Free: grátis. O futuro dos preços
O Grátis Digital
BARATO DEMAIS PARA FAZER DIFERENÇA
A lição da Web: quando o preço cai pela metade todo o ano, o zero é
inevitável
EM 1954, no despontar da energia nuclear, Lewis Strauss, que liderava a Comissão de Energia Atômica, colocou-se diante de um grupo de jornalistas científicos em Nova York e previu que um grande futuro estava por vir. Doenças seriam dizimadas e nós descobriríamos o que faz o ser humano envelhecer. As pessoas logo viajariam “sem esforço” sobre o mar e pelo ar em grandes velocidades. A escassez periódica e regional de alimentos se tornaria coisa do passado. E ele também previu que “não é necessário esperar muito para que nossos filhos tenham em suas casas energia elétrica barata demais para ser medida”.
Era uma época de otimismo: o início da era espacial, a medicina moderna estava dizimando antigas doenças, a química estava proporcionando uma “vida melhor” e alimentando o planeta e a Era da Informação despontava no horizonte com infinitas possibilidades. Qualquer coisa que pudesse ser inventada o seria e rapidamente haveria aquisição por parte de alguma empresa, com a venda a uma classe emergente de consumidores abastados.
A otimista visão pós-guerra de que a ciência e a tecnologia seriam capazes de lançar uma próspera era de crescimento sem precedentes se estendia do orgulho nacional à felicidade no lar. O poder da mente humana e um maquinário inteligente prometiam nos livrar dos enfadonhos trabalhos domésticos e acabar com a guerra. A questão não era se um dia viveríamos em colônias espaciais, mas o que vestiríamos lá. Os Jetsons eram uma piada, porém não mais do que os Flintstones; a noção de que um dia teríamos táxis espaciais e mordomos-robôs era tão certa quando o fato de que um dia vivemos em cavernas.
E de fato, o boom da tecnologia e ciência pós-guerra nos colocou em um caminho de crescente produtividade e crescimento econômico em uma velocidade jamais vista. Mas a realidade não era tão cor-de-rosa quanto Strauss previu. A eletricidade não ficou barata a ponto de não compensar ser medida.
Embora os custos do urânio sejam baixos em comparação com o carvão, os custos iniciais de construir os reatores e usinas nucleares se mostraram muito mais altos. A eliminação de dejetos e lixo era e continua sendo um problema sem solução. E uma proposta que já era cara e arriscada se tornou muito mais cara e arriscada depois dos incidentes em Three Mile Island e Chernobyl.
Hoje em dia, a energia nuclear custa quase o mesmo que o carvão, o que significa que ela não alterou
nem um pouco os fatores econômicos da eletricidade. 1
Mas e se Strauss estivesse certo? E se a eletricidade de fato tivesse se tornado praticamente grátis? A resposta é que tudo o que a eletricidade toca – isto é, praticamente tudo – teria sido transformado. Em vez de equilibrar a eletricidade e outras fontes de energia, agora utilizaríamos a eletricidade o máximo possível – nós a desperdiçaríamos, porque ela seria tão barata que não valeria a pena nos preocupar com a eficiência.
Todos os prédios seriam aquecidos eletricamente, sem levar em consideração a taxa de conversão térmica. Todos os carros seriam elétricos. (A eletricidade grátis seria incentivo suficiente para desenvolver uma tecnologia eficiente de bateria para armazená-la.) Enormes usinas de dessalinização transformariam a água do mar em toda a água potável que o mundo poderia desejar, permitindo-nos irrigar grandes plantações no interior ou transformar desertos em regiões férteis.
Como dois dos três principais insumos à agricultura – ar e sol – são gratuitos, e a água também passaria a ser, poderíamos começar a cultivar plantações excedendo em muito nossas necessidades de alimentos, e grande parte disso seria utilizada para a produção de biocombustíveis. Em comparação, os combustíveis fósseis seriam vistos como ridiculamente caros e sujos. Dessa forma, as emissões líquidas de carbono entrariam em queda livre. (As plantas retiram o carbono da atmosfera antes de ele ser liberado novamente na combustão, enquanto o petróleo e o carvão adicionam mais carbono.) A expressão “aquecimento global” poderia jamais ter sido incorporada à língua.
Em resumo, o “barato demais para ser medido” mudaria o mundo.
Improvável? Para a eletricidade, talvez (mas quem sabe no que a energia solar um dia pode resultar?). Mas hoje em dia existem três outras tecnologias que influenciam nossa economia quase tanto quanto a eletricidade: poder de processamento de computadores, armazenamento digital e largura de banda. E todos esses três elementos realmente estão ficando baratos demais para serem medidos.
A velocidade na qual isso está acontecendo é estonteante, mesmo quase meio século depois de Gordon Moore ter identificado, pela primeira vez, a linha de tendência que hoje chamamos de Lei de Moore. E ainda mais espantoso: na verdade, o poder de processamento – o que Moore acompanhou – é o elemento que está melhorando no ritmo mais lento dos três. Os chips semicondutores praticamente dobram o número de transistores que são capazes de manter a cada 18 meses. (É por isso que, pelo mesmo preço, mais ou menos a cada dois anos, você pode comprar um iPod capaz de armazenar o dobro das músicas que o último.) O armazenamento de disco rígido está melhorando ainda mais rapidamente: o número de bytes que podem ser salvos em determinada área de um disco rígido dobra mais ou menos a cada ano, e isso explica por que agora você pode armazenar centenas de horas de vídeo em seu TiVo. No entanto, o mais rápido dos três é a largura de banda: a velocidade com que os dados podem ser transferidos por um cabo de fibra óptica dobra a cada nove meses. É por isso que você nem precisa mais de um TiVo – você pode assistir a toda programação que quiser, quando quiser, com serviços de streaming on-line de vídeo como o Hulu.
Cada uma dessas tecnologias se faz acompanhar por uma conclusão econômica que é, no mínimo, ainda mais poderosa: os custos caem pela metade na mesma velocidade em que a capacidade, a velocidade etc. dobram. Então isso significa que, se o poder de processamento por determinado preço dobra a cada dois anos, uma dada unidade de poder de processamento terá seu preço reduzido em 50% no mesmo período.