Free: grátis. O futuro dos preços
8. Desmonetização
DESMONETIZAÇÃO
O Google e o nascimento de um modelo econômico do século XXI
AGORA É UMA ATRAÇÃO TURÍSTICA: 1600 Amphitheatre Parkway, Mountain View, Califórnia – a Fortaleza do Grátis. É o Googleplex, a matriz da maior empresa da história desenvolvida em torno do conceito de distribuir coisas de graça. Do lado de fora, engenheiros em surpreendente boa forma física jogam vôlei de praia e andam em mountain bikes. Do lado de dentro, eles voltam a colocar as camisas e planejam novas formas de utilizar as extraordinárias vantagens do custo marginal de seus enormes bancos de dados para penetrar em novas indústrias e expandir o alcance da gigante das buscas.
Hoje em dia, o Google oferece quase 100 produtos, de software de edição de fotos a aplicativos de processamento de textos e planilhas eletrônicas, e quase todos de graça. Realmente grátis, sem truque algum. Isso é feito da forma que qualquer empresa digital moderna deve fazer: dar muitas coisas para ganhar dinheiro com algumas poucas.
O Google ganha tanto dinheiro com a propaganda em alguns produtos essenciais – em sua maioria, resultados de buscas e anúncios que outros sites divulgam em suas páginas, compartilhando o faturamento com o Google – que pode adotar o Grátis em todo os demais. Na verdade, novos serviços começam com perguntas fantasiosas de geeks, como “Seria legal?”, “As pessoas querem isso?”, “Isso faria bom uso de nossa tecnologia?” Eles não começam com a prosaica pergunta: “Isso vai gerar dinheiro?”
Parece loucura? Pode ser para a GM ou a GE, mas, para empresas que atuam no âmbito puramente digital, a abordagem pode fazer muito sentido. Decidir-se a desenvolver um enorme público antes mesmo de ter um modelo de negócios não é tão tolo hoje quanto na era das pontocom, no final da década de 1990, quando você precisava de um caminhão de venture capital e de outro caminhão de servidores da Sun para fazer a mesma coisa. Hoje em dia, qualquer start-up na Web tem acesso compartilhado ao mesmo tipo de enormes parques de servidores que o Google utiliza, o que torna o custo de oferecer serviços on-line incrivelmente baixo. Graças à disponibilidade de “serviços de hospedagem”, como o EC2 da Amazon, que permite que empresas sejam lançadas sem qualquer infraestrutura física, é possível prestar serviços a milhões de usuários usando pouco mais do que um cartão de crédito.
Em consequência, empresas podem começar pequenas e ambiciosas sem assumir enormes riscos financeiros ou saber exatamente como ganharão dinheiro. Paul Graham, o fundador do Y Combinator, uma empresa de venture capital especializada em pequenas start-ups, dá um conselho simples aos candidatos a empreendedores: “Faça algo que as pessoas queiram.” Ele chega a financiar empresas com apenas $5 mil e as incentiva a utilizar ferramentas de código aberto e servidores dedicados e a trabalhar em casa. A maioria utiliza o Grátis para testar se as ideias funcionam e atraem consumidores. Se for o caso, então a próxima pergunta é quanto os consumidores pagariam ou de que outra forma ganhar dinheiro. Anos podem se passar antes de esse dia chegar (e algumas vezes nunca chega), mas como o custo de lançar os serviços é tão baixo, raramente há grandes somas em risco.
Hoje em dia, vemos inúmeras empresas na Web desse tipo, grandes e pequenas. Mas o Google é de longe a maior e, por ter tanto sucesso em ganhar dinheiro em uma parte de seu negócio, o Grátis não é apenas um passo intermediário a caminho de um modelo de negócios, mas sim a essência de sua filosofia de produto.
Para entender como o Google se tornou o porta-bandeira do Grátis, é interessante ver como a empresa evoluiu. A história do Google pode ser resumida em três fases:
1. (1999–2001) Inventar uma forma de realizar buscas que melhoram, e não pioram, à medida que
a Web cresce (diferentemente de todas as ferramentas de busca anteriores).
2. (2001–2003) Adotar uma forma de autosserviço para os anunciantes criarem anúncios que
correspondam a palavras-chave ou conteúdo e fazê-los darem lances uns contra os outros pelas posições de mais visibilidade para esses anúncios.
3. (2003–atual) Criar inúmeros outros serviços e produtos para estender o alcance do Google,
aumentando o apego do consumidor à empresa. Quando fizer sentido, estender a propaganda a esses outros produtos, mas não fazer isso em detrimento da experiência do consumidor.
Isso tem funcionado muito bem. Atualmente, 10 anos após sua fundação, o Google é uma empresa de $20 bilhões, que ganha mais em lucros (mais de $4 bilhões em 2008) do que todas as companhias aéreas e empresas automobilísticas dos Estados Unidos combinadas (tudo bem, isso não quer dizer muito nos dias de hoje!). A empresa não somente foi a pioneira de um modelo de negócios construído em torno do Grátis, como está inventando uma forma totalmente nova de usar a computação, transferindo cada vez mais funções que costumavam rodar em nosso computador para a “nuvem”, isto é, rodando essas funções em centros de dados remotos e acessados on-line por meio de nossos navegadores da Web (e, de preferência, no navegador do próprio Google, o Chrome).
Onde está essa nuvem? Bem, vá a outro endereço (semissecreto) em The Dalles, Oregon, uma área ao longo do Rio Columbia a 130 quilômetros de Portland, e você poderá ver uma parte dela, pelo menos do lado de fora. É o centro de dados do Google – um enorme prédio, do tamanho de uma fábrica, repleto de dezenas de milhares de placas de computador e discos rígidos instalados em gabinetes portáteis em prateleiras, todos conectados entre si com fios de rede que convergem em um grosso emaranhado de cabos de fibra óptica que conectam o prédio à Internet.
Esses centros de dados são a incorporação do tripé da tecnologia – processamento, largura de banda e armazenamento. À medida que o Google abre mais dessas fábricas de informação ao redor do mundo, elas não ficam mais baratas, porém ficam mais potentes. Os computadores de cada novo centro de dados são mais rápidos do que os anteriores e seus discos rígidos comportam mais informações. Em consequência, esses centros de dados precisam de canais mais largos conectando-os ao mundo externo. Some toda essa capacidade e você poderá ver por que cada fábrica de dados construída pelo Google é capaz de fazer o dobro pelo mesmo preço do que uma fábrica construída aproximadamente um ano e meio atrás.
Como resultado, a cada 18 meses, o custo do Google para oferecer uma caixa de entrada do Gmail cai mais ou menos pela metade. No começo, custava apenas alguns centavos, mas, a cada ano, o número de centavos diminui. O mesmo se aplica às orientações do Google Maps, à manchete exibida no Google News e aos vídeos de três minutos no YouTube. O Google continua construindo esses centros de dados ao custo de centenas de milhões de dólares, mas, como o tráfego que cada um deles comporta cresce ainda mais rapidamente do que os gastos com infraestrutura, o custo por byte para a empresa de atender às suas necessidades cai todos os dias.
Estima-se que, hoje em dia, o Google tenha meio milhão de servidores espalhados em mais de 36 centros de dados, em sua maioria localizados em pontos nos quais a eletricidade é barata, perto de usinas hidroelétricas no Noroeste do Pacífico. (Ironicamente, a eletricidade é um dos poucos recursos no Google que não é barato demais para medir; com efeito, agora, a eletricidade consumida por um servidor custa mais ao longo da vida desse servidor do que o próprio servidor. Daí o programa de energia renovável da empresa para ajudar a inventar fontes de energia mais baratas e com utilização menos intensiva de carbono.)