Free: grátis. O futuro dos preços
14. Mundo Grátis
MUNDO GRÁTIS
A China e o Brasil são as fronteiras do Grátis. O que podemos
aprender com eles?
ESTOU EM UM enorme salão de banquetes em Guangzhou, China, sentado na primeira fila de um show espetacular. Já vimos acrobacia, uma exibição de kung fu, dançarinas e uma apresentação cômica. Agora chegou a hora da verdadeira estrela, a sensação pop de Taiwan, Jolin Tsai. O público aplaude enquanto ela canta uma de suas músicas mais conhecidas, com o vestido cintilante refletindo as luzes diante de uma enorme tela de vídeo que projeta um close de seu rosto.
Mas eu não estou em um show. Estou em uma reunião comercial com empregados e parceiros da China Mobile. Tivemos um dia inteiro de palestras sobre o negócio das telecomunicações e o costume é arrematar com um extravagante espetáculo. Pela apresentação, Tsai provavelmente recebeu mais do que ganhou com as vendas de seu CD durante o ano todo.
A China é um país no qual a pirataria venceu. Anos de medidas repressivas sem muito entusiasmo sob a pressão diplomática do Ocidente não provocaram qualquer efeito visível sobre os camelôs ou os inúmeros sites que hospedam MP3s para download. Anualmente, realiza-se alguma apreensão oficial de pirataria e alguns dos maiores sites esporadicamente são obrigados a pagar multas, mas nada disso impediu os consumidores chineses de música de encontrar praticamente tudo o que quiserem de graça.
Então, em vez de combater a pirataria, uma nova geração de músicos chineses a está adotando. A pirataria é uma forma de marketing de custo zero, que leva o trabalho desses músicos ao maior público possível. Isso maximiza sua celebridade (pelo menos pela breve duração da fama de qualquer estrela pop na China) e cabe a eles encontrar maneiras de converter essa celebridade em dinheiro.
Xiang Xiang é uma estrela pop chinesa de 21 anos, que ficou famosa com a insolente música “Song of Pig”. Seu último álbum vendeu quase quatro milhões de discos. O problema é que quase todos eram versões pirateadas. Ou melhor, esse é o problema da gravadora dela. Ela não vê problema algum. No que diz respeito a ela, isso representa quatro milhões de fãs que não teria se eles tivessem de pagar o preço cheio pelo álbum e ela aprecia a adulação e o feedback. Ela também gosta do dinheiro que ganha com participações especiais e anúncios de produtos, tudo possibilitado por sua fama baseada na pirataria. E também há o tour de shows, no qual visitará 14 cidades neste verão. Os piratas são os melhores marqueteiros para ela.
Estima-se que a pirataria responda por 95% do consumo de músicas na China, o que forçou as gravadoras a repensarem totalmente o negócio. Como elas não podem ganhar dinheiro vendendo música em discos de plástico, elas a estão vendendo de outras formas. Elas pedem aos artistas que gravem singles para tocar no rádio, em vez de álbuns para os consumidores. Elas atuam agenciando os artistas por uma parcela dos honorários para fazer comerciais e apresentações no rádio. E até os shows são pagos por anunciantes intermediados pelas gravadoras, que colocam o maior número de seus artistas no palco para maximizar o faturamento obtido dos patrocinadores. O maior problema é que os cantores reclamam que os intermináveis tours, que lhes proporcionam a única renda, sobrecarregam suas cordas vocais.
“A China se tornará um modelo para a indústria musical mundial”, prevê Shen Lihui, da Modern Sky, uma das mais inovadoras gravadoras da China. Os CDs da empresa raramente ganham dinheiro porque os populares são logo pirateados. Mas a gravadora tem outras formas de ganhar dinheiro: produzindo vídeo e, agora, cada vez mais, sites. Ela também tem um festival de música de três dias que atrai fãs do país inteiro. As vendas dos ingressos fazem parte do faturamento, mas são os patrocinadores corporativos que trazem grande parte do dinheiro: Motorola, Levi’s, Diesel, entre outras.
Isso não significa dizer que não é possível vender música na China. É possível, contanto que as músicas tenham menos de 20 segundos de duração. O negócio de tons de chamada e ringbacks é enorme: a China Mobile, a maior operadora da área, declarou mais de US$1 bilhão em faturamento pela venda de músicas em 2007. A maior parte ficou nas mãos da China Mobile, é claro, mas mesmo assim, é bastante dinheiro.
Ed Peto, bretão que mora em Pequim, está tentando encontrar outra forma de transformar música em negócio. Sua empresa, a MicroMu, contrata artistas independentes emergentes e convence as marcas a patrocinar toda a operação com uma taxa mensal. Esse modus operandi pode soar estranho a uma gravadora ocidental, mas faz muito sentido para uma empresa que queira divulgar um produto na China e que, na verdade, é o consumidor pagante nessa equação.
A MicroMu grava os artistas da forma mais barata possível, em uma gravação ao vivo em um show patrocinado ou em um estúdio barato ou em uma sala de ensaio. Eles filmam todas essas sessões e produzem vários vídeos. Cada gravação é lançada em um blog no site da MicroMu, que inclui links para download grátis de MP3s individuais, download do disco todo, créditos, ilustrações etc. Depois, a empresa promove eventos ao vivo, incluindo tours em universidades.
Marcas como empresas de jeans e bebidas patrocinam a MicroMu, mas não os artistas individuais (para não macular a credibilidade de “independência” deles). Uma porcentagem do dinheiro do patrocínio é dividida entre os artistas de acordo com o número de downloads realizados no site.
“O momento em que você começa a cobrar pelo acesso à música na China é aquele em que você perde 99% de seu público”, diz Peto. “A música é um luxo para a classe média na China, um gasto frívolo. Nosso modelo combate esse fato. Nós utilizamos a mídia e a música grátis como uma forma de dizer que ‘todo mundo é bem-vindo’, chamando ao diálogo, criando uma comunidade, transformando-nos na marca confiável do movimento da música popular na China. Mas para isso, temos de atuar em todos os papéis: gravadora, comunidade on-line, produtora de eventos ao vivo, vendedores de artigos promocionais, produtora de televisão.”
Se isso dá certo na China, pode muito bem dar certo no restante do mundo. Nos Estados Unidos, as vendas de discos caíram quase 15% em 2008, e isso está longe de ser o fundo do poço. Pode chegar o dia em que muitas gravadoras jogarão a toalha e seguirão o modelo chinês, livrando a música das inconvenientes etiquetas de preço e passando a promover o talento, que elas capitalizarão de formas não tradicionais, como endossos e patrocínios. Já percebemos alguns vislumbres disso: o acordo que Madonna tem com a Live Nation se baseia em uma porcentagem de todo o seu faturamento, incluindo tours e artigos promocionais. E agências de talentos como a CAA e ICM estão pensando na possibilidade de se transformar em gravadoras, para eliminar o intermediário. Em um mundo no qual a definição da indústria da música muda a cada dia, a única constante é que a música cria celebridades. Existem problemas piores do que o desafio de transformar a fama em fortuna.