que provocam distúrbios.
Mas como observou Timothy Lee, cientista da computação e acadêmico do Cato Institute, a interpretação que o século XX faz desse problema na verdade não funciona mais, por duas razões. Para começar, ela tem como premissa que o custo do recurso consumido é alto o suficiente para fazer diferença ou, dito de outra forma, que esses custos devem ser compensados. Isso pode aplicar-se ao bufê do almoço, mas não se aplica a coisas que as pessoas ficam felizes em fazer de graça na esperança de ter um público, o que descreve a maior parte do conteúdo on-line. Ler o que elas escreveram é um pagamento bom o suficiente.
E em segundo lugar, a interpretação julga extremamente mal o efeito da escala na Internet. Como vimos acima, se você for o único voluntário na associação de pais e mestres, pode, mais cedo ou mais tarde, acusar os outros pais de “pegar carona” em seu trabalho sem contribuir. Você pode ficar irritado o suficiente para desistir. Nesse caso, talvez 10% ou 20% dos pais terão de contribuir para evitar o risco de todo o sistema entrar em colapso.
Mas no ambiente on-line, em que os números são muito maiores, a maioria das comunidades de voluntários prospera quando apenas 1% dos participantes contribui. Longe de ser um problema, um grande número de consumidores passivos constitui a recompensa para os poucos que contribuem – eles são chamados de público.
Nas palavras de Lee: “Esse grande público atua como um poderoso motivador para a contribuição continuada ao site. As pessoas gostam de contribuir para uma enciclopédia com um grande público leitor; com efeito, o enorme número de ‘caronas’ – também conhecidos como usuários – é uma das maiores seduções para ser um editor do Wikipedia.”
Em outras palavras, você não precisa de um diploma de doutorado para entender por que o Grátis funciona tão bem on-line. Você só precisa ignorar mais ou menos os primeiros 10 capítulos de seu livro-texto de Economia.
O restante desta última seção analisará as várias facetas do que é diferente no Grátis atualmente. Começaremos com as tentativas de quantificar mercados não monetários como a atenção e a reputação e algumas vezes de convertê-los em dinheiro. Depois examinaremos a paradoxal palavra “desperdício”, que fomos treinados para evitar mas na verdade deveríamos buscar. (Quando as coisas escassas se tornam abundantes, os mercados as tratam de forma diferente – explorando a commodity barata para criar outra coisa de maior valor.) Depois, visitaremos a China e o Brasil, modernos campos de testes do Grátis. E faremos uma rápida parada na ficção, campo no qual a abundância como um recurso do enredo tem forçado os autores a pensar nas consequências. Por fim, discutiremos as várias objeções ao Grátis, desde as pessoas que questionam seu poder quanto aquelas que o temem.