Free: grátis. O futuro dos preços

Chris Anderson · Capítulo 61 de 98

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Free: grátis. O futuro dos preços

10. Qual É o Tamanho da Economia Grátis?

QUAL É O TAMANHO DA ECONOMIA GRÁTIS?

 

A coisa não se limita apenas a dólares e centavos

 

AS PESSOAS ME PERGUNTAM ISTO o tempo todo: Qual é o tamanho da economia Grátis? A única resposta razoável a essa pergunta é: A qual economia Grátis você se refere? Isso faz diferença porque existem várias delas, da economia formal do mundo dos negócios à economia informal do voluntariado. Para complicar ainda mais a situação, é difícil mensurar as verdadeiras economias Grátis, e as economias falsas não são, bem… reais. Os inúmeros serviços não pagos que prestamos uns aos outros todos os dias, motivados pela gentileza ou pela obrigação social, são grátis, mas não são calculados. E o “compre um e leve o outro de graça” não conta como um novo modelo econômico que mereça ser seguido.

Vamos deixar de lado a utilização do termo “grátis” como um artifício de marketing. Isso inclui praticamente a economia inteira; suspeito que não exista um único setor da economia que não utilize esse recurso de uma forma ou de outra, de amostras grátis a brindes. Mas a maior parte disso não é verdadeiramente grátis – é só um subsídio cruzado direto de algum tipo. Não se trata de um mercado distinto mais do que a “economia de descontos” poderia ser, ou qualquer outro recurso de marketing.

Então, o que dizer sobre as economias não monetárias da reputação e da atenção? Elas representam economias reais, no sentido de serem mercados com “quase-moedas” que podem ser mensurados e valorizados, do número de pessoas atraídas aos amigos no Facebook. Mas por serem mercados não monetários, eles não são, por definição, medidos em termos monetários – como dólares e centavos. Mas isso não impediu as pessoas de tentarem – muitas vezes, com muita criatividade.

No início de 2009, o Burger King lançou uma de suas campanhas subversivas de marketing que se tornaram sua marca registrada. Chamada de “Whopper Sacrifice”, algo como “o grande sacrifício”, a campanha do Burger King oferecia aos membros do Facebook um hambúrguer grátis para cada 10 amigos que eles excluíssem de suas páginas da rede de relacionamentos sociais. (Isso servia para provar que “você gosta de seus amigos, mas adora o Burger King”, ou, o que é mais fácil de acreditar, servia para o Burker King ganhar notoriedade e gerar buzz.)

Acontece que há uma longa tradição de mensurar as economias em termos de hambúrgueres, a começar com o “Índice do Big Mac”, do Economist, que compara o preço dos hambúrgueres do McDonald’s em diferentes países para ver se os valores das taxas de câmbio estão corretos (com base no argumento de que uma rupia pode ser fraudada, mas um Big Mac é um Big Mac). Então, os bloggers rapidamente começaram a fazer algo similar com o Whopper Sacrifice e o Facebook.

Os “amigos” no Facebook representam uma unidade clássica de moeda de reputação. Quanto mais “amigos” você tiver, mais influência tem no mundo do Facebook e mais capital social tem para gastar. Com efeito, a maior parte do valor do Facebook reside no fato de que talvez ele tenha criado o maior mercado fechado do mundo de moeda de reputação, que compõe as bases de seu valor estimado em vários bilhões de dólares.

Mas descobrir exatamente quantos bilhões de dólares o Facebook vale tem sido uma questão complicada. Provavelmente é algum múltiplo do número dos usuários e do número de conexões entre eles, criado pelo ato de adicionar amigos ao site. Esse ato representa uma troca de moeda de reputação e, se essa moeda valer alguma coisa, deve valer algo para a pessoa que abre mão dela. Mas quanto? E o que isso implica para a valorização do Facebook?

Ao atribuir um valor em dólares a um amigo, o Burger King estava essencialmente oferecendo uma estimativa de mercado ao valor do Facebook. O blogger Jason Kottke fez as contas:

O Facebook tem 150 milhões de usuários e cada usuário tem, em média, 100 amigos. Cada amizade

requer o consentimento dos dois amigos, de modo que cada usuário, em média, só pode ganhar os

créditos por dar fim à metade de suas amizades. Um Whopper custa aproximadamente $2,40. Isso

significa que cada amizade de um usuário vale cerca de 5 Whoppers, ou $12. Faça os cálculos e terá:

$12/usuário × 150 milhões de usuários = valor de $1,8 bilhão para o Facebook

É interessante notar que isso é consideravelmente menor do que o valor de $10 a $15 bilhões que os investidores da rede de relacionamentos sociais, incluindo a Microsoft, estimaram em 2007 e 2008. Mas com a economia em crise e o Facebook ainda incapaz de encontrar uma forma de ganhar dinheiro mais rapidamente do que gasta, talvez o Burger King esteja mais certo do que o Bill Gates. (Com efeito, documentos dos investidores que vazaram no começo de 2009 mostravam que a estimativa interna do valor do Facebook era de apenas $3,7 bilhões em julho de 2008 e pode muito bem ter caído desde então.)

A atenção e a reputação claramente valem alguma coisa ou as empresas não gastariam tanto em propaganda para influenciar esses fatores. Determinamos preços para a atenção todos os dias: o custo de atingir mil ouvintes de rádio por 30 segundos, o preço de forçar um milhão de espectadores do Super Bowl a interromper o jogo. E sempre que o agente de uma estrela do cinema negocia um contrato para um filme, o valor de uma reputação está sendo estimado. Mas há muito mais atenção e reputação no mundo do que o que é mensurado na mídia e no mundo das celebridades. O problema é que não temos qualquer ideia de quanto.

A oferta global de atenção é fixa? Existe determinado volume de atenção e, para cada estrela do YouTube que sobe, outra deve cair para manter alguma constante cósmica? Uma geração pode ter mais capacidade de atenção do que outra e a multitarefa só categoriza de modo mais sutil essa mesma capacidade de atenção?

Vamos retomar o “número de Dunbar”, o limite observado do número de relacionamentos que uma pessoa pode manter em que a pessoa sabe quem cada um é e como cada um se relaciona com o outro. Décadas de pesquisa antropológica e estudos de milênios de história de civilizações determinaram que esse número equivale a 150. Mas isso foi antes do MySpace e de seus similares. Agora o software pode ajudá-lo a manter um número muito maior de vínculos. O número médio de amigos para membros do MySpace é de cerca de 180 e muitos atingem os milhares. Será que o silício aumentou nossa capacidade de reputação ou estamos apenas diluindo o significado de “amigo”?

São todas boas perguntas e provavelmente levará mais uma geração para respondê-las. Enquanto isso, vamos analisar algumas das formas mais concretas de Grátis e obter uma estimativa aproximada de seu tamanho.

A forma de Grátis de mais fácil mensuração é o “mercado de três participantes”, isto é, o mundo da mídia grátis paga pela propaganda, que já discutimos. Mais uma vez, isso diz respeito, em grande parte, à televisão aberta e ao rádio, à maior parte da mídia da Web e à proliferação de publicações impressas grátis, de jornais a revistas de “circulação controlada”. Contando apenas as 100 maiores empresas de mídia dos Estados Unidos em 2006, o faturamento de propaganda do rádio e da televisão (sem incluir a TV a cabo) foi de $45 bilhões.

No ambiente on-line, quase todas as empresas de mídia fazem suas ofertas serem grátis e pagas pela propaganda, tal como ocorre com muitas empresas fora do mercado da mídia, como o Google, de modo que incluirei todo o mercado de anúncio on-line na categoria “pagar para que o conteúdo seja grátis aos consumidores”. Isso constitui outros $21 a $25 bilhões. Revistas e jornais impressos grátis provavelmente representam mais $1 bilhão. E, sem dúvida, devo estar omitindo algumas outras categorias menores e muitos independentes não incluídos nos números citados. Mesmo assim, vamos estimar o total dos serviços e o conteúdo off-line e on-line pagos pela propaganda nos Estados Unidos em conservadores $80 a $100 bilhões.

A segunda forma, com a qual você já está familiarizado, é o freemium (o que os economistas chamam de “segmentação em versões”, ou “versioning”), em que alguns clientes pagantes subsidiam muitos clientes não pagantes. Isso inclui tanto empresas maduras com diferentes níveis de precificação de produto quanto start-ups que dão tudo de graça enquanto tentam descobrir se haverá demanda suficiente por suas ofertas para levar a um modelo de negócios (por exemplo, a maioria das empresas da Web 2.0).

É praticamente impossível classificar adequadamente todas as empresas que utilizam esse modelo, mas a Forrester Research, uma consultoria de Cambridge, Massachusetts, estimou que o lado corporativo do fenômeno (empresas gastando em serviços da Web 2.0, cuja maioria se posiciona no lado “premium” da equação freemium) era de cerca de $800 milhões em 2008. É seguro apostar que o lado do consumidor tem pelo menos um quarto desse tamanho, de modo que, juntos, eles devem constituir algo em torno de $1 bilhão.

Acrescente a isso o mercado de software de código aberto. Atualmente, o “ecossistema Linux” (tudo, desde o Red Hat ao negócio de consultoria em código aberto da IBM) constitui cerca de $30 bilhões, de acordo com a IDC, outra consultoria. Ela estima que outras empresas construídas em torno do código aberto, como a MySQL ($50 milhões em faturamento anual) e a SugarCRM ($15 milhões), provavelmente perfazem menos de $1 bilhão.

A maior parte do mercado de videogames on-line grátis utiliza o modelo freemium. Esses jogos são, em grande parte, online massively multiplayer games, que podem ser jogados gratuitamente mas ganham cobrando dos jogadores mais dedicados por itens digitais (upgrades, roupas, novos níveis etc.). O “mercado dos jogos casuais” (tudo, desde jogos de baralho on-line a jogos em flash) atualmente se aproxima dos $3 bilhões. Vamos considerar $4 bilhões o total. Dessa forma, o mercado freemium total é de cerca de $36 bilhões.

Por fim, temos a economia dos presentes. É impossível quantificar adequadamente esta última categoria, especialmente considerando que grande parte não tem qualquer valor monetário agregado a ela, mas darei alguns exemplos que têm números vinculados, de modo que você possa ter uma ideia da dimensão do mercado: o iPod, da Apple, que obtém grande parte de seu valor da capacidade de armazenar dezenas de milhares de músicas, só faz sentido se você não precisa pagar dezenas de milhares de dólares por essa biblioteca musical. O que, é claro, muitas pessoas não fazem, já que obtêm música de graça de amigos ou compartilhamento de arquivos. Então, qual porcentagem dos $4 bilhões em vendas anuais do iPod da Apple se deve ao Grátis?

Da mesma forma, qual parcela do valor estimado de $65 bilhões do MySpace se deve às músicas grátis que as bandas disponibilizam no site? Quanto do negócio de shows de $2 bilhões é impulsionado pelo compartilhamento de arquivos? E assim por diante. O Grátis cria muito valor a seu redor, mas, como muitas coisas que não pertencem à economia monetária, é difícil quantificá-lo apropriadamente. Qual é o valor da chuva em um dia ensolarado? Os dois enriquecem o solo, mas os benefícios são difusos demais para calcular com qualquer grau de precisão.

Então, qual é a conclusão disso tudo? Incluindo a primeira e a segunda categoria (anúncios e freemium), é bem fácil chegar à marca de $80 bilhões em faturamento total só nos Estados Unidos. Expanda isso à mídia tradicional paga pela propaganda e podemos chegar a algo entre $116 e $150 bilhões. Agora, inclua o mundo inteiro e podemos facilmente triplicar esses números, de modo a ter um valor de pelo menos $300 bilhões.

Então, $300 bilhões é uma boa estimativa aproximada na economia Grátis, definida em termos conservadores. E com certeza, é um valor baixo, por não levar em consideração a forma original do Grátis – o subsídio cruzado (ganhe uma coisa “grátis” e pague por outra). E também não faz jus ao verdadeiro impacto do Grátis, sentido tanto em termos não monetários quanto em termos de dólares e centavos. Mas pelo menos nos dá uma ideia das dimensões dessa economia: há muito Grátis no mundo e muito dinheiro para se ganhar com ele.

Uma última forma de calcular o tamanho do mundo Grátis é analisar a mão de obra dedicada a ele. Por exemplo, em 2008, a Ohloh, empresa que analisa a indústria do software livre, registrou 201.453 pessoas atualmente trabalhando em um número impressionante de 146.970 projetos. Isso equivale aproximadamente ao tamanho da força de trabalho da GM, o que representa um número enorme de pessoas trabalhando de graça, e até mesmo em período integral. Imagine se elas estivessem produzindo automóveis! O autor Kevin Kelly estendeu essa análise para a Web em geral. Ele observa que o Google calculou que a Web tem mais de 1 trilhão de URLs únicos. (É difícil saber o que conta como uma página única, porque um catálogo pode gerar uma visualização distinta para cada visitante a cada clique, embora o Google seja muito bom em distinguir entre esse tipo de site e links codificados à mão.)

Digamos, para fins de cálculos aproximados, que, em média, cada página (ou mensagem em um blog ou qualquer outra coisa com um link permanente) demande uma hora de pesquisa, composição, design ou programação para produzir. Nesse caso, a Web representa 1 trilhão de horas de trabalho.

Um trilhão de horas nos 15 anos em que a Web vem sendo construída equivale a 32 milhões de pessoas trabalhando em período integral ao longo desse período. Digamos que 40% disso tenha sido feito de graça – as páginas do Facebook e MySpace, os blogs, os inúmeros comentários e mensagens em grupos de discussão. Isso equivale a 13 milhões de pessoas – quase a população ativa do Canadá. Quanto valeriam seus salários, se elas fossem pagas? Considerando um salário anual de $20 mil – uma pechincha –, isso representaria mais de $260 bilhões ao ano.

Em resumo, o Grátis é uma economia do tamanho de um país – e não estamos falando de um país pequeno.