Free: grátis. O futuro dos preços
Vida Após a Morte
É claro que o enredo exige tensão, de modo que nem tudo é um mar de rosas nessas utopias da abundância. Em Down and Out in the Magic Kingdom, de Cory Doctorow, uma estranha tecnologia controlada pela Sociedade Bitchun “tornou obsoleta a profissão médica: Por que se importar com uma cirurgia quando você pode criar um clone, pegar um backup e usar um corpo novo? Algumas pessoas trocavam de corpo só para se livrar de uma gripe”. O resultado, contudo, é que as pessoas ficavam entediadas e apáticas. Um personagem explica: “Os viciados em drogas não sentem falta da sobriedade, porque não se lembram de como tudo era mais nítido, de como a dor fazia a alegria ser mais doce. Não conseguimos nos lembrar de como era trabalhar para ganhar a vida; preocuparmo-nos com a possibilidade de não ter o suficiente, de adoecer ou de sermos atropelados.”
O que se tornou escasso no mundo de Doctorow é a reputação, ou o “whuffie”. Ele serve como uma moeda digital, algo que pode ser dado às pessoas em troca de boas ações e reduzido pelo mau comportamento. Todo mundo sabe quantos whuffies os outros têm, o que serve como uma medida de status. Quando todas as necessidades físicas são satisfeitas, a commodity mais importante passa a ser o capital social.
Em The Diamond Age or, A Young Lady’s Illustrated Primer, de Neal Stephenson, a abundância provém de “compiladores de matéria”, capazes de transformar qualquer coisa em alimento. O único trabalho que resta é projetar novas coisas para os compiladores produzirem, o que não requer muitas pessoas. Dois bilhões de trabalhadores estão ociosos. A história acompanha as tentativas de um homem de inventar uma forma de instruir essas pessoas. Isso ecoa um tema similar explorado por escritores da época da primeira Revolução Industrial: Quando as máquinas fazem todo o trabalho, o que nos motiva?
Em alguns desses livros, o fim da escassez de mão de obra libera a mente, acaba com as guerras por recursos e cria uma civilização de seres espiritualizados e filosóficos. Em outros, o fim da escassez faz a humanidade se tornar indolente, decadente, idiotizada e má. Não precisamos passar muito tempo on-line para encontrar exemplos desses dois mundos.
VIDA APÓS A MORTE
Talvez não exista um exemplo melhor de extremos motivados pela abundância/escassez do que na religião.
O paraíso é a imagem definitiva da abundância: anjos deitados em nuvens macias, tocando harpas e transcendendo as necessidades físicas. Os que morrem na santidade se tornam incorruptíveis, gloriosos e perfeitos. E os defeitos físicos são apagados. Textos islâmicos são mais explícitos em relação aos detalhes: os habitantes terão a mesma idade (32 anos para os homens) e a mesma altura. Eles usarão túnicas, braceletes e perfumes caros e, recostados em poltronas cravejadas de pedras preciosas e ouro, participarão de banquetes requintados, servidos em vasilhames caríssimos por jovens imortais. Os alimentos mencionados incluem bebidas que não embriagam nem instigam a violência.
George Orwell satirizou essa visão do paraíso abundante. Em A revolução dos bichos, os animais de uma fazenda foram informados de que, quando suas vidas miseráveis chegassem ao fim, iriam a um lugar em que “era domingo sete dias por semana, o trevo crescia o ano inteiro e açúcar e feno cresciam em arbustos”.
Mas não precisamos ver muitos quadrinhos do New Yorker para saber que, se levarmos o mito do paraíso da abundância a sério, rapidamente imaginamos como ficaríamos entediados lá. Túnicas, harpas, todo dia como ontem – blérgh. Não é de se surpreender que a abundância na ficção rapidamente leve à perda total do senso de propósito e aos preguiçosos inchados de “WALL-E”. É inevitável que o fim da escassez também signifique o fim da disciplina e da motivação?
Vale a pena examinar uma analogia histórica, as civilizações de Atenas e Esparta, para uma resposta. Sustentadas por enormes populações de escravos, essas duas cidades clássicas viviam em mundos funcionalmente abundantes. Os escravos supriam todas as necessidades corpóreas, de modo similar à Máquina ou à Sociedade Bitchun. Se você tivesse a sorte de nascer na classe certa, não precisaria trabalhar para viver.
Nenhuma dessas sociedades se viu em dificuldades ou se estagnando por falta de propósito. Os atenienses se tornaram artistas e filósofos, tentando buscar um sentido no abstrato, enquanto os espartanos se concentraram na força militar e no heroísmo. Em vez de privar a vida de um propósito, a abundância material criou escassez de sentido. Os atenienses subiram na pirâmide de Maslow, explorando ciência e criatividade. E o que dizer da sede de batalhas dos espartanos? Suponho que Maslow também consideraria isso uma forma de realização pessoal.
A lição que aprendemos com a ficção é que não temos como realmente imaginar a abundância. Nosso cérebro foi programado para a escassez; concentramo-nos naquilo que não temos em quantidade suficiente, como tempo e dinheiro. É isso que nos motiva. Se obtivermos o que procuramos, tendemos rapidamente a desconsiderá-lo e encontrar uma nova escassez para buscar. Somos motivados pelo que não temos, e não pelo que temos.
É por isso que os leitores com menos de 30 anos, quando informados da abundância econômica de custos marginais quase zero na Internet, muitas vezes consideram a afirmação uma obviedade não digna de nota. No antigo paradigma, itens digitais baratos demais para medir contavam como uma profusão quase imaginável. Mas no novo paradigma, mal vale a pena levar isso em consideração. A abundância é sempre a luz sobre o próximo pico, nunca aquele no qual estamos. Economicamente, a abundância é o impulsionador da inovação e do crescimento. Mas quanto ao aspecto psicológico, a escassez é tudo o que realmente entendemos.
Concluirei com um exemplo do despertar da Era Industrial em Shropshire, Inglaterra. Em 1770, as metalúrgicas locais desenvolveram a capacidade de fundir grandes blocos de ferro. Para demonstrar as vantagens desse novo material durável, os donos das fábricas contrataram engenheiros para construir uma ponte totalmente feita de ferro. A Iron Bridge, que cruza o Rio Severn, continua sendo uma atração turística e é notável não somente pelas ambições de seus idealizadores e pela admiração que inspirou, mas também por ter sido construída totalmente com base nos princípios das pontes de madeira.
Cada elemento da estrutura era fundido separadamente e as fixações eram no estilo das pontes de madeira, como encaixes e juntas de encaixe. Parafusos foram utilizados para juntar as armações no topo do arco. Milhares dessas pranchas de metal foram fixadas juntas, como se tivessem sido cortadas de uma floresta de metal. Como resultado, a ponte tinha um design complexo demais e, em alguns anos, a estrutura começou a rachar sob a pressão de 380 toneladas de ferro.
Levou várias décadas antes de as pessoas perceberem que o ferro poderia ser empregado de outra forma. As restrições da madeira em termos de comprimento e resistência radial não eram limitações do ferro. Pontes de metal podiam ter arcos muito mais longos e que podiam ser soldados. As pontes subsequentes, do tamanho da Iron Bridge, pesavam menos da metade da primeira ponte de ferro. As pessoas nem sempre reconhecem a abundância quando a veem.