Free: grátis. O futuro dos preços
O Custo do Grátis
Mas e se a situação não for tão equilibrada assim? E se a riqueza não for ordenadamente transferida dos poucos aos muitos, permitindo que mil botões de rosas floresçam? E se a riqueza desaparecer ou, ainda pior, levar a ainda menos vencedores do que antes?
É com isso que Schmidt, do Google, se preocupa. A Internet é um excelente exemplo de um mercado dominado pelo que os economistas chamam de “efeitos de rede”. Em mercados assim, em que é fácil para os participantes se comunicarem entre si, tendemos a seguir a liderança dos outros, o que resulta em comportamento de manada. Como pequenas diferenças na participação de mercado podem transformar-se em grandes diferenças, a distância entre a empresa número 1 de qualquer setor e a empresa que ocupa o segundo lugar e as outras tende a ser grande.
Nos mercados tradicionais, se houver três concorrentes, a empresa número 1 terá uma participação de 60%, a número 2, 30% e a número 3, 5%. Mas, em mercados dominados por efeitos de rede, essa proporção pode chegar a 95%, 5% e 0%. Os efeitos de rede tendem a concentrar o poder – o efeito “os ricos ficam mais ricos”.
Apesar de ser o argumento utilizado para justificar a perseguição antitruste à Microsoft na década de 1990, nesse caso Schmidt não está preocupado com resistentes monopólios. No mercado da Web atual, em que as barreiras à entrada são baixas, é fácil surgirem novos concorrentes. (Esse, obviamente, é o argumento que o Google usa para se defender de acusações de ser monopolista.) E também não se trata de escolha limitada: essas mesmas baixas barreiras à entrada garantem a existência de muitos concorrentes e todas as empresas menores, e outros habitantes da Cauda Longa também podem coletivamente compartilhar um grande mercado. Em vez disso, trata-se apenas de uma preocupação referente a ganhar dinheiro: todos podem usar o modelo de negócios do Grátis, mas, em geral, só a empresa número 1 realmente consegue ganhar dinheiro com ele.
Por que o Google se preocuparia se outras empresas podem usar o Grátis para se beneficiar economicamente? Porque eles precisam que essas outras empresas criem informações que eles possam indexar, organizar ou empacotar para criar o próprio negócio. Se o Grátis digital desmonetizar indústrias antes que novos modelos de negócios possam remonetizá-las, todos saem perdendo.
Pense na infeliz situação dos jornais. O sucesso do Craigslist gratuito fez os jornais de grandes cidades encolherem, tirando muitos jornalistas profissionais de circulação. Mas as alternativas “hiperlocais” de baixo custo e geradas pelos usuários não surgiram de forma equilibrada para preencher a lacuna. Talvez um dia isso venha a acontecer, mas ainda não aconteceu. Isso significa que o Google tem menos notícias locais para indexar. Pode haver mais informações locais, mas o Google não pode mais utilizar o fato de elas serem provenientes de uma organização profissional de notícias como um indicador de qualidade. Em vez disso, a empresa precisa determinar sozinha o que é confiável e o que não é, o que constitui um problema maior.
Então, o Google gostaria muito que os jornais se mantivessem no negócio, embora o sucesso de seu modelo de propaganda retire participação de mercado deles, dificultando ainda mais a vida dos jornais. Esse é o paradoxo que preocupa Schmidt. Podemos estar em um momento no qual as consequências negativas de curto prazo da desmonetização estejam sendo sentidas antes dos efeitos positivos de longo prazo. Será que o Grátis, em vez de fazer todos nós ficarmos mais ricos, não está fazendo apenas alguns de nós ficarem super-ricos?
Vindo do chefão bilionário da Fortaleza do Grátis, essa pode parecer uma observação irônica, mas é importante para o Google que os vencedores sejam numerosos, porque esses outros vencedores pagarão pela criação da próxima onda de informações que o Google organizará.
“Tradicionalmente, os mercados são segmentados por preço, abrindo espaço para produtores de alta qualidade, qualidade mediana e baixa qualidade”, Schmidt explica. “O problema com o Grátis é que ele elimina do mercado toda a textura de discriminação de preços. Em vez de uma variedade de produtos em diferentes níveis de preço, o mercado tende a ser do tipo ‘o vencedor leva tudo’.” Ele se preocupa, em resumo, que o Grátis funcione muito bem para ele, e não bem o suficiente para todos os outros.
Dos 400 americanos mais ricos, uma lista que a Forbes cria todos os anos, conto apenas 11 cujas fortunas se basearam em modelos de negócios do Grátis. Quatro deles, incluindo Schmidt, são do Google. Dois são da Yahoo! Outros dois vieram da Broadcast.com, uma das primeiras empresas de vídeo da Web que foi vendida à Yahoo! no auge da bolha das pontocom e cujos fundadores, Mark Cuban e Todd Wagner, subsequentemente fizeram bons investimentos. E depois temos Mark Zuckerberg, do Facebook, e Oprah Winfrey, cujos $2,7 bilhões foram construídos na televisão aberta.
Não incluí todos os magnatas da mídia, de Rupert Murdoch a Barry Diller, porque eles operavam conglomerados diversificados que são uma mistura do Grátis e do Pago. E a lista da Forbes para antes de incluir muitas pessoas que enriqueceram, mas não ficaram riquíssimas com o modelo do Grátis, como os fundadores do MySpace e alguns heróis do software livre, por exemplo, os fundadores do MySQL (vendido à Sun em 2008 por $1 bilhão). Mas o argumento de Schmidt se mantém: se medirmos o sucesso em função da criação de grandes fortunas espalhadas entre mais do que algumas poucas pessoas, o Grátis ainda não se compara ao Pago.
Mas há sinais de que isso está mudando. Para ver como, temos de analisar a natureza dinâmica do negócio Grátis original: a mídia.